Ttulo original:

THE COREY PRESCRIPTION Capa: FTIMA CNDIDO

Fotos da capa: PHOTODISC

1999 by Michael Palmer

Impresso e acabamento para Crculo de Leitores por Printer Portuguesa

Casais de Mem Martins, Rio de Mouro em Outubro de 2001

Nmero de edio: 5169 Depsito legal nmero 168 059/01 lSBN 972-42-2561-

PREFCIO

Julho de 1946

Com um breve grunhido de satisfao, Ramirez bebeu o resto do usque dum longo trago. Quando se 
preparava para se servir da quarta bebida daquela noite, o Rosa T elevou-se na crista duma onda e desceu-a 
desajeitadamente at ficar de novo na posio horizontal. Com os reflexos resultantes de anos no mar, ajustou 
habilmente o ngulo da garrafa e encheu o copo sem entornar uma gota.

Toms Ramirez tinha mais de sessenta anos, mas a farta barba grisalha e a corpulncia, mais a pele morena e 
curtida pelos elementos, davam-lhe uma aura sem idade definida. Entre os seus conhecidos nenhum conseguia 
record-lo ou imagin-lo a fazer outra coisa que no fosse comandar o Rosa T

Originariamente destinado e usado no transporte de bananas, o cargueiro albergara muitas e mais interessantes 
cargas desde que formara equipa com o seu comandante. Durante anos, antes do incio da guerra, tinha feito 
contrabando de cocana e haxixe para os Estados Unidos e o Canad, voltando a vrios portos sul-americanos 
carregado de produtos industriais e bebidas alcolicas, sem pagar direitos.

Quando os combates no Atlntico aumentaram de intensidade, Ramirez descobriu rapidamente que as suas 
habilidades especiais valiam dinheiro e proteco, tanto da parte dos Aliados como dos Alemes. Arvorando a 
bandeira do Panam, o Rosa T transportou armas da Alemanha para os guerrilheiros da Amrica Central e do 
Sul, e em vrias outras ocasies, sob a bandeira alem e contratado pelos Americanos, levou homen

de negcios at  costa norueguesa. Ao todo, entre os anos de
1941 e 1945, comandante e cargueiro haviam feito mais de trinta travessias do Atlntico, as ltimas das quais 
transportando, por elevadas quantias, dirigentes militares e polticos alemes para portos no Brasil e na 
Argentina.

Ramirez adquirira justificadamente uma reputao internacional de homem que fazia o seu trabalho bem feito, 
sem perguntas sobre a carga desde que lhe pagassem o que exigia. Contudo, nos meses que se seguiram  
guerra, os contratos foram poucos e os lucros inexistentes. Ramirez teve de despedir a maior parte da sua 
tripulao de nove homens e viu-se obrigado, por duas vezes, a efectuar transportes legais e mal pagos.

De repente, num dia de calor sufocante na Cidade do Panam, tudo isso mudou. Ramirez tinha outra vez 
dinheiro, uma tripulao completa e cumpria um contrato to lucrativo que no ia precisar doutro por muitos 
meses.

Trs metros abaixo do comandante, numa estreita tarimba no maior dos trs minsculos camarotes do navio, 
dorma o motivo da sua inesperada sorte. O homem, conhecido pela tripulao apenas como Nick, passara 
quase toda a viagem de sete dias ali fechado, saindo s uma vez por dia para partilhar uma pequena refeio e 
vinho tinto, ao meio-dia, com Ramirez. Todos a bordo tinham concludo erroneamente que o passageiro sofria 
de enjoo, mas, na realidade, Nicholas Ferlazzo passara quase dezasseis horas, todos os dias, a estudar e a 
decorar os documentos e livros que lhe tinham sido entregues pelos homens que o esperavam quando chegara 
ao Panam, alis, os mesmos que haviam contratado Ramirez e organizado a viagem para norte.

O comandante olhava para a garrafa e encarava a hiptese duma quinta bebida, quando o seu imediato e nico 
membro permanente da tripulao bateu  porta e enfiou a cara queimada no camarote.

- Acabmos de estabelecer contacto via rdio, meu comandante. Mesmo no horrio. No deve demorar mais 
do que uma hora...

- Qual  a nossa posio? - interrompeu Ramirez.

- Cerca de sessenta milhas a norte do farol de Eastport, seguindo a duzentos e oitenta.

- Vou para a ponte daqui a um minuto. O tempo aguenta-se

- H algum nevoeiro, mas devemos conseguir alcan-los sem problema, se souberem o que esto a fazer.

- At agora tm sabido - comentou Ramirez.

A notcia do iminente encontro despertou pouca reaco da parte de Ferlazzo, que pousou os mapas que 
estudava e voltou a deitar-se, olhando para o tabique cinzento diante de si. Tinha um pouco mais de um metro 
e oitenta, e a barba de trs meses fazia-o parecer ligeiramente mais velho do que os seus dezanove anos. No 
conjunto, a sua aparncia nada tinha de especial, ou seja, nada excepto os olhos, que, emoldurados por 
espessas sobrancelhas e ligeiramente lnguidas plpebras, eram dum castanho-escuro quase metlico, com 
uma mirada to aguda que poucos conseguiam sustent-la durante muito tempo.

Com uma semana de vida, fora encontrado, embrulhado num pano cuidadosamente cosido, junto ao porto 
dum pequeno convento perto de Siracusa, a cerca de oitenta quilmetros a sul do monte Etra, na Siclia. 
Levado para o orfanato, junto ao convento, foi tratado como todas as outras trinta e cinco crianas, at que o 
descobriram, aos trs anos, sentado, sozinho, a ler um livro de histrias em voz alta. Para seu espanto, as 
freiras descobriram que o decorara todo, depois de as ter ouvido l-lo uma nica vez.

Aos cinco anos, falava fluentemente italiano e latim e comeava a aprender francs. A sua capacidade de 
recordar factos que lhe eram expostos uma s vez ultrapassava a sua compreenso, mas mesmo esta era 
notavelmente avanada.

A fama da espantosa criana espalhou-se pelas aldeias vizinhas e, no fim de 193 1, Domenico Ferlazzo deu a 
volta s montanhas desde Ragusa para o ver. A sua imediata oferta de adoptar o garoto foi aceite, bem como 
um generoso donativo para o orfanato. O facto de o novo pai, o homem mais rico de Ragusa, ter regressado da 
Amrica uns anos antes por entre rumores de problemas nesse pas pouco peso teve para dissuadir as freiras, 
visto ser um homem religioso e muito caritativo para a Igreja.

Com professores especiais, Nicholas Ferlazzo aprendeu a falar oito lnguas sem sotaque at aos dezasseis 
anos, e outros ajudaram-no a desenvolver as suas extraordinrias qualidades de atleta, a aprofundar a histria 
da Itlia e da Amrica, a tornar-se um atirador de primeira e a especializar-se noutras dsciplinas, Ao mesmo 
tempo, Domenico Ferlazzo passava horas sem fim com o filho, que foi absorvendo e retribuindo a sua 
dedicao do mesmo modo que aproveitava os ensinamentos

Nicholas tinha quase quinze anos quando possuiu a sua primeira mulher, uma criada da cozinha dos Ferlazzo, 
de vinte e nove anos e peito avantajado, e acabara de fazer dezasseis quando matou o seu primeiro homem, 
por ordem do pai, dada durante um dos seus frequentes passeios pelas pedregosas colinas em volta de Ragusa.

- Sabes que gosto muito de ti, Nicholas - disse Domenico - e que s mais importante para mim do que tudo 
neste mundo.

- E o pai tambm  o meu mundo! - respondeu o jovem. -Era isso que eu queria ouvir, filho... Nicholas, 
quando deixei a Amrica, h anos, havia uns homens nesse pas que queriam fazer-me muito mal. Agora no 
interessa o motivo de pretenderem acabar com a minha vida, mas esse sentimento no desapareceu com o 
tempo. Soube h pouco que um fulano chamado Amadeo Secchi chegou a Palermo e que tem planos para me 
matar. Estou a ficar velho e no me sinto capaz de me defender dele.

- Fale-me desse homem, pai, e eu vou  procura dele e mato-o!

- Assim ser, porque tem de ser. Tenho informaes sobre ele l em casa, mas tu no podes ser visto nem 
relacionado de qualquer maneira com a sua morte.

- Eu percebo, pai - respondeu Nicholas.

Trs dias depois, numa rua deserta de Palermo, Amadeo Secchi era morto por um assaltante desconhecido 
com um nico tiro de espingarda na testa. Ao longo dos anos seguintes, houve mais trs pedidos semelhantes 
de Domenico Ferlazzo, e trs mortes de inimigos seus igualmente impossveis de desvendar. O jovem 
Nicholas no sentiu culpa ou remorso pelos assassnios - o pai encarregara-se pessoalmente da educao 
moral do rapaz.

Durante esses anos, procurou-se ensinar a Nicholas todas as matrias relacionadas com a vida na 
Amrica, e ele depressa aprendeu tudo o que os seus professores sabiam acerca do governo, da histria social 
e cultural e da economia dos Estados Unidos. A sua educao no foi interrompida pela guerra, que pouco 
efeito teve na sua famlia ou sequer na maioria dos habitantes de Ragusa.

Em Fevereiro de 1946, Nicholas soube pela primeira vez dos planos e disposies do pai a seu respeito. Mais 
uma vez

passeavam juntos pelas poeirentas colinas cobertas de arbustos, quando Domenico Ferlazzo falou do assunto. 
Como sempre, ao lidar com o filho, dirigiu-se-lhe directa e honestamente:

- Nicholas - disse ele, colocando o brao sobre os ombros do rapaz -, os mdicos em Palermo disseram-me 
que o tumor do estmago voltou. Podem operar-me outra vez, mas quase sem esperana de o tirar todo. Por 
isso, decidi no ser operado; eles dizem que agora  s uma questo de meses.

-Tm a certeza, pai? Deve haver outros mdicos a que possa ir. Talvez em Roma...

- No, filho - interrompeu Ferlazzo. - No vale a pena. J sei h vrias semanas e comecei a tomar algumas 
providncias quanto ao teu futuro. A tua me vai para o Norte, viver com a famlia dela, e a casa ser vendida. 
Para mim, o que  importante agora  tu teres oportunidade de continuar os estudos.

Nicholas estava to perto das lgrimas como nunca mais em toda a sua vida.

-Claro que vou continuar os estudos, pai. Mas a casa...
- Isto no  stio para viveres, Nicholas. H anos que decidi que o teu futuro estava noutro stio e agora, com o 
fim da ,guerra, os Estados Unidos voltaram a ser um pas de muitas oportunidades para aprenderes e 
cresceres. Entrei em contacto com o teu tio Peter, em Bston, e ele concordou em arranjar um princpio de 
vida para ti. Acha que  possvel entrares numa universidade americana e conhece um casal sem filhos que 
est ansioso por tratar-te como se fosses da famlia. Sei que  uma perspectiva assustadora, mas tens de me 
prometer que concordas com o meu plano.

- Eu fao tudo o que o pai me pedir - concordou o rapaz. - Sabe que sempre o fiz.

- Muito bem, partes este Vero. O Peter, em troca, quer um favor teu. Como aconteceu em relao a mim, 
quando me ajudaste a... bem... a lidar com pessoas que queriam fazer-me mal, o teu tio tem um inimigo desses 
e gostava que tu o eliminasses. Ele  o meu nico irmo, Nicholas, e fomos sempre muito unidos enquanto 
vivi na Amrica. Os inimigos dele tm de ser tratados como se fossem meus. Depois de fazeres isto por ele, 
ficas livre para continuar a tua educao e seguir a tua vida. Entretanto, precisas de acelerar os teus estudos e 
tens de me ajudar a fechar a casa

Nos meses que se seguiram, Domenico Ferlazzo piorou rapidamente e no princpio de Abril, com o filho  
cabeceira, morreu. Ojovem Nicholas no mostrou qualquer reaco emocional, a no ser passar muitas horas, 
depois do enterro, a percorrer as colinas por onde passeara com o pai. Em Junho, chegou um recado de Peter 
Ferlazzo, com instrues para fazer uma mala apenas com o necessrio e apanhar, em Palermo, um cargueiro 
com destino ao Panam, na Amrica Central, onde estariam  sua espera amigos, que tratariam da sua viagem 
para os Estados Unidos.

Sem lgrimas e muito pouca apreenso, Nicholas Ferlazzo deixou a sua casa e viajou para Palermo.

Foi Ramirez quem primeiro avistou as luzes do barco que se aproximava. Com uma agilidade imprevisvel 
numa pessoa da sua corpulncia, correu para a proa do Rosa T e enviou o sinal de luz previamente combinado 
e, assim que obteve resposta, mandou o imediato prevenir Nick.

- Ouva isto - disse Ramirez, entregando-lhe um revlver de cano curto - e no o deixes sair do camarote at eu 
te fazer sinal de que nos pagaram. A seguir, rumamos a Bston. Dizem que h l muitas mulheres lindas, 
ansiosas por nos ajudarem a gastar o dinheiro.

Com o imediato de sentinela  porta do camarote, Ferlazzo guardou cuidadosamente todo o material que 
estudara, bem como as suas poucas roupas, num saco de marinheiro, tirando, primeiro, dele uma caixa de 
carto com cerca de vinte centmetros quadrados por dez. Abriu-a, ligou dois fios, fechou-a e meteu-a debaixo 
da tarimba, empurrando-a bem para o fundo. A seguir, estendeu-se no fino colcho e ficou  espera.

O Atlntico norte manteve-se calmo enquanto Ferlazzo, com o seu saco de marinheiro, desceu a escada de 
corda at ao barco de recreio acostado ao cargueiro.

O comandante Ramirez, depois de contar e recontar os cinquenta mil dlares recebidos, encontrava-se na 
ponte quando o barco de recreio se afastou para nordeste.

A bordo deste, a quase uma milha do cargueiro, Ferlazzo encarou os seus novos associados.

- Pagaram mesmo cinquenta mil dlares para me trazerem at aqui? - perguntou, um tanto incrdulo.

Um dos seus anfitries, um homem de aspecto distinto

com um fato de fazenda e uma gravata larga, sorriu e respondeu:

- No com notas que algum possa querer gastar.

Nesse momento, o cu iluminou-se com um claro a sudoeste e, trs segundos depois, um estrondo abafado 
chegava ao convs do barco de recreio: o Rosa T incendiara-se, partira-se ao meio e, em cinco minutos, 
afundara-se.

Nicholas Ferlazzo dirigiu-se ao bar, onde se serviu de um pouco de chianti, e depois estendeu-se num fofo 
sof de cabedal para continuar a estudar

1 PARTE

Abril de 1978

... Resumindo, esta portuguesa de cinquenta e seis anos apresentou-se no consultrio queixando-se de dores no ombro direito, e 
apresentou sinais de bursite deltide ao ser examinada. o procedimento inicial ser imobilizao e aspirina. Apresso arterial  de 
210/115 e apresenta sintomas de prolongada hipertenso em ambas as retinas. No entanto, no consegui convenc-la da necessidade de 
novos exames e tratamento para este problema. O plano  contactar o filho, que fala ingls, para nos ajudar a organizar o 
acompanhamento da presso arterial. Fim do ditado ... L. T. C. obrigado.

Luke Corey desligou o dictafne e encostou-se na cadeira, de olhos fechados e a esfregar a cana do nariz. Um raio de sol do fim da tarde 
iluminou um canto da secretria e fez uma risca brilhante no desenho do papel da parede. O seu pensamento estava nas vinte e duas 
pessoas com cujos problemas lidara nesse dia. Durante dez minutos, apreciou o silncio, prazer apenas ligeiramente diminudo pela dor 
no fundo das costas. Ultimamente, parecia-lhe que elas comeavam a incomod-lo todos os dias mais cedo.

- Acabado aos trinta e seis - disse em voz baixa para consigo.

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Levantou-se, espreguiou-se e observou o consultrio onde trabalhava nos ltimos quatro anos, satisfeito com 
a atmosfera um tanto atravancada mas agradvel. Localizado numa esquina, numa casa ao estilo de Cape Cod, 
com sessenta anos, o consultrio tinha uma grande secretria de carvalho antiga, um sof de dois lugares 
estofado com um tecido azul, uma estante do cho ao tecto cheia de livros, sebentas e revistas por encadernar, 
e ainda uma cadeira baixa, creme, a um canto para ele poder evitar uma das coisas que mais detestava - falar 
com os doentes por cima da secretria. Na parede fronteira  nica janela, estavam pendurados quatro 
diplomas com molduras pretas.

Pelos documentos cheios de desenhos ornamentais, era possvel determinar que o ocupante do consultrio era 
Lewis Tyier Corey e que se formara em Harvard, em 1963, e na Faculdade de Medicina do Mississpi, em 
1967. Os outros dois quadros mostravam que o Dr. Corey tinha licena para praticar medicina no estado do 
Massachusetts e era membro da Ordem dos Mdicos como clnico geral.

Na gaveta de baixo, do lado esquerdo da secretria, havia um quinto certificado, no seu sobrescrito original e 
por emoldurar - um louvor do presidente dos Estados Unidos, datado de Julho de 1970 - e, num elegante 
estojo preto, uma medalha da Estrela de Prata e uma Cruz de Guerra.

Os poucos minutos de sossego foram interrompidos por um estalido e um apito abafado do intercomunicador, 
a um canto da secretria. O som parou e foi seguido pela voz nasal e quase neutra da telefonista do hospital:

- Doutor Corey,  favor ligar para a Urgncia. Doutor Corey, Urgncia, por favor.

parado junto  janela, observou um passarinho a saltitar na relva. Depois, com um suspiro de resignao, 
dirigiu-se  secretria, carregou no boto que desligava o aparelho e pegou no auscultador do telefone.

-Pai, posso parar agora? Estou a estudar h quase uma hora e sinto-me cansado.

- Podes parar assim que souberes bem a pea, Luke. Trabalhas na mesma fuga h mais duma semana e 
continuas a cometer os mesmos erros. Como vamos ser a estrela do recital da senhora Hartman, se no 
conseguimos aprender uma simples fuga de Bach?

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-Mas eu no consigo, pai!

- Luke, sabes que a tua me e eu no queremos ouvir-te dizer no consigo. Descansa um minuto e tenta do 
princpio.

- Est bem.

Janet Dibbs era a enfermeira-chefe da Urgncia do Hospital de Strathmore e sentia-se justificadamente 
orgulhosa do seu trabalho.

Como ficava em Cape Cod, Strathmore registava no Vero quase um aumento para o dcuplo da sua 
populao de dez mil habitantes do resto do ano. A Urgncia sofria um aumento proporcional de admisses e 
surgiam todos os anos problemas de pessoal, que Janet Dibbs resolvia com eficincia. O seu nico defeito, se 
o fosse, era a necessidade de fazer ver aos doentes a sua importncia pessoal nos cuidados que recebiam.

Com trinta e um anos e solteira, Janet era completamente dedicada ao trabalho, ao hospital e aos doentes. 
Tinha um profundo respeito, quase amor, pelos bons mdicos - os que eram competentes e carinhosos - e era 
impiedosa para com os mercenrios que faziam as coisas sem se ralar ou que davam sonoras ordens de vida 
ou de morte, apoiados em fracos motivos clnicos por serem   demasiado inseguros para pedir ajuda.

Em vrias ocasies,  havia mesmo discutido abertamente ordens de mdicos desse   tipo diante de outros 
membros do pessoal e, pelo menos uma vez, teve de responder perante os seus superiores por pedir a um 
clnico que observasse um doente particularmente grave sem obter o consentimento do mdico desse doente.

Quase desde o dia da chegada a Strathmore, Luke era um dos favoritos de Janet Dibbs. Os sentimentos da 
enfermeira para com ele nasceram, e consolidaram-se depois, durante a primeira verdadeira emergncia em 
que trabalharam juntos: uma paragem cardaca.

Foram aplicados os choques elctricos e restabelecido um ritmo cardaco aparentemente normal. Luke foi 
dando as ordens apropriadas, com uma voz forte mas calma, pontuadas com por favor, e comentando 
abertamente manobras de enfermagem bem feitas. Desenvolvera-se um ritmo de boa cooperao entre a 
equipa de trs enfermeiras e dois mdicos, quando Susan Carmichael exclamou:

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--No consigo ouvir a presso, doutor Corey. H um minuto atrs era noventa/sessenta.

-Abra mais a IV, por favor.
- J abri.

- Comea outra vez a compresso, Walt. Enfermeira Dbbs, preciso de dopamina, se faz favor.

-  Sim, doutor. Que concentrao?
- Como?

- A dopamina, doutor. Que concentrao quer?

Durante alguns segundos, fez-se silncio completo na sala, excepto quanto ao constante bater do 
compressor cardaco e o rudo peridico do respirador porttil. Luke, de olhos fixos no cho, 
ergueu a cabea, ligeiramente inclinada para um lado, e disse:

- Raios me partam. No consigo pensar.  capaz de me ajudar, enfermeira Dibbs?

- Acho que oitocentos miligramas em quinhentos centmetros cbicos de gua com sal devem 
resultar.

- ptimo, misture e aplique, por favor. Aguentem-se todos, que ele safa-se.

Dez minutos depois, estava restabelecida uma presso sangunea estvel.

Luke no tentou desculpar-se do lapso. Em vez disso, sorriu abertamente e dirigiu-se a Janet diante 
do pessoal. -Obrigado por me safar, enfermeira Dibbs. Pode ajudar-me sempre que haja uma 
paragem cardaca.

urgncia, enfermeira Dibbs.

-  o Luke, Janet. Que  que tem a?

-Uma mulher de cinquenta e cinco anos que sofreu um colapso durante o jantar com amigos. No 
tem mdico particular, e como o nome do doutor vem na lista desta noite... Que tal est ela?

No reage, a presso  duzentos e trinta/cento e trinta, a respirao trinta e o pulso cento e vinte, 
regular. Provavelmente, trata-se de um derrame cerebral.

- Pupilas?

- Posio mdia, iguais e reactivas.
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- Faa-lhe um cardiograma e ponha-a a dextrose e gua, se faz favor. Estou a em dois minutos.

Luke desligou o telefone, massajou as costas durante um momento, enfiou um casaco leve e saiu pela porta 
das traseiras. Habitualmente, fazia a p os quatrocentos metros que separavam os consultrios de T. Kenner 
Putriam, mdico, e Lewis T. Corey, mdico, at ao hospital. Nessa noite, contudo, com um doente na 
Urgncia, decidiu levar o seu Oldsmobile verde de 1966, alcunhado Kong por um amigo depois de ter 
sado inclume duma coliso que desfizera um Ford novo de bom tamanho.

Luke gostava do Olds pela sua estrutura slida e pelo facto de acomodar confortavelmente os seus metro e 
noventa e oitenta e sete quilos. Atraente duma maneira rude, o seu aspecto tinha sido descrito por uma ex-
namorada como rufio antigo, e o nico pente que usava no cabelo liso castanho-claro eram os dedos, o que 
lhe dava um ar quase descuidado. Esse ar, aliado aos olhos azul-esverdeados encovados, parecia despertar o 
instinto maternal das mulheres, independentemente da idade.

Luke tinha conscincia do sentimento que nelas despertava, mas no conseguia aceitar o facto de muitas o 
acharem tambm sexualmente atraente. Hbil e seguro na medicina que praticava, no tinha confiana em si 
prprio nem muita experincia com o sexo oposto fora do ambiente hospitalar.

Como sempre, a porta do Olds no abriu quando ele carregou no boto do puxador. Luke ia a meter a mo no 
bolso  procura da chave, mas lembrou-se de que nunca trancava o carro. Sorriu e levantou ligeiramente o 
puxador, abrindo ento a porta.

-  Que  este medocre em francs?

-A Madame Smeeth no gosta de mim. Parece que no consigo ter a pronncia que ela quer

- Ora, Luke, a doutora Smith ensina francs h muito tempo e, se ela diz que a tua pronncia no est 
correcta, provavelmente  verdade. Tens ido ao estudo depois das aulas?

- No, pai. Tem havido treinos de basquetebol e...
- Deixa l os treinos de basquetebol. Sabes perfeitamente que as notas deste ano ficam no teu currculo. 
Queres que te arranje um explicador de francs?

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-No, pai, no  preciso...

- No achas que ests a ser um bocadinho severo com ele, Lew?

- Margaret, eu sei o que  preciso para entrar na faculdade e no so notas destas,

-Eu vou tentar melhorar no perodo que vem. -ptimo, Luke. E olha...

- Sim?

- Estou satisfeito com os muito bons de todas as outras disciplinas.

A Urgncia dos hospitais, com a sua actividade contnua e fluorescncia artificial, tem um aspecto intemporal. 
S os muitos relgios de parede, espalhados por todo o lado, orientam uma equipa quanto ao que pode estar a 
passar-se no mundo exterior, mas, desde os primeiros dias de estgio, Luke sentira-se bem nesse ambiente.

s seis e um quarto da tarde do dia vinte e um de Abril, a Urgncia do Hospital de Strathmore estava 
particularmente activa. Os gritos desamparados duma criana a ser cosida na sala dois misturavam-se com o 
incessante toque dos telefones e as frases habituais: Chama outra vez o especialista o mais depressa 
possvel!  ... ento mude algum, porque este homem tem de ficar nos C.I ...   ... Doutor Clarke, a sua 
doente est pronta na sala cinco. Parece muito aborrecida por ter esperado tanto ...  Olhe, diga-lhe que v... 
deixe l, digo-lhe eu mesMo.

Luke passou as portas giratrias, olhou em volta e dirigiu-se  sala seis, sempre reservada para os casos 
crticos. Janet Dibbs estava a colocar o soro, e outra enfermeira verificava a presso arterial duma mulher um 
tanto obesa, de cabelo preto, imvel na estreita marquesa.

Com um breve olhar na direco da paciente, Luke fez uma ligeira careta e perguntou  enfermeira-chefe:

- Ento?

- Pouca alterao desde que falei consigo ao telefone. Veio de ambulncia, mas acho que acabam de chegar 
uns amigos ou pessoas de famlia. Esto na sala de espera. Chama-se Evelyn Samuels, tem cinquenta e sete 
anos, sem historial clnico, mas a Hazel da recepo julga lembrar-se dela e diz que vive sozinha.

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Lukc fez um rpido exame a Evelyn Samuels, observando diversas coisas em segundos e registando-as na 
mente, enquanto continuava a falar com Janet Dibbs.

Pupilas quatro milmetros, ligeiramente reactivas, sem movimentos espontneos nos olhos ou membros. 
Pescoo um tanto rgido.

- Como est a presso?

- Subiu um bocadinho para duzentos e cinquenta/cento e quarenta, mas o pulso baixou para oitenta e a 
respirao para quinze.

- Parece ser uma hemorragia ou uma crise hipertensiva. D-lhe imediatamente trezentos centmetros cbicos 
de diazxido.

0 corao apresenta um ritmo regular. Sem murmrios. Os pulmes esto limpos.

- Enfermeira Olsen, d-me um oftalmoscpio, se faz favor?

- Claro, doutor.

Pulsao, femoral normal, ausncia de espasmos nas pernas, reflexo de Babinski bilateral.

-O oftalmoscpio, doutor.

- Obrigado. Arranje-me um martelo de reflexos, se faz favor, e veja l por que razo a enfermeira Dibbs se 
demora com o diazxido.

Ausncia de reflexos. O pescoo parece um pouco mais hirto agora. As cartidas esto normais e iguais. Os 
olhos no apresentam hemorragias, mas talvez um ligeiro enevoamento das margens do disco ptico. Os 
vasos retnicos esto estreitados, mas no muito.

- J apliquei o diazxido, doutor.

- Bom, acho que  uma hemorragia. D-me quinhentos centmetros cbicos de manitol e veja se o Lowenstein 
est de servio na Neurologia. Ela j apresenta aumento da presso intercraniana.

-Quer que chame o neurologista?

- S se for o Lowenstein, os outros dois no tm sido grande ajuda at aqui. Olhe, e diga  famlia que as 
coisas esto complicadas. Eles que esperem, irei l assim que puder.

Luke endireitou-se e fez uma careta, porque, pela primeira vez desde que chegara  Urgncia, teve 
conscincia do aumento da dor nas costas. Eram j seis e quarenta e cinco, o comeo

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do que parecia vir a ser uma longa noite, e ainda tinha de fazer a visita nocturna.

- Aqui tem o manitol. O doutor Lowenstein est numa reunio fora - informou Janet Dibbs, despertando Luke 
duma breve distraco.

-No lho ponha at vermos o que acontece com a presso. Verifique-a de um em um ou dois em dois minutos, 
se puder. Quero falar com a famlia dela. E, por favor, prepare o material para lhe tirarmos um pouco de 
fluido espinal, com uma agulha bem fina, para termos a certeza da hemorragia.

Trs pessoas, dois homens e uma mulher, levantaram-se ao fundo da sala de espera cheia e seguiram Lukc at 
 sala tranquila numa extremidade da Urgncia. Os homens estavam com ar grave e preocupado. A mulher 
chorava.

- Sou o doutor Corey. Algum dos senhores  da famlia da senhora Samuels? - perguntou Luke, lembrando-se 
de repente que no reparara se a doente usava aliana.

- No, somos amigos. Estvamos a jantar em casa dela, quando isto aconteceu - respondeu um dos homens, 
entre cinquenta e cinco e sessenta anos, calculou Luke, cabelo grisalho, casaco de desporto azul, sem gravata.

- Pode dizer-me exactamente o que aconteceu, por favor?
- Foi incrivelmente rpido - respondeu o homem. - Ela estava com ptimo aspecto e parecia sentir-se 
perfeitamente quando, de repente, se agarrou  cabea, depois inclinou-se para a frente e caiu. Nunca deixou 
de respirar e o pulso parecia bem, de maneira que chamei o cento e doze,

- Teve alguma coisa parecida com uma convulso? Sabe se toma medicamentos?

- Que eu desse por isso no, e somos amigos h uns anos
- disse o outro homem, que aparentava cerca de quarenta e cinco anos, estava bem vestido, tinha as unhas 
arranjadas e trazia uma camisola amarelo-clara e um lao. - A filha talvez saiba. Ela tem uma filha. Sabes 
onde ela vive, Lil?

- Como est a Evelyn, doutor?

A mulher chamada Lil tinha provavelmente quarenta anos, mas aparentava cinquenta, apesar de muito 
pintada.

- Achamos que sofreu um acidente vascular cerebral, provavelmente uma hemorragia. Estamos a fazer tudo o 
que  possvel, mas de momento o caso  complicado.

- A filha chama-se Karen e  assistente social ou coisa pa-
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recida, em Nova Iorque. No sei a morada, mas a Evelyn fala dela a toda a hora. Eu trouxe a bolsa da minha 
amiga. Talvez haja alguma coisa sobre a Karen.

Luke acabava de pegar na carteira onde estavam os documentos quando Janet Dibbs enfiou a cabea na sala.

- Pode chegar aqui imediatamente, doutor Corey? O mdico devolveu a bolsa  mulher.

- Olhe, veja se consegue descobrir alguma coisa sobre a filha. Eu volto assim que puder.

Janet foi falando enquanto se dirigiam rapidamente  sala seis.

-A pupila esquerda est muito maior do que a direita, a presso baixou para cento e vinte, mas o pulso  s 
cinquenta e a respirao tambm est mais lenta.

- Aplique o inanitol o mais depressa possvel. Temos de tentar reduzir o hematoma cerebral. Assim que 
estiver a correr, d-lhe doze miligramas de dexametasona e ponha-lhe uma alglia, por favor. E, se ela  
catlica, chame o capelo.

Luke reviu rapidamente o exame fsico de Evelyn Samuels, confirmando a sua impresso de aumento da 
presso intercraniana. Pouco mais podia fazer do que os tratamentos que j decidira, excepto esperar que 
resultassem e invertessem o processo. Ficou uns minutos a olhar para a mulher que lhe absorvia 
completamente o pensamento e as energias, algum que, uma curta hora antes, nem sequer conhecia.

A sua primeira impresso era de que devia ter sido encantadora quando era mais nova. O peso a mais no lhe 
atingira a cara, que era estreita, de boa estrutura ssea, emoldurada pelos cabelos pretos at aos ombros. Uma 
fina linha rosada aparecia sob a mscara plstica de oxignio, e as nicas jias que usava eram umas simples 
prolas nas orelhas.

Nesse momento, Luke reparou no pulso esquerdo e pensou por um instante em quantas vezes, na sua carreira 
de mdico, no via inicialmente uma caracterstica fsica importante, como um membro deformado, enquanto 
se concentrava no que se relacionava com a doena imediata dum paciente. O pulso tinha adesivo a toda a 
volta, com cerca de dois centmetros de largura. Ia tirar-lho quando Janet entrou com o tabuleiro com a alglia 
e comeou a falar enquanto trabalhava.

- Acho que a mulher que est na sala tranquila desco-
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briu qualquer coisa sobre a filha desta doente. Pode ir l, se quiser, que eu tomo conta dela.

Quando Luke entrou na sala, a mulher chamada Lil, j sem lgrimas e com a pintura retocada, tinha na mo 
um carto gasto. -C est! - exclamou. - Em caso de acidente, avisar

Karen Samuels, oitocentos e oitenta, Rua Cinquenta e Sete, Oeste, Nova Iorque.

Luke pegou no carto, e um dos homens perguntou: -Como est ela?

-No muito bem. Permanece em coma, mas continuamos a fazer tudo o que  possvel.

- Acha melhor esperarmos?

- Se quiserem, tudo bem, mas as coisas deste gnero costumam ser imprevisveis. Se deixarem um nmero de 
telefone onde possam ser contactados, eu dir-lhes-ei qualquer coisa assim que surgir uma alterao.

- Obrigado, doutor,  isso que vamos fazer.

-Luke, ests ocupado? Posso entrar e falar contigo um minuto?

- Claro, me, estou s a acabar o raio da qumica. Mais quatro meses e pronto! Pelo menos o liceu.

- Luke, sabes que eu gosto de ti e da Elisabeth mais do que tudo neste mundo...

- Claro que sei, me, e ns tambm a adoramos. Aos dois.

- O pai e tu no tm falado muito, ultimamente. -  por causa daquela chatice com a faculdade. Opai parece 
que no compreende...

- Eu sei o que se passa. O teu pai e eu estamos casados h mais de vinte anos. Se algum sabe como ele  
obstinado e casmurro, sou eu. Desde o dia em que nasceste que ele s quer o que lhe parece melhor para ti...

-Pois sim, me, mas, o que ele acha que  melhor no o  necessariamente...

- Espera, Luke! deixa-me acabar Eu s quero que percebas que ele te ama tanto como eu.  claro que ficou 
magoado quando recusaste a entrada em Harvard.  a universidade dele, e sups automaticamente que...

- O problema  esse! Est sempre a supor automaticamente sem me consultar. s vezes, chego a no fazer
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uma coisa que me interessa s porque o pai insiste em que eu  a faa!

E o caso da universidade tambm? Eu... acho que sim.

E que pensas fazer?

-Acho que sempre planeei ir para Harvard, mais tarde ou mais cedo,

-E disse eu que o teu pai  obstinado! Boa noite, Luke.

- s porque eu quero ir para l. Boa noite, me.

Entrando na sala seis, Luke olhou primeiro para Evelyn Samuels, que, muito ligeiramente, movia o brao 
direito e as duas pernas, e depois para Janet, que sorriu e o observou com ar embevecido, dizendo:

-As pupilas esto bem e reagem ligeiramente  luz. Os movimentos comearam h cerca de dois minutos. 
Mais uma cura milagrosa?

- Duvido - respondeu luke, espreitando novamente pelo oftalmoscpio para a rede de artrias e veias no fundo 
dos olhos de Evelyn Samuels. - Acho que podemos experimentar o fluido espinal agora, mas depois quero 
tentar encontrar a filha, em Nova Iorque. Ajude-me aqui.

Com todo o cuidado, rolaram a doente para o lado esquerdo. A enfermeira colocou um brao atrs dos joelhos 
de Evelyn e o outro em volta do pescoo, para lhe curvar as costas e tornar mais acessvel o espao entre as 
vrtebras. luke desinfectou uma rea na parte inferior central e injectou uma pequena quantidade de 
novocana, para o caso de a doente sentir alguma dor, Depois, localizando duas vrtebras adjacentes, inseriu 
facilmente a fina agulha espinal, sorrindo levemente ao sentir primeiro um leve estalido e depois outro. O 
fluido saiu em gotas mais rpidas do que habitualmente; era dum vermelho-claro em vez de translcido como 
normalmente. luke deixou cair dez gotas num pequeno tubo de ensaio e retirou a agulha.

- Vou levar isto ao laboratrio. Parece mau - comentou.
- No h camas nos C.I. Podemos mant-la aqui algum tempo?

- Claro, continue o manitol a duzentos centmetros cbicos por hora. Vou tentar ligar para a filha, e depois 
fazer a visita da noite, se puder.

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-Quer que mande vir alguma coisa para o seu jantar?
- Obrigado, mas eu como qualquer coisa num dos andares.

Alm disso, no quero jantar enquanto no almoar - gracejou o mdico, sorrindo.

S quando estava sentado na sala do terceiro andar,  espera da chamada para Nova Iorque,  que Luke se 
lembrou do adesivo no pulso.

- Lamento, mas a Karen foi passar o fim-de-semana fora. Eu sou Jackie, a companheira de quarto dela. Quer 
deixar recado?
- Jackie, daqui fala Lewis Corey, mdico do hospital de

Cape Cod. A me da Karen chegou aqui aparentemente com um grave acidente vascular cerebral.

--Ai, meu Deus! Ela est, quer dizer, ela vai ficar.. -No sei. Faz alguma ideia de como posso entrar em 
contacto com a Karen?

-No. Ela saiu com uns amigos, foram para uma quinta num stio qualquer do Connecticut, mas nem sequer 
sei o nome de nenhuma das pessoas que foram com ela.

- Bom, ento, oia. Talvez amanh possa tentar ligar para o emprego dela e perguntar se alguma colega sabe 
para onde ela foi. Diga-lhe que venha para c ou que ligue para Lewis Corey, no Hospital de Strathmore.

- Doutor Corey, eu s vi a senhora SarmicIs uma vez, mas foi muito simptica para mim. Acha que pode 
ligar-me logo  noite para dizer-me como ela est?

- Com certeza, Jackie. E voc veja se consegue localizar a Karen, est bem?

- Com certeza! Adeus, doutor.
- Adeus.

Nem todos os mdicos fazem visitas hospitalares  noite, bem como de manh, e muitas vezes, na realidade, 
isso no  necessrio ou possvel. Luke criara esse hbito durante a sua permanncia no Hospital Civil de 
Bston, pois considerava a visita matinal como de trabalho e a da noite um acto social, durante o qual se 
assegurava de que os doentes estavam confortveis para a noite, respondendo a alguma pergunta que eles ou 
as famlias lhe fizessem.

Quando comeou a sua carreira de clnico geral e associado do venervel Ken Putriam, Luke fazia visitas  
noite. No entanto, com o decorrer dos anos, o aumento do nmero de doentes obrigara-o a limitar essas visitas 
hospitalares ao terceiro ou
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quarto fim-de-semana em que estava de servio por si prprio, pelo scio e por outro clnico geral.
s nove horas, tinha observado dez doentes e preparava-se para ver os ltimos quatro quando o chamaram 
para entrar em contacto com a Urgncia. Janet atendeu e nem se esforou por disfarar o entusiasmo:

- Ela acordou! A nossa doente acordou! Primeiro, chamou Karen e depois doutor! Est sempre a dizer 
qualquer coisa sobre uma chave.

-Vou j para a!

- Ah, e para que  o adesivo no pulso dela? -No sei. Espere a, que talvez possamos descobrir. Luke ficou 
admirado com a sbita energia que lhe permitiu

descer a correr trs lanos de escadas at  Urgncia, dois degraus de cada vez. A dor nas costas parecia ter 
diminudo e o ligeiro coxear, sempre presente em superficies planas, desapareceu quando se apoiou ao 
corrimo.

A Urgncia estava consideravelmente mais calma. Ao passar pela sala de engessar, Luke parou e riu-se ao ver 
o ortopedista John Nowak, com a cara e os braos salpicados de gesso seco, a cantarolar enquanto dava os 
toques finais no aparelho do^ brao dum garoto ainda com o equipamento de basebol. Nowak olhou para a 
porta e acenou com a cabea na direco do seu paciente de nove anos.

- Antes que este craque chegue aos seniores, temos de lhe ensinar a evitar algumas bolas, no achas, Luke? 
- perguntou.

Luke riu-se e piscou o olho ao garoto, dirigindo-se depois para a sala seis.

Janet esperava-o  porta.

-Est ainda mais acordada, agora, mas continua a no mexer o brao esquerdo. Perguntei-lhe porque tinha o 
adesivo no pulso, mas no responde e no me deixa tocar nele.

-J chegou a anlise do fluido espinal?

- J, sim. Espere um segundo, tenho aqui o papel em qualquer stio. C est! - exclamou Janet, com um molho 
de papis na mo, depois de procurar nos bolsos da farda. - Juntamente com os turnos da semana que vem e a 
minha lista da mercearia. Acar cinquenta, protenas cento e quarenta, clulas brancas trinta e vermelhas 
demasiado numerosas para serem contadas.

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Luke contraiu-se ligeiramente ao ouvir aquilo, no abriu a boca e aproximou-se de Evelyn Samuels, 
visivelmente consciente, mas no ficou muito contente com o seu aspecto. Para alm do brao esquerdo 
flcido, notou uma marcada inclinao do lado esquerdo da cara e uma acentuada assimetria das pupilas, com 
a direita muito maior do que a esquerda. A respirao era forada, pouco profunda e rpida. A pele 
apresentava uma cor plida. Luke teve poucas dvidas de que aquela doente no ia sobreviver  hemorragia 
cerebral.

Fez um ligeiro aceno de cabea a Janet, que, por trabalhar com ele durante quatro anos, percebeu e saiu 
silenciosamente, fechando a porta atrs de si. Luke puxou um banco para junto da cabeceira e sentou-se, de 
modo a Evelyn Samuels ter mais facilidade em ver-lhe a cara. Ficou propositadamente do lado direito dela, 
consciente de que todo o seu campo visual esquerdo fora provavelmente suprimido pela hemorragia.

Falou devagar, num tom um tanto mais alto do que uma conversa normal. As respostas dela eram roucas e 
entrecortadas, cada palavra um esforo.

- Sou o doutor Corey, senhora Samuels. Estamos na Urgncia do Hospital de Strathrnore.

- Doutor... Corey. Que... aconteceu?

- A senhora desmaiou em casa, sofreu uma hemorragia cerebral. Por favor, tente no se assustar. 
Compreendeu o que eu disse?

-  Doutor Corey... Hemorragia? Estou... a morrer?

Nos seus anos de estudo e de exerccio de medicina, Luke tinha ouvido muitas vezes tal pergunta, mas nunca 
numa situao como aquela. Houvera sempre tempo para equvocos, pelo menos tempo para se ter mais a 
certeza do que o doente queria realmente saber, para explicar, para apresentar todos os talvez e 
possivelmente que acarretam um elemento de esperana. No que ele a fabricasse quando nenhuma existia; 
em situaes de cancro terminal dissera muitas vezes aos doentes que nada mais podia fazer, a no ser 
atenuar-lhes as dores. Era uma rea da medicina, da vida, em que nunca se sentira confortvel. Depois de 
mais de dez anos como mdico, ainda no resolvera a questo de ter ou no o direito de mentir a um doente. 
Em certos casos fizera-o, mas aquela noite no podia ser uma dessas ocasies.

- A sua hemorragia foi grave - disse ele. - Estamos a
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fazer tudo o que  possvel, contudo, neste momento, as coisas no parecem promissoras. Tentei falar com a 
sua filha em Nova Iorque, mas no se encontra em casa. Espero saber dela ainda esta noite ou amanh de 
manh. Compreende?

- Compreendo      ... por favor... a chave... tudo ... est tudo... por favor  ... a Karen ... tem de dar a chave  
Karen  ... tudo... mais ningum    ... por favor, d-a  Karen...

- Que chave, senhora samuels? Onde est a chave?

As palavras surgiam ainda mais estranguladas e pastosas, e luke teve de se aproximar da boca dela para as 
ouvir.

- Adesivo... adesivo no meu pulso.

Retirando rapidamente o adesivo, Luke encontrou uma chave de bronze encostada ao pulso, meteu-a no bolso 
e deitou o adesivo para o lixo. Quando olhou de novo para a doente, viu que tinha os olhos fechados e 
respirava lenta e superficialmente.

- Evelyn... Evelyn, consegue ouvir-me? - falou mesmo junto ao ouvido dela e pegou-lhe na mo direita. - Por 
favor, aperte-me a mo, se consegue ouvir-me!

A respirao mantinha-se, mas no sentiu qualquer reaco. Olhou para o relgio por cima da porta: eram dez 
e um quarto.

Janet estava na sala das enfermeiras, a tomar caf. Diante do lugar vago junto dela, uma chvena de caf 
simples com um pacote de acar esperava por Luke. Este sentou-se e ficou a olhar para o caf agora morno, 
como se procurasse nele alguma resposta.

Queridos pais,

Depois de ter conseguido telefonar ou ir at a v-los durante os ltimos dois anos, parece esquisito telefonar 
de Matyland, to longe. Ontem, o professor de Filosofia perguntou-me, depois da aula, se o Dr. Lewis Corey, 
que tinha sido nomeado director do Instituto Nacional de Sade, era meu pai. Durante um instante, estive 
quase a dizer que no, que o meu pai era reitor duma Faculdade de Medicina! Meu Deus, o pai j fez tanta 
coisa!

As coisas tm-me corrido bastante bem aqui. Os exa-
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.mes so daqui a uma semana, mas o nico que me faz realmente suar  o de fsica.  pior do que o francs 
costumava ser!

Tenho boas e ms notcias. Primeiro, as ms: no vou a este Vero. O projecto em que me envolvi no centro 
juvenil daqui est mesmo a avanar e prometeram pagar-me ordenado se eu continuar a trabalhar com os 
garotos durante o Vero. Sei como gostavam que a Elisabeth e eu fssemos a casa, mas ela pelo menos vai.

E agora as boas notcias: estou a pensar cada vez mais a srio na Faculdade de Medicina, e decidi fazer a 
admisso. Desde que consiga passar em fsica, claro! Ver a pobreza e as doenas entre as crianas duma 
cidade despertou-me o interesse em fazer alguma coisa quanto a isso. Uma das principais coisas que me 
causam ainda hesitaes na minha deciso.final  o ser avaliado em comparao com os incrveis feitos do 
meu pai. Um Dr Lewis T Corey  quase de mais para este mundo... Que diabo fariam com dois? Bom, tenho 
de estudar.

A propsito, tenho sado com uma rapariga muito especial, Sarah Rosen. Espero que a conheam um dia. 
Saudades aos dois e  Elisabeth.

Luke

Janet voltou  sala das enfermeiras, para junto de Luke, depois de verificar o estado de Evelyn samuels.

- Est mais ou menos na mesma - informou. - A presso continua cem/sessenta, a pupila direita est igual, 
mas a esquerda parece mais dilatada. Que acha?

- No sei. Se ela tivesse continuado como estava de manh, tinha pensado mand-la para a equipa de 
neurocirurgia de Bston, mas no me parece que tenhamos de nos preocupar com essa deciso.

- Conseguiu descobrir a que chave  que ela se referia? -Descobri. J a tenho.

-O qu?

- Estava debaixo do adesivo, em volta do pulso.
-  a chave de qu?

-No fao ideia.

- Que estranho! Quer dizer que ela trazia sempre a chave presa ao pulso?

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- Se calhar.

- Que mistrio! Que vai fazer com ela?
- Entreg-la  filha, acho eu.

Janet desviou o olhar dele durante um momento e viu as horas no relgio da parede. Alisou 
inconscientemente uma madeixa de cabelo que lhe cara para a testa e pousou o cotovelo na mesa, 
descansando a cara na mo.

- Saio daqui a um quarto de hora. Venha at l a casa e eu arranjo-lhe qualquer coisa de comer..

- J falmos desse assunto, Janet - interrompeu Luke com alguma irritao na voz. - No posso meter-me 
nisso.
- No  preciso que acontea alguma coisa. S um agradvel jantar a dois.

- Bolas, Janet, no me fale nesse tom condescendente, por favor!

O seu tom de voz subira o suficiente para uma das enfermeiras, no outro extremo da sala, levantar os olhos do 
que estava a fazer.

- Por favor, Luke - pediu Janet num murmrio. - No quis aborrec-lo, mas toda a gente precisa de algum de 
quem possa sentir-se prximo; no queria que pensasse que esperava outra coisa. Tenho a certeza de que, na 
altura certa, tudo vai correr como deve ser para si.

- Olhe, agradeo o seu convite - replicou Luke, levantando-se, e num tom mais cansado do que irritado. - 
Agradeo realmente, talvez para a prxima. Seja como for, vou ficar por aqui um bocado a ver se posso fazer 
alguma coisa pela Evelyn Samuels.

Dizendo isso, voltou-se e entrou na sala seis. Janet ficou a olhar at o ver desaparecer, depois dirigiu-se para o 
trio, nas traseiras da Urgncia, para trocar com a enfermeira do turno seguinte.

Quem ser ela, Luke Corey?, pensou para consigo. No tu, minha querida, de certeza, no tu!

O fim da vida de Evelyn Samuels chegou calmamente. Luke foi acordado dum sono leve, no estreito sof da 
sala, pela enfermeira Joan Porter, do turno da noite,  uma e meia.

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- No consigo encontrar a presso da senhora Samuels h vinte minutos, doutor Corey - disse ela.

Ao levantar-se, sentiu uma forte guinada, provocada pelo estilhao de metal enterrado nas costas. Joan Porter, 
uma competente, embora no brilhante, enfermeira, mais velha que Janet Dibbs, reagiu protectoramente:

- Sente-se bem? Precisa dalguma coisa?

- No, no, estou bem - respondeu ele. - Este sof no  o mais indicado para a minha coluna. Pensando 
melhor, talvez pudesse arranjar-me duas aspirinas. Tomo-as depois de ver o que se passa na sala seis.

Parou  porta e olhou para Evelyn Samuels. Mantinha-se deitada, de olhos fechados, imvel, respirando 
levemente de quinze em quinze segundos. Luke sentou-se junto dela, pegou-lhe na mo e encostou-a  sua 
testa. Em dois minutos, a respirao da doente parou. O mdico permaneceu na sala durante mais uns 
minutos, depois foi lentamente ao encontro de Joan Porter e tomou os dois comprimidos que esta lhe 
estendeu.

- Que idade tm os seus filhos, enfermeira Porter? - perguntou de repente.

- Um est na faculdade, a June tem dezasseis e o mais pequeno quase dez - respondeu ela.

-Algum quer ser mdico?

- O Steven, o que est na faculdade. Fala sempre nisso. Porque pergunta?

-J pensei no assunto - observou Luke. - Olhe, diga-lhe que tenho muito prazer em receb-lo quando tiver 
tempo para vir at c.

- Que simptico, doutor Corey! Obrigada. Aposto que o Steven vai adorar. Ah, tenho muita pena da senhora 
Samuels.
- Pois , tambm eu - disse Luke, acenando com a cabea.

Depois, encaminhou-se para um telefone, ligou para Nova iorque e disse  companheira de quarto de Karen 
Samuels que o corpo da me desta ficava no hospital at a rapariga poder organizar as coisas. Pensou em 
mencionar a chave, mas no ltimo momento decidiu no o fazer.

A seguir, telefonou para o delegado de sade, que concordou em observar o corpo de manh e passar a 
certido de bito. Ento, aps agradecer ao turno da noite e de se despedir,

abandonou a Urgncia, a fim de ir para casa deitar-se. Tinha de
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voltar para a visita da manh e para um dia completo de trabalho da a cinco horas e meia.

O ecoar de fortes troves acordou Luke um quarto de hora antes do toque do radiodespertador. Virou-se e 
olhou pela janela para os lenis de chuva que caam no lago Verde e sobre a casa onde morava h trs anos. 
O quarto era o maior dos dois situados no sto por cima duma sala e casa de jantar em L. Ajanela do outro 
lado da cama era voltada a leste e permitia-lhe admirar belas nascentes do outro lado do lago, mas no nessa 
manh de sexta-feira.

O rudo ritinado da pesada chuva punha-o inevitavelmente numa agradvel disposio. Encontrou um posto 
de rdio a transmitir msica de cmara, Haydn, pareceu-lhe, fez a barba e deu incio  difcil tarefa de 
escolher o que havia de vestir. Sarah sempre fizera troa dele por causa de riscas com quadrados e cores que 
no ficavam bem umas com as outras. Assim, depois de muitas tentativas e erros, desenvolvera o infalvel 
sistema de pendurar uma roupa em tons de castanho dum lado do armrio e uma em tons de azul do outro. A 
ocasional camisa vermelha ou camisola verde era relegada para o roupeiro da entrada, no andar de baixo, e 
raras vezes tornava a ser vista. Olhando novamente para a chuva l fora, sorriu e escolheu azul.

Depois de se vestir, apanhou as calas amarrotadas que usara na vspera e esvaziou os bolsos em cima da 
cama: duas canetas do hospital, a carteira, umas moedas, trs folhinhas cor-de-rosa com recados telefnicos 
ainda por responder e uma velha chave escura.

Precisou de meio minuto para recordar totalmente os acontecimentos da noite anterior e pegar na chave. -
Provavelmente  do cofre das jias de famlia dos Samuels -, disse em voz alta, reparando ao mesmo tempo 
que era mais provvel ser duma porta.

Atirou-a ao ar, tentando, e falhando, apanh-la atrs das costas e procurou em seguida um stio onde deixar 
aquilo a que a sua infeliz doente chamara tudo. Ia guard-la na pequena caixa de teca, em cima da cmoda, 
mas avistou a ponta do seu

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tabuleiro dobrvel de xadrez, guardado, debaixo doutros jogos, numa das prateleiras do roupeiro. Com um 
olhar por cima do ombro, num gesto de segredo, abriu o tabuleiro, colocou a chave no meio das peas e 
voltou a coloc-lo na prateleira.

Ento, vestiu um impermevel com capuz e saiu em direco ao hospital.

Janet Dibbs chegou ao trabalho com meia hora de atraso nessa tarde. Encontrara um troo de estrada 
inundado e o seu Camaro tinha-se ido abaixo.

Susan Carmichael dirigiu-se-lhe a toda a pressa, na enfermaria.

- Ests bem? Nenhuma de ns se lembra de teres chegado to tarde ao trabalho. Liguei para a tua casa e...

-Estou bem - respondeu ela, com o aborrecimento a evaporar-se perante os sinais de preocupao do seu 
pessoal. Ainda no trataram daquele maldito problema do esgoto na Seaview. Um dia destes, afoga-se algum 
naquela poa!

Susan baixou a voz e segredou:

- Olha, est c um fulano a perguntar pela doente do doutor Corey que tratmos ontem  noite. Mandei-o 
esperar na sala tranquila.

-A senhora Samuels? Onde a puseram?

- O caso  que ela morreu por volta das duas. No chegou a sair da enfermaria, e ainda no lho dissemos.

-Bom, quem ?

- Um amigo, acho eu. Diz que esteve c ontem  noite e que o doutor Corey prometeu telefonar-lhe, caso o 
estado dela se alterasse. Calculo que se tenha esquecido ou ento pensou que era demasiado tarde para 
comunicar o facto.

-Devia estar com pressa de ir para casa - disse Janet, com alguma amargura. Depois, encolhendo os ombros, 
comentou: - Acho que at ele tem o direito de se esquecer, como todos ns. Na sala tranquila? - perguntou, 
e Susan acenou com a cabea. - Est bem, eu falo com ele.

-  giro - exclamou Susan, quando Janet se voltou para pendurar a gabardina.

Esta alisou a frente da bata com a mo e dirigiu um sorriso  colega antes de se encaminhar para a sala 
tranquila.

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-Com licena - disse ela, reparando imediatamente que Susan no exagerara. - Sou a enfermeira Dibbs. Posso 
ajud-lo?

- Sim, se faz favor. Estou a tentar saber de Evelyn Samuels, que foi trazida para c ontem  noite com... 
espere. No era uma das enfermeiras que estava a tratar dela?

Tinha uma voz baixa e delicada, que condizia com o seu aspecto educado e bem vestido. Janet sentiu o 
corao acelerar-se ao observar-lhe as feies vincadas e os profundos olhos azuis. Aparentava cerca de 
quarenta anos, calculou, no, talvez quarenta e cinco, reconsiderou, reparando no cabelo encaracolado 
grisalho.

- Era, sim - respondeu. - Trabalhei com o doutor Corey quase toda a noite. Fizemos tudo o que era possvel.

- Que diz? - perguntou o homem, semicerrando os olhos e aumentando ligeiramente o tom de voz.

Janet sentiu-se de repente atrapalhada, percebendo que no estava a tratar do assunto como devia. Sentou-se e 
ficou calada um momento, para se recompor.

- Desculpe, senhor..

- Spear, Jim Spear. - A respirao do homem acelerara-se enquanto se inclinava para Janet.

- Lamento muito, senhor Spear - prosseguiu ela -, a senhora samuels faleceu cerca das duas da manh. O 
doutor Corey e eu fizemos tudo o que era possvel para a salvar, mas o derrame foi demasiado forte.

- Bolas! - exclamou ele, com uma intensidade que a espantou.

- Lamento realmente. Eram amigos ntimos? - perguntou a enfermeira.

Spear enterrou a cara nas mos, mas a voz estava mais controlada e recuperara grande parte da sua delicadeza.

- Muito. Tnhamos planeado casar em breve.

- Ai, que horrvel para si - comentou Janet, tentando imaginar como conseguira Evelyn Samuels fisgar um 
homem to interessante e muito mais novo do que ela. - Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

-  A filha j foi avisada? Ns demos ao mdico o nmero de telefone dela.

- Ele tentou ligar, mas no sei se conseguiu falar-lhe. Pode confirmar com o doutor Corey.

-  o que vou fazer. Vai ser um golpe terrvel para a Karen. Era muito amiga da me.

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- Foi o que me pareceu. A senhora samuels fartou-se de chamar por ela quando acordou.

- Acordou? - perguntou Spear, ligeiramente espantado.
- Pois foi, e o doutor Corey e eu chegmos a pensar que ia sobreviver. Mas o derra...

-Ela disse alguma coisa? - interrompeu o homem. Perguntou por mim, ou algo parecido?

Janet comeava a sentir muita pena dele e sentia-se ansiosa por dizer qualquer coisa que lhe mitigasse o 
sofrimento.

- Sim? Sim, chamou por si vrias vezes. O doutor Corey escutou-a mais tempo, mas ouvi-a pronunciar o seu 
nome. Falou em si, na filha e na chave. Dizia sempre a mesma coisa.

- Chave? -- inquiriu olhando-a nos olhos, e Janet sentiu o pulso acelerar-se.

- Sim, a chave que trazia presa ao pulso. Deu-a ao doutor Corey e pediu-lhe que a entregasse  filha. Porque a 
trazia assim, sabe?

Spear sorriu ligeiramente e inclinou-se mais ainda para a enfermeira.

- Ah, essa chave.  duma caixa que ela guardava debaixo da cama, com recordaes da famlia, acho eu. A 
Evelyn era muito sentimental com coisas desse gnero; estava sempre a dizer que era a nica chave e no 
queria perd-la.

Janet retribuiu-lhe o sorriso, sentindo-se muito mais confortvel por ter tratado assim do assunto.

- Bom, tenho a certeza de que a chave est segura com o doutor Corey. Se falar com a filha, pode dizer-lhe 
que entre em contacto com ele. - Depois, acrescentou: - Ser que tambm vai us-la presa ao pulso, como a 
me?

-Duvido - respondeu o homem, com um sorriso.

A Karen  muito mais prtica e menos romntica do que a me... do que a me era - e desviou o olhar.

- Olhe, agora tenho de voltar ao trabalho - disse Janet.
- Se quiser conversar mais um bocado, tenho um intervalo para jantar s seis.

- Foi muito simptica, enfermeira Dibbs...
- Janet - interrompeu ela.

- Janet - repetiu o homem olhando-a com uma expresso calorosa. - Aprecio muito o que me contou sobre a 
morte da Evelyn. Gostava de conversar consigo outro dia, mas agora tenho de ir a casa dela para comear a 
arrumar as coisas e a tratar do funeral - e desviou novamente o olhar.

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- Sempre que eu possa ajudar, Jim. O meu nome vem na lista - concluiu, levantando-se e despedindo-se com 
um aperto de mo formal, antes de se dirigir  enfermaria.

Spear ficou sentado mais uns minutos, felicitando-se por ter decidido voltar ao hospital. A informao que 
recebera da enfermeira boazona era mais do que esperara conseguir. Tentara arranjar maneira de descobrir se 
Evelyn tinha falado com algum. Ligara de hora a hora, at que uma enfermeira lhe dissera que ela morrera s 
duas e meia. Fez um pequeno sorriso trocista e pensou para consigo: Assim que deitar a mo  tal chave, 
trato da enfermeira Janet Dibbs. Que grande par de mamas!

Kenner Putriam fora mdico de clnica geral em Cape Cod durante mais de vinte anos, at que uma enorme 
sobrecarga de trabalho e mltiplas dores no peito o obrigaram a procurar um scio mais novo. Nunca se 
cansava de contar episdios de quando no existia hospital e Strathmore s tinha trs mdicos. Pensam que 
as coisas so dificeis... era a frase com que o Dr. Kenner indicava aos que o rodeavam que chegara o 
momento de se recostarem para ouvir uma histria ou de arranjarem uma desculpa para sair da sala.

Contudo, apesar de todas as histrias dos velhos tempos, Putriam era um excelente clnico, que passava uma 
hora todas as noites a ler revistas mdicas, e ainda um influente e poderoso poltico, pois fora presidente da 
associao dos mdicos do condado por duas vezes, sendo frequentemente mencionado para o mesmo posto a 
nvel estadual. Uma das suas favoritas homilias polticas era nunca fazer dum homem um inimigo at se ter a 
certeza de nunca mais se precisar dele como amigo.

S quem conhecesse to bem Putriam como o seu jovem scio conseguia compreender de que forma 
mantinham ambos um excelente relacionamento profissional havia quatro anos. O pequeno e vivo Putriam 
parecia o oposto do lento e quase desajeitado Luke Corey, mas entendiam-se bem, sobretudo devido ao 
respeito mtuo e  vontade de Luke de fazer o que pudesse para aliviar o colega mais velho da sobrecarga de 
trabalho.

Eram quase seis horas da tarde nessa sexta-feira quando Putriam atravessou o corredor em direco ao 
consultrio de
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Luke. Parecia invulgarmente cansado e, na realidade, tinha acabado de dissolver um comprimido de 
nitroglicerina sob a lngua. Luke fechou a velha pasta castanha, cheia de artigos para ler e fichas para ditar, e 
dirigiu-se ao scio com bvia preocupao:

- Sente-se bem, Ken? Parece um bocadinho em baixo. -Nada que um bom usque no cure - respondeu 
Putriam, mas sem a sua habitual gabarolice.

-  a angina outra vez, no ? Acho que devia realmente tratar..

- Disparate! - cortou Putriam. - Trate voc da canalizao e do jardim, que eu cuido da clnica.

-Mas, Ken...

-Nem mas nem meio mas. V l para casa ter com a fmea com quem pensa brincar esta noite, que eu fao a 
visita no hospital. - Elevou ligeiramente a voz na ltima palavra e fez uma pausa, como sempre antes dum 
pedido. - Ai, pode fazer uma coisita por mim, se tiver tempo. Ir ver uma velhota de apelido OBrian. O filho 
telefonou a dizer que ela estava a vomitar e tinha dores de barriga. Moram para os seus lados e o filho no se 
importa que seja voc ou eu a observ-la, desde que no a recambiemos para o hospital. Acho mesmo que 
pediu que fosse l voc.

- Meu Deus, tem c uma lbia! - troou Luke. - Acaba de se livrar duma hora de trabalho com uma velhota 
qualquer, sem grande esforo. Est bem, eu vejo-a, mas s se me prometer que faz um electrocardiograma.

- Aqui tem a morada - interrompeu putriam, atirando o papel para cima da secretria de Luke. Saiu da sala 
sempre a falar: Se tiver de ser hospitalizada, mande-a que eu trato dela. -- No precisa de agradecer! - 
exclamou Luke, quando
Putriam abria j a porta da frente e desaparecia na fresca e enevoada tarde de Abril.

Luke suspirou, riu-se sozinho da lata do scio, pegou na pasta e na pequena maleta e saiu em direco ao 
Oldsmobile.

- Bolas, Liz! Ele nem sequer quer que a gente v at

l para a conhecerem. Que diabo se passa com aquele homem? E com a me. Ao menos desta vez, talvez 
pudesse enfrent-lo.

- Acalma-te, Luke. Sabes como  o pai. Est aborre-
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cido por no teres falado com eles antes de lhes dizeres que ias casar com a Sarah. Isso passa-lhe, como 
sempre. E quando a conhecerem, vo ador-la.

- Quem me dera poder acreditar em ti. Ele ficou furioso quando fui para o Mississpi em vez da sua preciosa 
Harvard. No o diz claramente, mas sabes o que eu acho que o chateia realmente?  eu ir casar com uma 
judia! Por isso  que est to danado.

- Ora, s razovel! Opai s pensa que no devias casar antes de comeares o curso de Medicina. -Pois! 
Estou mesmo a ouvi-lo: Margaret, se julgas

que voufazer uma viagem de quase dois mil quilmetros para pr um barrete idiota, ficar sentado numa 
igreja esquisita e ver o meu filho casar com uma mulher que ele mal conhece, ests muito enganada.

-Por favor Luke...

-Acabou-se, Liz. No tenciono dizer outra palavra a esse homem at ele pedir desculpa e aceitar a Sarah.  a 
minha vida e vou viv-la  minha maneira.

Luke ficou admirado ao descobrir que, como Putriam dissera, a rua onde Ruth OBrian morava ficava mais ou 
menos a caminho da sua casa. Apesar disso, teve de consultar o roteiro trs vezes para conseguir descobrir 
como chegar l. Comeara novamente a cair uma chuva fininha, e o nevoeiro, em alguns stios, era to 
cerrado que s conseguia avanar conduzindo o carro ao longo do risco branco no meio da rua. A viagem de 
dez quilmetros do consultrio at  zona ocidental de Strathmore demorou quase quarenta e cinco minutos.

Eram sete e um quarto quando Luke meteu o Oldsmobile pela Avenida Marginal e comeou a tentar 
descortinar os nmeros das portas por entre o nevoeiro. Ruth OBrian vivia no nmero duzentos e oitenta e 
cinco.

Como muitas ruas de Cape Cod, a Marginal ficava virtualmente deserta na estao baixa. A maior parte das 
vivendas, de cores claras, estavam s escuras, excepto algumas das maiores, cujos ocupantes se tinham 
reformado, passando a viver todo o ano nas suas residncias de Vero. Trs solitrios candeeiros de rua, 
muito afastados uns dos outros, pouco faziam para romper a mortalha de nevoeiro e escurido da noite. De 
cada lado da rua, s uma em cada nove ou dez casas tinha algum sinal de vida.

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Luke preparava-se para parar junto a uma delas e pedir ajuda, quando descobriu uma fila de caixas de correio 
numeradas do lado direito da rua. Para sua satisfao, encontrou o duzentos e oitenta e cinco descuidadamente 
pintado numa delas, e como a luz do alpendre estava acesa numa casa de cada lado da rua, Luke pegou na 
maleta de mdico e decidiu tentar primeiro a da direita - o nmero duzentos e oitenta. No entanto, espreitou 
primeiro para a do outro lado, tentando perceber se havia outras luzes acesas para alm da do alpendre.

O ar pesado foi provavelmente o responsvel por ele no ouvir o rudo do motor at o carro, que se 
aproximava a grande velocidade, estar muito perto. No teve tempo para saber se os faris se tinham acendido 
nessa altura ou se apenas haviam ficado visveis nesse momento. S quando o automvel estava quase em 
cima dele  que percebeu que o queriam atropelar.

A reaco de Luke foi to tardia que mal teve tempo para mergulhar na valeta antes de o carro o atingir em 
cheio, mas o farol direito ainda lhe bateu na coxa, atirando-o ao ar a uns trs metros de altura e fazendo-o cair 
pesadamente na lama diante do nmero duzentos e oitenta e cinco. Com um chiar de borracha, o carro 
acelerou e afastou-se.

Ficou deitado uns segundos, tentando orientar-se, quando sentiu uma dor aguda na perna direita. Gemeu alto, 
consciente, nesse momento, da gua que comeava a ensopar-lhe as calas e a camisa. Tinha a gabardina 
enrolada no corpo e o lado esquerdo da cara enterrado na lama. Com grande esforo e no poucas dores, rolou 
sobre si prprio, tentando limpar os olhos com a mo enlameada. Foi aclarando lentamente as ideias e olhou 
na direco em que o carro seguira, mas no viu sinal de luz ou movimento.

Conseguiu sentar-se mas, incrivelmente, por alguns momentos, o seu pensamento fixou-se nos documentos 
que tinha na carteira e no que a gua lhes faria. Nessa ocasio percebeu que continuava agarrado  maleta. 
Aproximou-a da cara e verificou que estava muito amolgada. Parecia ter suportado grande parte do impacte 
do pra-choques do carro, o que o fez sorrir ao pensar que o seu instrumento de trabalho talvez fosse 
responsvel por lhe salvar a vida.

Levantou-se, apoiando-se na perna esquerda e, quando pousou o p direito no cho, sentiu uma forte dor, que 
quase o deixou sem flego, mas aguentou-se. Sempre agarrado  maleta amolga-
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da e coxeando, subiu os dois degraus que davam acesso  casa de Ruth OBrian. Embora a luz amarela do 
alpendre brilhasse fantasmagoricamente, no viu qualquer outra em toda a habitao.

Tocou  campainha repetidas vezes, depois bateu  porta, experimentou o puxador e espreitou pelos vidros ao 
lado da porta, mas no viu sinal de vida. O nmero duzentos e oitenta e cinco da Avenida Marginal estava 
deserto.

Quase em estado de choque, extremamente confuso, Luke cambaleou at ao ffismobile e lutou com a porta 
durante dois minutos, pelo menos, antes de se lembrar de como a abrir. A dor na perna direita era agora 
acompanhada por nuseas e um doloroso latejar nas costas. Ligou o motor e pensou dirigir-se ao hospital, mas 
considerou o seu estado e achou melhor ir primeiro a casa.

De p no duche, com a cabea inclinada, viu o sangue e a lama escura a escorrerem-lhe pelo corpo e a 
desaparecerem no ralo. Sessenta miligramas de codena tinham adormecido um pouco a dor, juntando uma 
sensao de euforia  sua confuso. Doa-lhe tambm o ombro direito, e a gua quente ardia-lhe nas 
esfoladelas do brao e da mo, mas os estragos maiores pareciam localizar-se na coxa direita.

Um feio vergo vermelho, de cerca de vinte centmetros de comprimento, apresentava vrios pequenos cortes 
e um maior mesmo a meio. Deste saa um pedao aguado de vidro, produzindo dores agudas como facadas 
de cada vez que lhe tocava. Fios do msculo cortado pendiam em volta do vidro como algas na cascata do 
duche.

Fechou a gua, enxugou-se e colocou desajeitadamente um penso sobre o golpe que ainda sangrava. Reparou 
ento, pela primeira vez, no estado da roupa que atirara para um canto da casa de banho: a perna direita das 
calas azul-claras ficara em farrapos, ensopados em sangue, e o resto das calas e a camisa estavam cobertos 
de lama j meio seca. Pensou, por instantes, na reaco do pessoal da Urgncia se l tivesse chegado com 
aquela roupa; depois voltou-se para a retrete e vomitou violentamente.

Foi com grande dificuldade que Luke persuadiu Janet Dbbs a no chamar Ken putriam. Richard Thane, um 
excelente e jovem cirurgio, encontrava-se na enfermaria quando Luke se ar-

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rastou at l. Depois de ouvir a histria do acidente de atropelamento e fuga, Thane anestesiou-lhe habilmente 
os cortes, desinfectou-os e coseu-os. O pedao de vidro do farol dianteiro que tirou do corte central media trs 
centmetros.

As radiografias da perna e do ombro de luke foram negativas e ele estava a descer a custo da marquesa 
quando dois polcias entraram na sala.

O mais alto dos dois (provavelmente antigo jogador de basebol, pensou Luke) dirigiu-se-lhe numa voz 
surpreendentemente aguda dada a sua corpulncia.

- Sou o guarda Norton, doutor Corey, e este  o guarda Donaldson. - luke acenou com a cabea, sentindo um 
misto de aborrecimento e alvio com a presena deles. - Uma das enfermeiras comunicou-nos o seu... aa... 
acidente.  o segundo atropelamento e fuga que temos esta semana. Agradecamos que viesse connosco  
esquadra para podermos fazer o relatrio do sucedido.

- Olhe, eu tive um dia tramado. Isso no pode esperar at amanh? Alm de que no h grande coisa para 
relatar - replicou Luke, esquecendo-se temporariamente do facto de o nmero duzentos e oitenta e cinco estar 
desabitado.

- Bom, era muito melhor e mais fcil se pudesse ser esta noite, enquanto as coisas esto frescas no seu 
esprito. Dava-nos mais hipteses de apanhar o culpado.

luke encolheu os ombros, resignado, e vestiu o sobretudo a custo.

-Ns vamos atrs de si, doutor - disse o polcia mais baixo, sorrindo -, para termos a certeza de que essas 
costuras todas no lhe prejudicam a conduo.

luke coxeava em direco  sada quando Janet Dibbs correu para ele e lhe pegou na mo.

- Est bem, Luke? Talvez fosse melhor ficar esta noite em minha casa e deixar aqui a superenfermeira tratar 
de si.

- Obrigado, Janet, mas estou bem. S me aborrece ter to pouco para lhes contar, nem consegui ver o carro 
que me bateu e muito menos a pessoa que ia a guiar. Mas obrigado por se preocupar comigo. J agora, no me 
importo de ir  esquadra, mas no precisava de chamar a Polcia.

-Que ideia  essa? Eu no os chamei - disse ela.

- Mas eles disseram que uma das enfermeiras tinha telefonado e s voc  que...

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Luke foi interrompido pelo guarda corpulento, que o chamava da porta.

-  melhor irmos andando, doutor. Est a fazer-se tarde. Luke coou a cabea, olhou interrogativamente para 
Janet e seguiu os polcias.

Foram precisas mais de sete assembleias municipais, em
1972, para a populao de Stratmore aprovar fundos para a construo duma nova esquadra de Polcia. Os 
opositores ao projecto afirmavam que o prdio de cento e cinquenta anos, com as suas duas extenses, era 
perfeitamente adequado  taxa de criminalidade e ainda que a estrutura de tijolos e vidro proposta no 
condizia com a arquitectura da rua principal da povoao.

Reinava grande excitao em volta da questo da nova esquadra e parecia que a proposta podia ser recusada. 
Contudo, uma semana antes do voto final, o chefe da Polcia, Robert Paradise, e os seus homens obtiveram 
grande publicidade a nvel estadual ao desmantelarem a maior rede de traficantes de drogas e narcticos do 
Estado. O chefe fez ento um apaixonado apelo na assembleia municipal e, entre grandes aplausos, a 
proposta foi aprovada por larga maioria. Uns nove meses depois, quando se aplicavam os ltimos retoques na 
moderna esquadra de Strathmore, apareceu um pequeno artigo numa pgina interior do jornal Sentinela de 
Cape Cod relatando o facto de terem sido retiradas todas as acusaes contra os arguidos da grande operao 
de limpeza. O artigo aludia ainda a certas questes tcnicas legais, mas no continha pormenores.

Luke, ao entrar na esquadra bem iluminada, ficou admirado por ser recebido pelo prprio Robert Paradise. 
Veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial, o chefe ocupava o seu posto em Strathmore havia vinte e 
cinco anos, tendo ganho a reputao de polcia muitssimo duro mas honesto. Paradise no tinha mais de um 
metro e setenta de altura, mas a sua cintura estreita e os ombros largos davam-lhe um ar de quem sabia tratar 
de si mesmo nas mais dificeis situaes. O cabelo preto e fino desaparecera-lhe j do alto da cabea, e nessa 
noite tinha vestido uma verso cor de vinho da sua roupa habitual, um casaco de malha.

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-Quero dizer-lhe como apreciamos a sua vinda aqui a esta hora da noite, doutor Corey. No calcula 
como estamos preocupados com estes atropelamentos e fugas que tm ocorrido.

O discurso de Paradise era tranquilizante, e Luke sentiu-se relaxar, apesar da terrvel noite.

-  claro que lhe digo tudo o que puder - disse o mdico -, mas as coisas passaram-se to depressa! 
Est sempre de servio  sexta-feira  noite?

- s vezes - respondeu ele em tom paternal -, mas hoje vim para a esquadra quando os rapazes me 
telefonaram a dizer que o senhor havia sido atropelado. Temos de tomar bem conta dos nossos 
mdicos. Nunca se sabe se um dia precisarei de que o senhor trate de mim, no ? - Deu uma 
gargalhada como se achasse graa a si prprio. - Ns achamos que estes atropelamentos e fugas so 
da autoria de dois fedelhos de Portsmouth Leste que se metem nos copos. Algumas pessoas 
comunicaram que quase tinham sido atingidas por eles e que os viram rir-se e comportar-se como se 
se tratasse duma brincadeira. Os dois atropelamentos foram provavelmente mais acidentes do que 
outra coisa.

- O meu no foi acidente, chefe. Na realidade, quase acredito que foi propositado - objectou Luke 
em tom severo. Paradise mostrou-se chocado.

- Ora, doutor Corey... Luke, no ? Onde foi buscar uma ideia dessas?

O mdico comeou a sentir-se irritado e resolveu pr-se na defensiva.

- Est bem! - exclamou. - Deixe-me contar-lhe o que aconteceu e veja se acha que foi acidente.

- Pronto, Luke, pronto. Instale-se aqui. Eu mando vir cafs e depois examinamos tudo o que 
aconteceu. Como bebe o seu?
- Sem leite, com pouco acar. Quer que comece j?

respondeu Luke, respirando com mais facilidade.

- Vamos esperar at termos uma bebida quente no estmago, est bem? Que tal falar-me um pouco 
de si? H quanto tempo trabalha com o doutor Putriam?

-H cerca de quatro anos.  um grande mdico e tenho aprendido muito - respondeu Luke, 
sentindo-se ainda ligeiramente desconfortvel.

-E j conseguiu uma excelente reputao na cidade.
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- Obrigado - agradeceu Luke, sorrindo. - No consigo compreender quem  que podia querer fazer-me uma 
coisa destas.

- Pronto, comece pelo princpio da noite e conte-me exactamente o que aconteceu - pediu Paradise, 
recostando-se na cadeira e assoprando o caf a ferver, que tentava beber aos golinhos.

Luke relatou os acontecimentos das ltimas cinco horas, comeando com a visita de Putriam ao seu 
consultrio. Falou deliberadamente e medindo cada frase, para ter a certeza de relatar apenas os factos.  
medida que a histria se desenrolava, ia ficando cada vez mais convencido de que ocorrera uma tentativa 
deliberada para o ferir e, possivelmente, mesmo para o matar. A sua reaco a essa perspectiva era mais de 
confuso e fria do que de medo, pois j estivera em situaes, a milhares de quilmetros dali, em que outros 
homens sem rosto tinham tentado mat-lo.

Paradise ouviu calmamente, com os olhos castanhos sempre fixos em luke. O nico movimento que fez 
durante todo o relato foi acender um longo e fino charuto, que tirou da gaveta de cima da secretria. Quando o 
mdico acabou, ficou pensativo durante uns minutos, a tirar fumaas do charuto. Depois, falou com o ar dum 
professor paciente, seguro de, mais cedo ou mais tarde, conseguir explicar devidamente um conceito difcil ao 
seu aluno.

- Est a dizer-me que a tal chamada foi feita pelo filho da senhora OBrian para o doutor Putriam?

- Exactamente, mas o Ken disse que tinha a impresso de que perguntaram por mim.

- Pronto, ento deixe-me dizer-lhe o que me parece. O doutor Putriam recebe um telefonema desse homem 
numa altura em que ele prprio no se sente muito bem. Rabisca a morada que julga ser a que lhe deram, 
sempre com mil outras coisas no pensamento. Voc vai para a rua errada e encontra os tarados que tm 
andado a assustar as pessoas com a tal brincadeira e, pum!, vai parar ao hospital.

- Olhe, chefe! - exclamou Luke, um tanto aborrecido. O senhor pode pensar o que quiser sobre o que lhe 
relatei. No sou paranico, no acredito que algum ande atrs de mim, mas foi o que aconteceu e garanto-lhe 
que no se tratou de acidente.

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Paradise olhou para o tecto e respondeu, sem alterar o seu tom paciente e profissional:

- Pronto, partindo do princpio de que tem razo, ainda precisamos duma resposta  grande pergunta. Por que 
motivo? Acha que existe algum que possa ter uma razo, ou pense que a tenha, para lhe fazer uma coisa 
destas?

Luke olhou para ele sem expresso e abanou a cabea. Estava a comear a ter dificuldade em arranjar uma 
posio cmoda para a perna.

-Vamos tentar por outro lado - props Paradise. Aconteceu algo invulgar no seu trabalho? Alguma morte 
sbita ou coisa parecida?

Luke pensou imediatamente na luta que travara na noite anterior para tentar salvar Evelyn Samuels.

- Perdi uma doente que teve um forte derrame cerebral e no.houve hiptese de a salvar. - Olhou de repente 
para Paradise e comeou a falar mais depressa. - Espere! Havia uma chave, que ela trazia presa ao pulso, da 
qual falava como se fosse a coisa mais importante deste mundo. E entregou-ma.

- Uma qu? - perguntou Paradise, colocando cuidadosamente a cinza do charuto numa concha que fazia de 
cinzeiro.
- Uma chave. Disse-me que eu tinha de a entregar  filha

e a mais ningum - acrescentou Luke, sentindo as ideias atropelarem-se-lhe na cabea.

-Bom,  a chave de qu?

- No fao ideia. A filha est fora este fim-de-semana e... no, espere! - Luke deixou descair os ombros. - 
Ningum, a no ser uma das enfermeiras do hospital, sabia que eu a tinha. Por isso, no pode estar relacionada 
com o acidente.

Paradise inclinou-se para a frente e pareceu finalmente interessado.

- Nunca se sabe como as pessoas descobrem as coisas nesta terra. Se a chave  de algo de valor, talvez algum 
tentasse atac-lo para a apanhar. Posso v-la, se faz favor?

-  uma velha chave de bronze. No a trago comigo, est l em casa. Alm de que no pode ter sido o 
motivo...

- Talvez seja melhor deixar-me dar-lhe uma olhadela, apesar de tudo - insistiu Paradise, interrompendo-o. - 
Temos pessoas que so capazes de descobrir onde serve praticamente qualquer chave.

Lukc bocejou e deu-se conta de que estava realmente
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exausto. Era quase meia-noite. Percebeu tambm que no conseguia prestar ateno ao que o polcia dizia.

- Olhe, chefe, estou mesmo a comear a ir-me abaixo. Vou pensar em quem pode ter motivo para me fazer 
mal e, se me lembrar de algum, telefono-lhe.

-Acho que no ouviu o que eu disse, doutor Corey. Parece que a chave que tem consigo, afinal, pode ser 
importante. Acho que  melhor entregar-ma e deixar-nos descobrir para que serve. Vou mandar um homem 
consigo at sua casa para a ir buscar.

Luke ficou completamente desperto e no se sentiu bem com a insistncia ansiosa do seu interlocutor. De 
repente, queria desesperadamente ver-se fora da esquadra da Polcia e ir para casa.

- Espere um segundo, se faz favor - replicou o mdico. Eu prometi  senhora que entregava a porcaria da 
chave  filha e a mais ningum. Vamos esperar at que ela chegue, est bem?

- Como queira, doutor Corey, mas lembre-se de que o senhhor  que foi atropelado. - A voz do chefe da 
Polcia parecia ter adquirido um tom mais spero, quase um aviso. - Estou apenas a tentar fazer o que posso, o 
mais depressa possvel, para que nada mais lhe acontea.

Luke estava farto. De repente o chefe parecia ter esquecido a sua teoria de adolescentes bbedos com 
brincadeiras idiotas. O mdico usou o tom mais firme que conseguiu e levantou-se, decidido a sair dali.

- Aprecio muito a sua preocupao, chefe, palavra que sim, mas foi uma promessa que fiz quela senhora 
pouco antes de ela morrer. No me sentiria bem comigo prprio se desse a chave a algum sem ser a filha, 
mesmo  Polcia. Tente compreender.

- Faa como quiser - respondeu Paradise, parecendo ligeiramente desencorajado.

- Obrigado, chefe. Eu telefono-lhe assim que me lembrar de alguma coisa que possa ser importante - concluiu 
Luke, recuando at  porta do gabinete.

Voltou-se e, a coxear muito, saiu da esquadra. Estava demasiado cansado para pensar no assunto nessa noite, 
disse para consigo. No dia seguinte, depois de dormir umas horas, tentaria perceber que raio tinha acontecido.

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- Queria falar comigo, doutor Zarrens?

- Ah, sim, Corey, entre e sente-se. Tenho gua a ferver num bico de Bunsen. Espero que goste de ch. No 
fao ideia onde diabo meti ofrasco do caf instantneo. Ch  ptimo.

--Muito bem. Estive a ver os dados que voc recolheu desde que comeou as experincias da interferncia 
vrica no seu laboratrio. Tem hiptese de completar um dos melhores projectos de investigao que alguma 
vez houve nesta faculdade. Com alguma sorte e bastante trabalho durante os prximos meses, no vejo 
motivo para no publicarmos pelo menos um ou mesmo dois estudos sobre ele.

-Isso  fantstico! Trabalhar consigo tem sido a coisa mais estimulante que fao desde que comecei a estudar 
Medicina. No incio, queria ser clnico geral, mas agora estou a pensar cada vez mais em investigao 
virolgica.

-A sua mulher compartilha o seu interesse? -Bom, nunca se habituou realmente s minhas vindas ao 
laboratrio s duas da manh para mudar as culturas de clulas, mas tenho a certeza de que as exigncias 
da clnica geral no so muito melhores.

-Ainda bem quepensa assim do seu trabalho de investigao, Corey, porque eu acho que  esse o seu.futuro. 
Mas j deve conhecer-me o suficiente para saber,que no chamo pessoas ao meu gabinete s para as encher 
de louvores. Surgiu um problema e acho que talvez possa ajudar.

-Se se refere aos tubos contaminados, parece-me que j...

- No, Corey, quem me dera que fsse uma coisa to simples como essa. Refiro-me ao nosso pedido daquela 
grande bolsa para o Instituto do Cancro. Foi recusado.

-Ai, que pena! Mas no percebo como  que eu...
- Tem de entender como detesto pedir-lhe isto, Corey, mas grande parte da nossa investigao, incluindo o 
projecto de interferncia em que voc est a trabalhar, depende do dinheiro dessa bolsa. Quero que,fle com 
o seu pai sobre uma reapreciao do nosso pedido. Introduzi algumas modificaes importantes e..

-Lamento, doutor Zarrens, mas no posso fazer,isso,  impossvel. Alm de que no vejo ou.falo com o meu 
pai h quase dois anos. A minha interveno ia provavelmente prejudicar ainda mais o pedido da bolsa.

- Parece que no percebe que at o futuro do seu trabalho est em questo!

- Percebo perfeitamente, demasiado at, mas nada posso fazer.

- Ou seja, no quer fazer. Bom, Corey, se mudar de ideias, durante a prxima semana, avise. Doutra 
maneira, acho que ser prefervel,fazer um resumo do que conseguiu at aqui e consideraremos isso o seu 
projecto de investigao.

Mais alguma coisa? No, Corey. Bom dia.

Obrigado pelo ch, doutor Zarrens.

Eram cinco e um quarto da manh de sbado quando a dor se tornou maior do que o cansao e Luke acordou 
na escurido do seu quarto. Roscoe, um gato branco que aparecera l em casa dois anos antes e nunca mais se 
fora embora, estava enroscado de encontro  sua perna direita. As guinadas desciam-lhe at ao p. Sentou-se 
de repente, o que o fez sentir outras em diversos stios.

Aos bocados, o pesadelo da noite anterior voltou e, com ele, surgiu uma dzia de perguntas: Podia ter sido 
tudo uma terrvel srie de coincidncias? Preciso de falar com o putriam. Se a Janet no chamou a Polcia, 
quem a chamou? Preciso de falar com ela. A chave. Tenho de contactar com a Karen Samuels. Se queriam 
realmente matar-me, porque no pararam e voltaram para trs?

O pequeno frasco de codena estava em cima da mesa-de-cabeceira, junto a um copo de gua. Luke tomou 
sessenta miligramas e tornou a deitar-se,  espera de que o remdio lhe adormecesse a dor. Meia hora 
depois, conseguiu sair lentamente da cama e ir at  janela. A fraca claridade azul-rosada, do outro lado do 
lago Verde, prometia um brilhante dia de Primavera, uma viso que lhe afastou alguma da confuso que 
ainda sentia.

Uma hora mais tarde, estava a meter-se a custo no Olds, a caminho do hospital. Contudo, soltou um gemido 
ao travar an-
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tes de chegar  rua principal e nem reparou no Buick cinzento estacionado um pouco mais adiante.

s nove e meia, quando Ken Putriam entrou no hospital, Luke j fizera a maior parte da visita aos doentes, 
embora a coxear. Toda a gente se interessou pelo seu estado, mas ele tentou no dar importncia ao assunto, 
dizendo coisas do gnero nada de grave, senhora Shaw, s um carro zangado com quem discuti ontem  
noite.

Na segurana do hospital, sentiu grande parte da sua apreenso desaparecer. Ali nada mudara e, para alm 
duma ou outra pergunta sobre a sua bvia leso, ningum parecia reparar especialmente nele.

- Luke, meu rapaz - chamou Putriam do fundo do corredor do terceiro andar. - Que diabo anda aqui a fazer 
depois da noite que teve? ,

-No  coisa que duas semanas nas Baamas no cure respondeu Lukc, com um sorriso amarelo.

- Que tal o pequeno-almoo na cafetaria, para comear? Pode contar-me o que aconteceu.

Putriam observava-o com ar preocupado, sobretudo as feri- das, ainda em carne viva, nas costas das mos.

A cafetaria ficava na cave e a auxiliar que tomava conta dela tinha tentado dar-lhe certo ambiente, com 
cortinados estampados e candeeiros artsticos, mas continuava tudo com o mesmo aspecto institucional. 
Quando se sentaram numa mesa a um canto, Luke lembrou-se de que no comia h quase vinte e quatro horas 
e comeou a animar-se com a perspectiva duma refeio, apesar de a codena estar a deixar de fazer efeito.

Putriam insistiu em que ficasse sentado e voltou do balco da a pouco com sumo, caf e dois gordurentos 
pratos de toucinho fumado e ovos.

-Adoro esta comida de hospital - observou ele. - Sinto cada bocadinho a nadar at  minha artria coronria 
esquerda. Luke comeu em silncio durante uns momentos, at que Putriam, fitando-o, comentou:

- Parece que a visitinha domiciliria a que eu o mandei se transformou numa autntica aventura...

- Se quiser chamar-lhe assim - respondeu Luke secamente. - Como soube?

J l vamos. Acha que consegue contar-me o que aconteceu?

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Pela segunda vez, embora com menos pormenores, recordou os acontecimentos que tinham rodeado o 
acidente. Mencionou o encontro com o chefe Paradise, mas no falou na chave nem em Evelyn Samuels.

- Sabe, Luke, o Bob Paradise e eu trabalhamos nesta cidade h quase um quarto de sculo - comentou 
Putriam, quando ele acabou de contar a histria. -  um dos mais imaginativos e eficientes polcias que 
alguma vez conheci, e  directo e honesto como ningum. Contudo, percebi h muito tempo que  capaz de 
tornar a vida agradvel ou desagradvel s pessoas c da terra, quando quer. A sua posio permite-lhe 
controlar as actividades policiais em todo Cape Cod, j para no falar de Strathmore.

- Deixe-se de evasivas, Ken - pediu Luke, contrafeito.
- Luke Corey, o xerife. Dispara logo da anca! - gracejou Putram, em tom paternal.

Luke respondeu com um sorriso e a tenso momentnea evaporou-se.

- O chefe Paradise telefonou-me esta manh e contou-me o que aconteceu ontem  noite. Disse-lhe que no 
havia praticamente hiptese de me ter enganado quanto  morada. Ele verificou e a casa pertence a um 
banqueiro de Sudbury que s c vem no Vero. Quanto  luz do alpendre, acende-se automaticamente. Alm 
disso, eu prprio procurei nos meus registos e vi que no existe qualquer processo em nome de Ruth OBrian. 
Ambos pensamos que houve premeditao, mas o curioso  no sabermos se queriam apanh-lo a si ou a 
mim. Fui eu quem atendeu o telefone, lembre-se disso.

- Pois foi, Ken, mas recordo-me perfeitamente de voc ter dito que a pessoa perguntou por mim.

- Talvez nunca se saiba - continuou Putriam. - O chefe parecia ligeiramente aborrecido por causa duma chave 
qualquer que voc tem. Disse-me que no queria entregar-lha para ele tentar descobrir se  ou no importante. 
Olhe, Luke, j lhe disse que o Bob Paradise pode tornar as coisas...

- Eu no disse isso - interrompeu Luke -, s que tinha prometido a uma moribunda entreg-la apenas  filha 
dela. Por amor de Deus, Ken, o mnimo que posso fazer  cumprir uma promessa deste gnero.

- Faa como quiser, Luke - concordou Putriam, com um suspiro audvel. (Paradise no utilizara exactamente 
as mesmas palavras?, pensou Luke.)

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Foi o primeiro a levantar-se.

- Obrigado pelo pequeno-almoo, chefe - disse. - Estava mesmo a precisar. Olhe, a filha da falecida deve estar 
em casa daqui a um dia ou dois, e tenho a certeza de que poder esclarecer o assunto da chave. 
Provavelmente, nem tem que ver com o que aconteceu ontem  noite.

- Se eu puder ajudar em alguma coisa, diga, Luke. Estou em casa o fim-de-semana todo. O Goodinan faz as 
visitas amanh, de maneira que no precisa de vir ao hospital.

Saram da cafetaria com o brao de putriam sobre os ombros do colega.

Depois de ver os seus dois ltimos doentes, Luke telefonou para a Patologia e foi informado de que no havia 
corpos  espera de sair da morgUe. O responsvel no estava e a secretria no fazia ideia de quando ou a 
quem os corpos eram entregues.

Foi ento ao arquivo e obteve a fina ficha hospitalar da falecida, que levou para um pequeno cubculo. 
Comeou a examin-la e foi tomando apontamentos enquanto lia.
A primeira pgina duma ficha hospitalar apresenta um extenso perfil pessoal - demasiado completo em 
muitos casos. A necessidade de um funcionrio pedir e registar tantos dados de natureza privada, antes de um 
doente obter uma coisa to simples como uma radiografia a um dedo, continuava a ser um motivo de 
frustrao e consternao para muita gente, bem como uma fonte para muitas cenas de comdia. Luke nunca 
conseguira compreender a necessidade de se registar o local de nascimento e as convices religiosas, antes 
de um doente poder ser tratado ou mesmo diagnosticado num hospital.

O ritual de preencher a primeira pgina tornara-se de tal maneira parte do sistema que j tinha visto 
funcionrios da admisso entrarem numa sala de exame, logo a seguir a um doente ser reanimado duma 
paragem cardaca, para completar espaos num impresso como apelido de solteira da me e residncia 
anterior.

Nessa manh, contudo, ficou grato  eficcia do funcionrio da admisso de doentes. Aparentemente, tinha 
falado com Evelyn Samuels antes dele e registara informaes que ele prprio desconhecia.

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Nome: Samuels, Evelyn Marie Apelido de solteira: DeCarlo

Data de nascimento: 19 de Maro de 1922 Local de nascimento: Bston, Massachusetts

Religio: catlica Estado civil: viva

Morada: Redfern Terrace, 104, Forestville, Massachusetts

Telefone: 442-6101 Profisso: pintora

Apelido de solteira da me: (espao em branco)

Parente mais prximo: Karen Samuels, Rua 57 Oeste, 888, Nova Iorque, 1-212-877-4982 (filha)

Admisses anteriores ao Hospital de Strathmore: nenhuma.

O resto da ficha consistia no relato do exame fsico, que ele ditara e no qual no mencionara o adesivo no 
pulso ou a chave. ,Devolveu a ficha e marcou o nmero do telefone de casa de

Evelyn Samuels, sem obter resposta. Depois, ligou para a telefonista do hospital e pediu-lhe que tentasse o 
telefone de Karen Samuels em Nova Iorque, mas, mais uma vez, ningum atendeu. Recostou-se na cadeira, de 
olhos fechados, tentando encontrar alguma explicao lgica para os acontecimentos das ltimas dezoito 
horas, s que, tal como acontecera com as chamadas telefnicas, ficou sem resposta.

Saiu do hospital e foi conduzindo o carro devagar, ainda com dores de cada vez que tinha de usar o travo. 
Ao fazer Uma curva, reparou na rua por onde passara na noite anterior para chegar  Marginal e, num 
impulso, virou para l. Dessa vez, deu com a avenida sem dificuldade e viu que era agradvel e pitoresca, 
com uma bela vista da baa por entre as casas do lado esquerdo. Verificou ainda que era mais curta do que 
pensava.

O nmero duzentos e oitenta e cinco encimava uma pequena vivenda de madeira, pintada de cinzento com 
uma risca amarela, cuja tinta estava a descascar-se. A poa onde tantas dores sofrera na noite anterior j 
tinha secado e o passeio dian-

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te da casa no mostrava sinais do acidente. Os homens do Paradise trabalham bem, pensou para 
consigo, metendo-se novamente no Olds e dirigindo-se a casa.

Dentro do carro, no sentia a ligeira brisa que corria, e o calor agradvel do sol do meio-dia f-lo 
desejar estender-se na rede atrs da sua casa, a ler um livro.

Roscoe estava deitado no tapete junto  porta, ao sol. Luke sorriu ao ver o seu preguioso gato e 
inclinou-se para lhe fazer uma festa, quando reparou no sangue. Voltou-o e a cabea do animal caiu 
para trs, revelando um corte no pescoo e a traqueia cortada. Luke largou o animal e afastou-se, 
com o estmago convulsionado. Sentou-se pesadamente num degrau da entrada, respirou fundo, at 
que reparou num pingo de sangue nas costas da mo e, pela segunda vez em doze horas, vomitou 
sem poder controlar-se.

O interior da casa tambm fora atacado com malvadez, aparentemente no decorrer duma cuidadosa 
busca feita sem o mais pequeno esforo para evitar partir alguma coisa. As gavetas da cozinha 
tinham sido tiradas e o seu contedo espalhado no cho. As prateleiras da estante estavam vazias e 
dzias de livros espalhavam-se pelo cho. Os tapetes voltados, os candeeiros cados e uma delicada 
jarra de cermica espatifada, que a av adorara, completavam o quadro.

Luke ficou parado durante alguns minutos, a olhar aquele cenrio de destruio, enquanto um 
cheiro amargo se insinuava desconfortavelmente no seu nariz e o latejar na perna aumentava.

Em transe, atravessou a sala e comeou a subir os polidos degraus da escada. L em cima, a busca 
tambm fora meticulosa e os estragos considerveis. A caixa cuidadosamente entalhada, que 
transportara consigo por quase nove mil quilmetros, tinha sido atirada para o cho, e a sua tampa 
apresentava uma racha dum lado ao outro. Nada escapara.

Lentamente, cada vez mais apreensivo, dirigiu-se ao roupeiro, a coxear, e procurou na prateleira. 
Estava vazia.

S depois de se deixar cair sobre a beira da cama  que descortinou a um canto o tabuleiro de 
xadrez: fora aparentemente atirado da prateleira para o outro lado do quarto, e o contedo duma 
gaveta da secretria despejado em cima dele. Deixou-se cair de joelhos, gatinhou por cima da 
confuso, com as mos a tremer ligeiramente, e pegou no estojo. O fecho no estava aberto; o som 
das peas l dentro f-lo sorrir mesmo
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antes de o abrir. Tirou a chave do meio delas, comeou a rir e acabou por se deitar de costas em cima da 
cama, com um ataque de riso incontrolvel. Estpidos filhos da me!, gritou, estpidos, malvados e 
assassinos!

Dez minutos depois, continuava deitado de costas, olhando para o tecto, dando gargalhadas espordicas, 
quando o telefone tocou. Pegou lentamente no auscultador e encostou-o  orelha, sem falar. A voz do outro 
lado soou quase imediatamente, uma voz profunda e culta, com um tom suave e quase calmante.

-Doutor Corey, oia-me bem, por favor. O senhor tem uma chave que nos pertence. D acesso a uma grande 
quantidade de dinheiro que a senhora Evelyn Samuels nos tirou. Precisamos dela, precisamos mesmo. Os 
inconvenientes que sofreu nas ltimas vinte e quatro horas so apenas uma amostra. Compreende o que lhe 
digo?

Luke ficou indeciso um momento quanto a desligar ou dar uns berros pelo telefone. Em vez disso, respirou 
fundo e falou com o mximo de controlo possvel.

- No tenho a chave, fizeram esta porcaria toda para nada.
- Doutor Corey - continuou a voz -, estamos a par de todos os seus movimentos. O senhor tem a chave e, 
duma maneira ou doutra, acabar por a entregar.

- Fizeram-me mal, deram-me cabo da casa e das minhas coisas, mataram cruelmente o meu gato... - replicou 
Luke j menos controlado.

-Lamentamos ter utilizado demonstraes to evidentes, mas trata-se de uma grande quantidade de dinheiro, 
uma grande quantidade mesmo, e o senhor tem a chave que nos ajudar a recuper-lo. No queremos causar-
lhe mais problemas, na realidade, estamos at dispostos a recompensar generosamente a sua cooperao. 
Calculo que cinco mil dlares lhe permitam substituir as poucas coisas destrudas durante a busca.

As ideias de Luke iam ficando mais claras e comeou a poder raciocinar.

- Quanto? - perguntou.

- Cinco mil dlares, doutor Corey, mais quinhentos para pedir desculpa pelo... hum... acidente do seu gato.

- Porra! Vocs querem mesmo a chave!

-Espero ter tornado isso bem claro - insistiu a voz.
- Bom, mas eu no a tenho - disse Luke. - Pelo menos, aqui.

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- J sabemos, doutor Corey - respondeu a voz, com algum sarcasmo. - Se a for buscar, podemos combinar um 
ponto de encontro e troc-la pelo seu dinheiro, digamos daqui a duas horas.

- Tem de ser num local pblico. S lha entrego onde houver gente  nossa volta. - luke fez uma curta pausa e 
depois props: - A biblioteca. Vou ter consigo  biblioteca de Strathmore daqui a duas horas.

-A biblioteca  perfeita.

- E que eu no descubra algum a seguir-me, ou juro que no a apanha! Tenho uma condecorao que mostra 
que no me acagao com ameaas como a sua. Nada do que fizeram ou venham a fazer me assusta. Portanto, 
 bom que saiba que lhe entrego a chave porque quero o dinheiro e no porque a vossa violncia doentia tenha 
dado resultado. Nem um bocadinho, percebeu?

- Perfeitamente, doutor Corey - respondeu a voz com toda a naturalidade. - Encontramo-nos consigo daqui a 
duas horas, na biblioteca. E no precisa de se preocupar com o ser seguido.

Fez-se uma breve pausa, houve um estalido e depois ficou a ouvir-se o sinal de marcar.

Luke continuou sentado um bocado, a observar o caos  sua volta. Estpidos filhos da me!, pensou 
novamente. A seguir levantou-se e comeou a andar dum lado para outro, com uma determinao que j no 
se lembrava de ter h muitos anos.

A chave era de bronze escuro e pertencia quase de certeza a uma porta ou a um grande armrio. A marca 
Surelok estava gravada na parte de cima. Copiou o nome para um papel, bem como o nmero 14607106, e 
guardou a folhinha na carteira.

Ligou ento para as informaes interurbanas e conseguiu o nmero do Motel Metropolitano, de Bston. O 
recepcionista f-lo esperar uns minutos, mas informou-o de que tinha quarto e lho reservaria at s oito da 
noite. Francis Sullivan, o nome que deu ao homem, fora o seu comandante de companhia no Vietname, antes 
de ser atacado e morto  facada numa ruela de Saigo.

Pegou na chave e prendeu-a entre dois pedaos de carto, metendo-a depois num envelope comercial dirigido 
a Francis Sullivan, Motel Metropolitano, Avenida Huntington, Bston, Massachusetts. Como remetente, 
escreveu o nome da irm e a sua morada de Lexington.

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Por fim, guardou o livro de cheques e algumas peas de roupa num saco de viagem e procurou na confuso da 
secretria at encontrar selos de correio. Pelo sim, pelo no, ps trs no envelope e enfiou-o tambm no saco. 
Ento, lanando um ltimo olhar  sua prpria casa devastada, desempenhou a sinistra tarefa de meter o seu 
animal de estimao num saco de plstico e de o enterrar entre as rvores, atrs da casa.

Antes de levar o saco para o carro, olhou para um lado e para o outro, at ter a certeza de que ningum o 
observava. Eram quase duas horas quando desceu a rua e se dirigiu para Strathmore, parando por momentos 
num marco de correio para l pr a carta. A sensao de excitao e antecipao que o invadia foi 
aumentando ao aproximar-se da baixa. Percebeu que mal sentia as dores na perna e nas costas.

Seguiu propositadamente pelo caminho mais longo que conseguiu descobrir, pelas ruas mais a direito, sempre 
a olhar pelo retrovisor, para ver se era seguido. No era. A seguir, parou num supermercado onde levantava 
cheques com frequncia e conseguiu convencer a empregada da caixa a trocar-lhe um de cem dlares. Juntou 
os cem aos trinta que j tinha consigo, parou uma vez ainda para encher o depsito do Olds, percorrendo 
depois a rua principal em direco  Ponte de Sagmore. Olhou o relgio e viu que faltavam trinta e cinco 
minutos para a hora marcada para a troca

11 PARTE

At 1934, Cape Cod fora uma pennsula com cerca de cem quilmetros de comprimento, estendendo-se como 
um dedo nodoso e curvo pelo oceano Atlntico. Para ir de Nova iorque at Bston, os navios tinham de dar a 
volta, passando por Provincetown, na ponta do dedo, e atravessar a baa de Cape Cod, at que, no fim do 
referido ano, os sapadores militares completaram a abertura do canal atravs da base do dedo, transformando 
a pennsula numa ilha. Duas pontes, uma em Bourne, no extremo ocidental do canal, e outra em Sagmore, no 
extremo oriental, passaram a ser as nicas ligaes directas com a terra firme.

luke percorreu a distncia do centro de Strathmore at  entrada da ponte nuns cuidadosos quinze minutos, 
sempre a verificar se estava a ser seguido. Ao chegar l, um vulgar carro cinzento saiu do parque de 
estacionamento dum restaurante e seguiu-o  mesma velocidade, a uns vinte metros.

Aps atravessar a ponte, luke sentiu desaparecer alguma da excitao, e relaxou a sua vigilncia do retrovisor. 
Semicerrou os olhos por causa da luz do Sol, que se punha  esquerda, e recostou-se no assento, saboreando o 
seu calor. Da a uma hora, estaria a salvo no Motel Metropolitano de Bston.

O carro cinzento ficara completamente escondido por um grande tractor com atrelado, e os dois homens que 
nele seguiam pareciam satisfeitos, limitando-se a ocupar de vez em quando a faixa de ultrapassagem para 
vigiar o progresso de Luke. S a alguns quilmetros a norte de Plymouth  que o tractor, sem fazer sinal, 
virou bruscamente para a direita, para uma sada, e o condutor do carro cinzento quase o seguiu, mas, no 
ltimo momento, percebeu o que se passava e voltou rapida-

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mente  auto-estrada. Foi nesse movimento repentino que Luke reparou primeiro, mas o trnsito no sentido 
em que seguia era pouco e o carro cinzento deixou-se ficar para trs, o que no o impediu de, desconfiado, 
carregar no acelerador at atingir os cem.

O homem ao lado do condutor era entroncado, com ar simiesco, de lbios grossos, orelhas muito em baixo e 
praticamente sem pescoo e testa. Quando o Olds acelerou, olhou para o magro condutor de cara bexigosa e 
disse, em voz rouca:

- J nos topou, Richie, tenho a certeza! Vamos apanh-lo.
- O chefe disse que tnhamos de seguir o estupor e descobrir para onde vai - replicou o bexigoso. - No falou 
em apanh-lo.

- Ouve, minha besta, se ele nos topou, que vamos fazer, segui-lo num passeio turstico pela costa? - exclamou 
o macaco. - V l, carrega no acelerador! Ele est a afastar-se! insistiu, tirando um pesado revlver do coldre 
sob o casaco e acariciando-lhe a coronha, enquanto o bexigoso acelerava a fundo e o carro avanava que nem 
uma seta.

Luke no tivera a certeza absoluta de estar a ser seguido pelo carro cinzento at o ver aproximar-se 
rapidamente pelo retrovisor. Nos seus tempos, o Olds proporcionava conforto e fora, mas, depois de treze 
anos e cento e noventa mil quilmetros, comeava a tremer a mais de cento e dez.

O retrovisor vibrava de tal maneira que Luke quase no distinguia o carro atrs de si, apesar de estar a menos 
de dez metros. Nos segundos seguintes, pensou numa dzia de maneiras para enfrentar o perigo, mas p-las 
todas de parte. A indicao de rea de descanso a mil e quinhentos metros,  beira da estrada, deu-lhe a 
nica ideia plausvel. Decidiu deix-los aproximarem-se o mais possvel e virar de repente para a rea de 
descanso. Com um bocado de sorte, estariam prestes a ultrapass-lo e no conseguiriam curvar para a direita. 
Ento, talvez pudesse sair do carro e fugir, ou tentar fazer marcha atrs, atravessar a divisria central e seguir 
em sentido contrrio.

Na realidade, no teve sorte, pelo menos com esse plano. A sada surgiu com o carro cinzento ainda a cerca de 
dez metros dele e a nica coisa que pde fazer foi virar para l na mesma. Nessa altura, uma caravana mal 
estacionada, pertencente a um casal idoso, os reflexos de Luke e o macaco do carro cinzento conseguiram o 
que todo o plano no fora capaz. O ca-
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sal, a tomar ch gelado e a comer sanduches numa mesa de piquenique ali perto, viu horrorizado o 
Oldsmobile entrar a chiar na rea de descanso e dirigir-se para a traseira da sua caravana. Luke calculou 
instintivamente que no conseguia evitar o veculo e carregou a fundo no travo, sem pensar na dor que lhe 
desceu pela perna.

O outro carro, muito perto dele, quase no teve hiptese de abrandar e atingiu a traseira do Olds a oitenta 
quilmetros  hora. A cabea de Luke saltou para trs com a pancada e depois para a frente, quando o seu 
carro bateu na caravana.

Esta, em ponto morto, saltou para a frente e subiu o passeio, parando a um escasso metro dos seus 
aterrorizados donos. Luke reagiu a tempo de se preparar para o embate e at conseguiu colocar uma mo entre 
a cabea e o volante, mas os ocupantes do outro carro no tiveram tempo para isso. O bexigoso deu com a 
cara no volante, partindo o nariz e abrindo uma antiga ferida de facada na face direita, enquanto o macaco 
batia no pra-brisas com aquilo que devia ser a testa e fazia um buraco de vinte centmetros no pra-brisas, ao 
mesmo tempo que o resto do vidro se estilhaava como uma teia de aranha.

Com uma exclamao de jbilo, Luke deu uma palmada no painel dos instrumentos, um beijo no volante e 
afastou-se a toda a velocidade. Tinha o farol direito da frente partido e vrias mossas razoveis no pra-
choques traseiro e na mala, mas, fora isso, o Choque no afectara o carro.

Como no sabia de que maneira o haviam encontrado, tomou a precauo extra de deixar a auto-estrada e 
seguir por caminhos secundrios com bastantes curvas.

- Quantas vezes vamos falar neste assunto, Sarah? No  possvel, e pronto!

- Bolas, Luke! Porque no tentas perceber o que eu sinto? Mal vi o meu marido durante os dois ltimos anos 
do curso e ainda o vejo menos durante a primeira metade do internato. Agora temos uma hiptese de passar 
dois anos descansados na Direco-Geral de Sade e tu nem sequer queres concorrer!

- Concorri a outros servios pblicos e no fui aceite. -Mas o teu pai  o director..

- Pra com isso, Sarah, por favor Ele no respondeu  minha carta, nem sequer ao convite para assistir 
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licenciatura. Alm disso, o servio militar dura uns bons dois anos, e ser colocado no Sul da Califrnia  
uma aventura. Podemos viajar e at ter um beb, se quisermos.

-Isso  tudo muito bonito desde que no vs parar ao mato!

-Anda c, Sarita, deixa-me dar-te umas beijocas e vais atrs de mim para qualquer lado...

-No para o delta do Mecom, podes ter a certeza. -Nem pensar querida. O exrcito reconhece um cobarde  
primeira vista. Os nicos que podem querer-me no Vietname so os vietcongues! Tiras ou no o roupo ou 
tenho de me atirar para o cho e fazer uma birra?

-No, porfavor nada de birras. Aqui tens o roupo e o contedo do dito. Quandofoi a ltima vez que ganhei 
uma discusso contigo?

- Neste instante, minha senhora, neste mesmo instante.

O Motel Metropolitano de Bston estava totalmente decorado com cores e motivos do Bicentenrio, at os 
cortinados dos quartos eram vistosas manchas de guias brancas, azuis e encarnadas. Luke assinou o registo 
como Francis Sullivan, de Portland, Maine, e teve de pagar sessenta dlares adiantados, por no apresentar 
um carto de crdito. L se vai o jantar no Cais Quatro, pensou para si prprio, atravessando o trio a 
coxear, em direco ao quarto.

Depois de fechar a porta  chave, meteu as suas poucas peas de roupa numa cmoda folheada a carvalho e 
enfiou-se num banho quase a ferver, sem se esforar por proteger os pontos na coxa direita. O acidente na 
rea de descanso acrescentara um espasmo doloroso ao pescoo, alm dum galo na testa s suas leses 
anteriores. Passou uma hora, durante a qual o seu nico movimento foi inclinar-se a custo para diante e 
acrescentar mais gua quente ao banho de imerso.

Elizabeth Corey Bufler acabava de meter a filha de quatro anos na cama quando o telefone tocou. No seu 
roupo amarelo acolchoado, movia-se com uma graa natural que os homens
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achavam atraente desde os seus primeiros anos da adolescncia. Tivera uma breve carreira docente, mas 
adorava a sua vida com o marido, Paul, professor no MIT, e os dois filhos.

Durante o namoro de Elizabeth e Paul, os amigos duvidavam de que o srio e conservador Bufler conseguisse 
acompanhar o andamento da vibrante e jovial Liz, mas durante os sete anos do casamento a relao tinha 
evoludo e ambos se sentiam bem, com as necessrias adaptaes.

-  para ti, Liz! - exclamou Paul da sala. -  o Luke. No lhe contei da Polcia.

Liz aproximou-se rapidamente e pegou no auscultador.
- Ests bem, Luke? O que te aconteceu?

- Tem calma, estou ptimo. Bom, pelo menos inteiro.
- Estiveram c uns inspectores da Polcia,  tua procura. No disseram o que queriam. Que se passa?

- Polcia? De Lexington?

- No, de Bston! Vieram h cerca duma hora, entraram pela casa dentro e instalaram-se, com toda a calma. 
Felizmente que o Paul j chegara a casa, pois eu ficaria desfeita, se estivesse sozinha.

-Descontrai-te, Liz, est tudo bem. Eu encontro-me em Bston. Posso falar com o Paul, se fazes favor?

-  Claro, mas que histria  esta?

-J te conto. Deixa-me falar com o Paul. -Eu estou a ouvir, Luke. Que se passa?

A voz de Paul era preocupada, mas Luke notou tambm uma nota de irritao. Estabelecera-se alguma 
intimidade entre eles durante os dois ltimos anos de internato, em Bston, mas Luke achara o qumico 
reservado e muitas vezes de difcil relacionamento.

-Tens a certeza de que eram de Bston? Quero dizer, identificaram-se?

-Detectives, Luke, dois. Tanto quanto sei, as identificaes e os distintivos eram verdadeiros. Queres fazer o 
favor de me dizer o que se passa? Disseram qualquer coisa sobre teres abandonado o local dum acidente. 
Ficaste ferido? E onde ests, afinal?

- Polcia de Bston?

Merda, o desastre foi s h trs horas, pensou Luke. Quem diabo seriam aqueles tipos? O Paradise devia 
fazer parte da histria...

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- Ests a, Luke? - interrompeu a voz de Paul.

-Sim, estou. Ouve, eu no sei o que se passa, no sei mesmo. Uma doente entregou-me uma coisa antes de 
morrer e algum se tem esforado muito por ma tirar. Deram-me cabo da casa e at me mataram o gato.

- O qu?

-O gato... Olha, Paul, deixa l. Tu e a Liz esto bem? Eles ameaaram-vos, ou coisa assim?

-No, s disseram que queriam interrogar-te sobre um acidente em que te envolveste no caminho para c. 
Tiveste um desastre?

- Sim, mais ou menos. Acredita em mim, Paul, eu no sei mesmo o que se passa nem quem so as pessoas 
que... Espera a! Como diabo foram ter com vocs? Explicaram?

- No, no me lembro de nos terem dito como nos encontraram.

luke j no o ouvia; o seu pensamento percorria todas as maneiras possveis de a Polcia de Bston ter sabido 
to depressa da existncia da sua irm. S uma pessoa, concluiu, podia t-los informado: Ken Putriam. 
Lembrou-se de ter includo o nome dela em vrios documentos, como parente mais prxima, entre eles uma 
aplice de seguro que ele e o scio haviam feito dois anos antes.

- Ouve, Paul, eu estou em Bston e no fiquei ferido. Provavelmente, at  bom no saberem exactamente 
onde me alojei. Assim que descobrir quem  esta gente, devo ser capaz de desembrulhar a meada. Entretanto, 
v se a Liz no se preocupa demasiado. Eu telefono daqui a um dia ou dois, est bem?
- Claro, Luke, mas se pudermos ajudar..

- J ajudaste, Paul. S espero que no vos chateiem outra vez. Falo contigo daqui a um dia ou dois.

-Boa sorte, Luke!

- Obrigado. Eu digo qualquer coisa.

Era quase uma e meia da tarde do dia seguinte quando Luke foi acordado por uma criada que empurrou o seu 
carrinho pelo quarto dentro, quase at  cama, antes de perceber que ele ainda estava deitado e a dormir. A 
televiso continuava ligada,
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como quando adormecera, quase catorze horas antes. A criada parou, ficou a olhar para a grande ndoa negra 
da testa dele, depois desfez-se em desculpas e saiu do quarto.

Antes de se levantar, Luke telefonou a Ken Putriam e o scio confirmou imediatamente que tinha dado o 
nome e a morada da irm  Polcia. Preocupado, mostrou-se incrvel e invulgarmente disposto a ocupar-se dos 
doentes durante o tempo que Luke afirmou ir estar ausente.

Este no lhe deu pormenores dos acontecimentos de sbado nem lhe disse donde estava a telefonar. Contudo, 
Putriam ofereceu-se para ajudar no que pudesse, incluindo com dinheiro, assuntos legais ou um stio onde 
ficar. Luke agradeceu-lhe e prometeu telefonar-lhe todos os dias. Depois, tomou um duche, fez a barba e 
vestiu-se, antes de tentar falar com Karen Samuels.

Atendeu Jackie Gallante, a companheira de quarto de Karen, dizendo-lhe que a amiga tinha sido contactada 
na vspera, no Connecticut, e que fora directamente para Cape Cod, a fim de tratar do enterro da me.

- Tenho estado  espera de notcias, doutor Corey - disse a rapariga. - At julguei que era ela. Ficou de me 
avisar, para eu ir ao funeral.

- Gostava de falar com ela, Jackie - pediu o mdico. Acha que a apanho em casa da me?

- Deve estar l. Espere a, doutor, tenho aqui o nmero do ,telefone num stio qualquer..

-Tudo bem, eu sei o nmero. Obrigado pela ajuda.

Karen Samuels atendeu ao primeiro toque e comeou a falar assim que ele se identificou.

-Doutor Corey, ainda bem que ligou! - disse ela, ofegante. - Os amigos da minha me contaram-me como o 
senhor tentou salv-la. Muito obrigada! Eu... eu ainda no consigo acreditar que isto esteja realmente a 
acontecer.

- Tenho muita pena da sua me. Fizemos tudo o que pudemos, mas o ataque foi muito forte. Era impossvel 
ela viver sem ficar paralisada. Como est a reagir?

-Estou bem. Toda a gente aqui tem sido maravilhosa e compreensiva. O funeral foi ontem, assim que eu 
cheguei. Os
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amigos da minha me j haviam tratado de    tudo. Ajudaram-me tanto, que no sei o que faria sem.---

-Est sozinha neste momento? - interrompeu Luke. Quero dizer, pode falar comigo durante uns minutos sobre 
problemas que surgiram com a morte da sua me?

-Estou sozinha, sim - confirmou ela, intrigada. - Que aconteceu?

-Olhe, pouco antes de morrer, a sua me recuperou a conscincia o tempo suficiente para me dar uma chave, 
que trazia presa a um pulso com adesivo, e fez-me prometer que s a entregava a si. Desde essa altura que 
algum ou um grupo de pessoas tentam por todos os meios tirar-ma. Faz ideia de que chave se trata ou do 
motivo pelo qual algum est disposto a atacar-me e depois fazer chantagem para a apanhar?

- Ai, meu Deus! - exclamou ela, ofegante. - Espero que esteja bem, doutor Corey. Eu sabia da chave, claro. A 
me trouxe-a assim durante anos, mas nunca acreditei realmente que se tratasse de tanto dinheiro como ela 
dizia. A minha me era uma artista, sabe? Com muita imaginao e dada a exagerar as coisas a toda a hora. - 
Eu quero entregar-lhe a chave, mas acho que  melhor descobrirmos primeiro quem anda atrs dela, seno 
pode vir a ter tantos problemas como eu. Neste momento, estou em Bston. Acha que pode vir at c, para 
falarmos disto tudo?

- Hoje?

- Quanto mais depressa se resolver o assunto, melhor. Sejam eles quem forem, sabem ser bastante 
persuasivos.

- O senhor tem a certeza de que ... ? - comeou ela, em tom hesitante.

- Por favor! - interrompeu Luke, com alguma irritao.
- Quase me atropelaram e deram-me cabo da casa. Preciso de falar consigo, e depressa, antes que um de ns 
se magoe realmente. Ento, pode vir at c ou no?

- Eu... eu acho que sim. Tenho carro. Onde quer que v ter? Luke estava prestes a dar-lhe a morada e 
instrues para chegar ao motel, quando se lembrou do carro cinzento que o seguira no princpio da viagem. 
Ento, pediu-lhe que desligasse e marcou-lhe um quarto no Sheraton, perto donde ele estava.

- Eu sei que isto pode parecer um filme de capa e espada, mas quero que tome cuidados especiais para no ser 
seguida
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at c - recomendou Luke, quando voltou a ligar para Karen Samuels. - Depois de passar a ponte, saia da 
auto-estrada e d as voltas que forem precisas para ter a certeza de que no h carros a seguir o seu. Acho que 
me encontraram na Ponte de Saginore, ontem. A estrada vinte e quatro  capaz de ser a melhor para chegar c. 
Arranje um mapa, se precisar. V para o Sheraton, eu telefono-lhe s sete e combinamos um stio para nos 
encontrarmos.

- Est bem - concordou Karen -, mas custa-me a crer que sejam precisas tantas precaues.

- Faa-me a vontade - insistiu o mdico.

luke ficou no quarto quase toda a tarde, a ver um jogo de bsquete na televiso. s cinco, saiu,  procura 
duma rua sossegada onde pudesse encontrar-se com Karen Samuels e ficar com a certeza de que ela no 
estava a ser seguida. A Rua Blacklow, com quatro quarteires, sentido nico e vrios becos transversais para 
a rua paralela, pareceu-lhe perfeita. Sentiu-se entusiasmado por saber que, da a pouco, pelo menos alguma da 
confuso dos ltimos trs dias estaria esclarecida.

De volta ao hotel, fez um desvio de dois quarteires ao avistar um carro-patrulha preto e branco a subir a 
Avenida Huntington na sua direco. No te parece que ests a levar a parania demasiado longe?, 
perguntou a si prprio, metido num portal, a vigiar a rua. Depois, soltou uma gargalhada, lembrando-se dum 
vistoso cartaz que um colega da faculdade tinha pendurado em cima da secretria, no quarto. Era roxo, com 
letras encarnadas, e dizia: L porque s paranico, isso no quer dizer que no andem atrs de ti! 

Luke estava satisfeito e at orgulhoso da preciso com que planeara o encontro com Karen Samuels. Ficou  
espreita numa esquina, no quarto quarteiro da Rua Blacklow, e viu-a aproximar-se, confiante, com o casaco 
verde que lhe descrevera ao telefone. Como ningum vinha atrs dela, fez-lhe sinal para entrar no beco e 
atravessaram at ao outro lado.

S no quarto dela, no hotel,  que Luke relaxou o suficiente para perceber como era incrivelmente bela. O 
longo cabelo preto, liso, formava a moldura ideal para o rosto em forma de corao e para os olhos verdes 
com reflexos dourados, antes de lhe cair at ao meio das costas como uma cascata. Trazia calas castanhas e 
uma blusa amarelo-limo, que acentuavam subtilmente um corpo dos mais perfeitos que j vira. Ainda mais 
impressio-

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nante era a maneira natural como se movia, aparentemente inconsciente da sua prpria beleza.

luke sentiu a garganta contrada, a voz falhou-lhe quando comeou a falar, e s com grande esforo no ficou 
a olhar para ela fixamente. Em contraste, Karen parecia perfeitamente  vontade, estendida na cama enquanto 
falavam. Gradualmente, Luke deixou de sentir dores e esqueceu a violncia das ltimas setenta e duas horas. 
A cordialidade e a beleza daquela mulher, que tinha vindo ajud-lo, eram muito mais tangveis, muito mais 
reais do que tudo o que lhe acontecera.

Hesitante ao princpio, mas cada vez com mais facilidade, reviu os pormenores da morte da me dela e os 
incrveis acontecimentos que se lhe tinham seguido. A rapariga ouviu com toda a ateno, abanando de vez 
em quando a cabea, com dificuldade em acreditar em algumas das partes mais sinistras da histria.

Quase a acabar, Luke inclinou-se para a frente e impulsivamente segurou uma mo dela entre as suas.

- Bom,  assim - concluiu ele. - Agora  a sua vez. Fale-me da sua me-artista e da sua chave mgica. Ou 
melhor, ajude-me a no pensar nesta loucura por um instante e fale-me de si.

-No h muito para contar - comeou ela, rolando languidamente para um lado. - Sou assistente social em 
Nova Iorque, mas isso  tudo a que se pode chamar social. Sempre fui muito solitria, talvez por ser filha 
nica. Tenho algumas amizades masculinas, mas poucas femininas.

- Que quer dizer? - perguntou Luke, que a imaginara vrias vezes, desde o princpio da conversa, de calas de 
ganga a brincar com amigas numa quinta de Connecticut.

- Isso mesmo - insistiu ela, olhando-o com ar interrogativo. - Tive uma m experincia com a minha primeira 
companheira de quarto na faculdade e nunca mais voltei a ter uma amiga ntima ou uma companheira de 
quarto.

- Mas eu pensei que...

luke calou-se de repente, com um grande n no estmago. Os pensamentos atropelavam-se-lhe e quando 
conseguiu voltar a falar, ao fim do que lhe pareceu serem horas, as palavras saram-lhe medidas e 
inexpressivas. No conseguiu disfarar a sua crescente apreenso e o n duplicou e tornou a duplicar de 
tamanho.

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- Quem  a Jackie, Karen? - perguntou.

- Jackie? No conheo ningum chamado Jackie. - Continuava controlada, mas afastara-se inconscientemente 
dele.
- Oia-me com ateno, Karen, ou l quem voc  - quase gritou o mdico, enquanto ela se encolhia devido ao 
tom da voz, que Luke mal conseguia controlar, tal era a fria. - Vou fazer-lhe umas perguntas sobre a sua 
me. Responda, e bem. Qual era o apelido de solteira dela?

- Que  isto? - perguntou a jovem, cada vez menos segura. -  maluco, ou qu? No vejo o que...

Luke inclinou-se para a frente e deu-lhe um estalo com tanta fora e to de repente que se admirou tanto como 
ela.

- Raios partam isto! - gritou. - Quero saber o apelido de solteira de Evelyn Samuels. Quem  voc? Passei por 
muita coisa nos ltimos dias e juro que, se a apanho a mentir, dou cabo de si!

Uns grandes verges encarnados comeavam a aparecer na plida cara da rapariga e um fiozinho de sangue 
formava-se-lhe ao canto da boca. Saltou da cama para uma cadeira e ficou encolhida, a soluar.

- Por favor, por favor, no me bata mais - pediu. - Eles no me disseram que lhe tinham feito essas coisas 
horrveis. Palavra! Eu nem sequer sei o que  isto tudo, tem de me acreditar!

Luke deixou-se cair de joelhos e segurou a cara entre as mos. A sua linda realidade tornara-se novamente no 
pesadelo anterior, mais terrvel do que nunca.

- Est bem - concordou por fim. - Eu no torno a bater-lhe, mas s se comear do princpio e me disser quem 
 e como se meteu nesta porcaria.

A rapariga limpou o canto da boca com as costas da mo e pareceu prestes a vomitar quando viu o sangue.

- Chamo-me Connie, Connie Evans, e sou actriz, pelo menos quando tenho trabalho, mas as coisas no me 
tm corrido muito bem ultimamente. Por isso, quando um tipo me ofereceu quinhentos dlares para vir at 
aqui e receber uma chave que voc tinha, no pude recusar. Meu Deus, Luke, h seis meses que no ganho 
tanto dinheiro! Tem de acreditar que...

- Continue - ordenou ele.

- Um tipo com quem sa uma vez ou duas telefonou-me e disse que, se eu viesse at Cape Cod, podia ganhar 
com facilidade quinhentos dlares a desempenhar um papel.

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-Como se chama ele?

- Jim, Jim Spear. Garantiu que era fcil e que no havia problema, mas quando cheguei l tinham uma 
rapariga atada a uma cadeira e ameaaram-me de que, se no agisse como eles queriam, me cortavam a cara. 
Ai, meu Deus! Que me iro fazer agora? Tem de me ajudar, Luke! Por favor!

-A rapariga que     estava atada era a Karen Samuels?

- Era... Esto em casa da me dela,  espera de notcias minhas. Disseram que voc nunca falara com ela, s 
sabia que era assistente social e  vivia em Nova Iorque.

- Estpidos filhos da me! - resmungou Luke. - Voc disse eles. Quantos so?

- S dois. O Jim, Spear e outro homem, que ele tratava por Bob. No sei o resto do nome.

-Como  ele?

- Baixo, mas bastante forte, percebe? Com quarenta e tal anos, acho eu, mas no sou grande coisa a calcular 
idades. Um bocado careca atrs -, explicou ela, apontando para o alto da prpria cabea.

-O Paradise! - exclamou Luke.
- Quem?

-Nada, nada. Foi consigo que eu falei ao telefone?

- Eles obrigaram-me, palavra! A verdadeira Karen recusou-se a ajud-los e no quis falar comigo nem 
consigo. At tentou dar um pontap nos... bom, voc sabe, do Jim. Ento ele bateu-lhe ainda com mais fora 
do que voc a mim.

- Olhe, desculpe t-la magoado - lamentou Luke, comeando a ter pena da rapariga, que, tal como ele, parecia 
ter cado no meio da loucura doutras pessoas. - Estou prestes a perder completamente a pacincia e no 
consigo encontrar uma pessoa em quem possa confiar. Algum me espera neste hotel?

- No sei. Eu vim de carro sozinha e ningum me contactou. Era suposto receber a chave e regressar a Cape 
Cod. Parecia mais calma e falava num tom sincero.

- D-me as chaves do seu carro -, exigiu Luke. -Mas como  que eu ... ?

- Bolas, Comnie, j disse que lamento t-la magoado, mas bato-lhe outra vez, se no mas d e no me diz 
onde estacionou o carro!

De posse das chaves e do talo de parqueamento, mandou-a deitar-se de bruos numa das duas camas. Com 
tiras que rasgou
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dum lenol da outra cama, atou-lhe cuidadosamente os braos e as pernas a uma perna da cama e, apesar da 
promessa da rapariga, de ficar calada, amordaou-a com outro bocado do lenol, tentando, no entanto, causar-
lhe um mnimo de desconforto. Por fim, tapou-a at ao pescoo com um cobertor.

- Tente dormir - recomendou Luke dirigindo-se para a porta - e, se precisar de referncias para arranjar 
trabalho, diga.  uma actriz e tanto! Para a prxima, seja  mais cuidadosa com o papel que escolher.

Abriu uma greta da porta e observou o corredor: estava vazio. Pendurou o dstico No incomodar na porta e 
desceu a escada das traseiras, oito lances at  garagem. Chegara o momento de enfrentar de novo o inimigo, 
pensou, mas dessa vez com um pequeno plano.

O Hospital Municipal de Bston ficava a cerca de trs quilmetros do hotel. Como muitos grandes hospitais 
municipais, era no que respeitava  arquitectura, um agrupamento de edifcios grandes e pequenos, novos e 
velhos, para demolir e em construo, ocupando dois quarteires, ligados por uma srie de tneis 
subterrneos chamados, por quem l trabalhava, passagem dos ratos.

Luke fizera os seus quatro anos de internato nesse hospital. Fora um dos mais de trezentos jovens mdicos 
que, todos os anos, aceitavam trabalhar mais de oitenta horas por semana em circunstncias muito dificeis, em 
troca de sete mil dlares e uma incomensurvel prtica mdica. Os internos e residentes do Municipal de 
Bston que conseguiam ultrapassar o escasso nmero de enfermeiras, o equipamento antiquado e a poltica 
municipal obstrucionista, saam de l muitas vezes como excepcionais especialistas.

Tinham passado quase trs anos desde que Luke visitara pela ltima vez o hospital, mas poucas mudanas 
encontrou. Deixou o Volkswagen de Connie numa rua prxima e entrou pela porta lateral do edifcio, que 
dava para uma sala onde os mdicos de servio dormiam, quando podiam. Como eram s nove e meia, o 
edifcio estava quase deserto, por isso no teve dificuldade em encontrar um cubculo com pilhas de batas e 
casacos lavados, vindos da lavandaria.

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Dez minutos depois, envergando as calas e o casaco branco dum interno, Luke saiu do elevador no nono 
andar do bloco operatrio. A sua deciso de ir ao hospital apoiara-se na necessidade de ter  sua disposio 
uma arma qualquer para enfrentar os homens que mantinham Karen Samuels presa. Depois de pensar bem no 
assunto, decidiu-se pelos medicamentos.

No tinha inteno de ferir algum e sentia-se incapaz de utilizar uma faca ou um cacete. Durante a guerra, 
andara com uma M-16 e uma pistola nas zonas de combate, mas nunca disparara qualquer delas fora duma 
carreira de tiro. A ideia de um mdico matar propositadamente algum fora sempre antema para si, mas, se 
tivesse de o fazer, talvez fosse nessa noite.

Pensou em diversos medicamentos susceptveis de serem ministrados hipodermicamente e que, se utilizados 
nas quantidades certas, podiam incapacitar um homem sem o matar. A maior parte estava entre o material 
usado pelos anestesistas, e ele adquirira alguma experincia ao trabalhar com eles durante um perodo de 
estudo de trs meses.

Tentando aparentar deciso e -vontade, passou por duas portas de vaivm e entrou no bloco operatrio 
propriamente dito, onde s uma das salas no estava s escuras, pois nela uma equipa operava uma vtima de 
arma de fogo. Atravs da porta fechada, ouvia a tensa conversa entre os trs mdicos e as duas enfermeiras 
que lutavam por salvar a vida do homem.

Ficou ali uns minutos, a ouvir o drama que se desenrolava l dentro e, absorto, no deu pela aproximao 
duma enfermeira, at que esta falou. Surpreendido, voltou-se, sentindo imediatamente a subida da adrenalina 
e a consequente sensao de vazio no peito.

Era uma mulher atarracada, de pescoo curto, com um proeminente tufo de plos escuros sobre o lbio 
superior, e a roupa verde da sala de operaes ainda a tornava mais volumosa. Ficou parada, a olh-lo com 
curiosidade e censura.

- Desculpe, doutor, mas o que est aqui a fazer? - perguntou a mulher.

Sou o doutor Sullivan - respondeu Luke, tentando desesperadamente avaliar se a enfermeira podia ser uma 
ameaa.
- Comeo a trabalhar amanh como anestesista e estava a ver se me orientava, se descobria onde esto as 
coisas.

- De que programa faz parte? - insistiu a enfermeira, de
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mo na anca e pernas afastadas, observando a ndoa negra na testa dele.

Luke sentia as palmas das mos cada vez mais hmidas, pois no tinha como recuar, nem maneira fcil de 
acabar com aquele confronto.

- Sou o chefe dos internos do Programa de Acompanhamento Familiar - justificou-se, - Porque pergunta?

- Bom, doutor chefe dos internos Sullivan, no me parece que tenha passado muito tempo em blocos 
operatrios. Ningum pode andar aqui sem bata verde - replicou a mulher.

- Meu Deus, que maneira de comear! - exclamou Luke, com um ligeiro suspiro e sentindo a tenso diminuir. 
- Aqui estou eu, que devo dar exemplo aos internos, e venho para o bloco sem a bata verde! Obrigado por 
evitar que eu fizesse alguma coisa realmente absurda, como entrar no bloco operatrio. No se importa de me 
dizer onde fica a sala dos mdicos? Gostava de poder entrar e ver o que esto a fazer.

- Tem de passar outra vez por aquela porta e depois virar  esquerda - explicou a enfermeira, com uma 
expresso mais
amena.
- Obrigado. Olhe, onde param os internos de anestesia?
- ltima porta  direita, no mesmo corredor.

Com o pulso acelerado, afastou-se dela, dirigiu-se  sala dos mdicos, envergou as calas e a bata verdes, 
voltou ao bloco e entrou imediatamente na Anestesia. A porta no estava fechada  chave e, excitado, 
encontrou o que procurava numa prateleira  esquerda duma velha secretria muito riscada.

Alinhados na prateleira, estavam trs tabuleiros de anestesia, com os respectivos tubos, agulhas e dzias de 
ampolas de medicamentos injectveis. Como esperara, viu tambm vrios frascos dos medicamentos que 
queria e ainda um pequeno saco de pano com o laringoscpio utilizado para afastar a lngua do paciente e 
expor as cordas vocais antes de inserir o tubo respiratrio na traqueia. Esvaziou o saco e encheu-o com 
seringas, agulhas e trs frascos de cada uma das substncias que tinha escolhido - pancurnio e quetamina.

Enfiou o saco no bolso de trs das calas verdes, puxando-as o mais para cima possvel, para o casaco tapar o 
volume. Passou pela sala quatro e estava a menos de seis metros da porta de sada quando a enfermeira 
atarracada saiu de l, fazendo o corao dar-lhe um salto no peito.

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- O doutor Klein diz que pode entrar e ver o resto da operao, doutor Sullivan. Venha comigo, que eu 
arranjo-lhe pantufas e uma mscara.

Durante uma hora, que mais lhe pareceram vinte, Luke ficou atrs do cirurgio, de pescoo estendido para ver 
a inciso. To depressa se amaldioava por no ter arranjado uma desculpa que lhe evitasse aquela demora, 
como se ria interiormente do absurdo da situao. O controlado e imperturbvel Dr. Luke Corey ali vestido 
como um interno, a quilmetros de casa, assistindo a uma operao feita por jovens mdicos que no 
conhecia, com um saco cheio de medicamentos e seringas encostado  ndega direita.

Por fim, quando os colegas se preparavam para coser a inciso do externo at ao pbis, Luke afastou-se da 
mesa, agradeceu  equipa t-lo deixado assistir e saiu da sala.

Um quarto de hora depois, metia o Volkswagen  estrada para a viagem de cem quilmetros at Cape Cod. 
Um cartaz electrnico na berma informou-o de que a temperatura no passava dos oito graus centgrados e de 
que eram onze da noite. O saco de pano com os medicamentos de que se apropriara descansava no banco a 
seu lado. A quetamina era o que esperava utilizar se, na realidade, fosse obrigado a isso. Tratava-se de um dos 
anestsicos de mais rpida aco que tinha a propriedade nica de agir quer fosse administrado na veia, quer 
directamente no msculo. Pouco depois de receber uma injeco, o doente entrava no estado de anestesia 
desassociativa, em que a dor desaparece e todos os outros modos de percepo ficam distorcidos, como o 
efeito duma alucinao. Dois minutos depois da administrao de quantidades suficientes de quetamina, o 
paciente fica totalmente aptico e essencialmente desprotegido.

O outro medicamento, o pancurnio, no  um anestsico, mas, tal como o curare, donde  retirado, paralisa 
rapidamente todos os grupos de msculos. Contudo, Luke no tinha qualquer vontade de utilizar essa droga, 
visto saber que entre os msculos que ficariam paralisados se encontravam os que controlam a respirao. 
Com uma suficiente injeco de pancurnio e sem o auxlio do respirador, uma pessoa morria numa questo 
de minutos. Assim, levava consigo o suficiente de cada medicamento para imobilizar ou matar vrios homens.

Apesar da frescura da noite, o volante continuava hmido de suor enquanto conduzia o carro, a oitenta.

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14 de Agosto de 1969 Querido Luke,

Esta carta  a coisa mais difcil e dolorosa que alguma vez tive de fazer. Queria desesperadamente poder 
sentar-me ao p de ti, falar-te do que tem vindo a acontecer e de como me sinto, mas j passaram seis 
meses desde que te mandaram para esse stio horrvel e nem sequer fao ideia de quando voltas para casa.

Parece que cada ano que passmos juntos s falmos de como as coisas vo ficar melhores no ano 
seguinte. Sabes to bem como eu que j antes de ires para o Vietname o nosso casamento no ia muito 
bem, Estou aborrecida comigo prpria por nunca ter arranjado maneira de te partilhar com a medicina e 
os doentes, mas acho que sou assim mesmo.

Tu s uma das pessoas mais bondosas, sensveis e maravilhosas que j conheci, e quero que saibas que te 
amo e provavelmente amarei para toda a vida. Infelizmente, o nosso amor no parece ser suficiente para 
contrabalanar a vida em comum que perdemos nos ltimos seis anos. Custou-me imenso suportar sozinha 
todas aquelas noites da tua faculdade e do internato, e agora, que ests a milhares de quilmetros de 
distncia, a minha vida transformou-se num sofrimento constante.

, Pedi o divrcio e disse claramente ao advogado que no quero levar do nosso casamento seno o que 
trouxe para ele. Pelo menos, no teremos discusses sobre quem fica com qu e tambm quero que saibas 
que nofoi s a deteriorao do nosso relacionamento que me fez tomar esta atitude. Conheci um homem, 
um homem meigo e nada complicado, que me ama profundamente.  muito menos interessante do que tu, 
mas est sempre presente quando preciso de contacto fsico ou de apoio. Tem um emprego das nove s 
cinco e vem para casa todas as noites, para junto de mim.

Escrevi aos teus pais e  Liz, tentando explicar o que sinto e o motivo do meu pedido de divrcio.

Porfavor no tentes convencer-me a desistir isso s tornaria as coisas mais difficeis para ambos.

Espero que te mandem para casa em breve, para poderes comear a refazer a tua vida. Sei que h por a
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mulheres com carcter e fora suficientes para estarem casadas contigo e com a medicina. S lamento no 
ser nenhuma delas.

Nunca ficars completamente fora do meu pensamento e do meu corao, e espero que um dia possamos 
sentar-nos a conversar como amigos.

Com amor, Sarah

Era meia-noite e meia hora quando Luke passou pela primeira vez pela Rua de Forestville onde ficava 
a casa de Evelyn Samuels. Nessa rua, como na maioria das ruas secundrias de Cape Cod, os poucos 
postes de iluminao junto s rvores eram mais decorativos do que funcionais. A zona era densamente 
arborizada e cada residncia tinha bastante terreno  volta. Sentiu-se encorajado ao ver que a de 
Evelyn ficava separada das adjacentes por densos renques de carvalhos e pinheiros.

Passou vrias vezes pela casa, evitando mudanas de velocidade que despertassem a ateno de quem 
estivesse l dentro, e verificou que era uma casa rstica branca, impecvel, com persianas pretas, um 
pequeno relvado salpicado de rvores na parte da frente e um caminho de pedrinhas soltas que levava 
a um abrigo para carros. Viu luzes nas janelas do lado direito, mas as da esquerda estavam s escuras.

Um carro pequeno, estrangeiro ou monovolume, estava estacionado no abrigo e outros dois na rua, um 
de cada lado.  segunda passagem, Luke reparou na palavra Polcia ao lado da matrcula dum carro 
azul e, quando passou de novo, conteve a respirao, apertando mais o volante, ao notar o farol direito 
partido e o pra-choques torto do Ford preto estacionado do outro lado da rua, mesmo diante do 
nmero cento e quatro.

Teve vrias ideias, mas foi-as abandonando umas a seguir s outras, na tentativa de elaborar um plano 
que lhe permitisse enfrentar separadamente os dois homens que se encontravam no interior da casa. 
Por fim, ainda sem um esquema definido, estacionou no quarteiro seguinte e foi-se aproximando da 
casa por entre as rvores. No bolso direito do casaco levava duas seringas, cada uma com uma dose 
incapacitante de quetamina; no esquerdo, duas outras cheias com doses letais de pancurnio.

A noite estava excepcionalmente calma. Ao aproximar-se, teve a certeza de que as pessoas dentro da 
casa conseguiam ou-
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vir as pulsaes do seu corao, que lhe soavam como tiros. Mantendo-se to baixo quanto lho permitia 
a dor na perna, atravessou rapidamente o estreito ptio das traseiras e encostou-se  parede da casa.

Espreitando pelas janelas, deu a volta at avistar uma sala agradavelmente decorada. As trs pessoas, 
que l se encontravam, ficaram dentro do seu campo de viso ao mesmo tempo. Paradise e Spear 
jogavam s cartas e bebiam cerveja numa mesa baixa, diante duma lareira de pedra, cujas fortes 
chamas danantes distorciam as sombras na parede do fundo, enquanto a rapariga estava sentada de 
maneira que s lhe via a parte de trs da cabea e as mos atadas atrs da cadeira. Ficou a olhar l 
para dentro durante uns minutos, imvel, com a cabea inclinada para o lado e os ombros a moverem-
se ritmicamente, ouvindo as ocasionais exploses de riso dos dois homens, que atravessavam a fresca 
noite de Abril.

Tocou nas seringas dentro do bolso e voltou para o ptio das traseiras da casa. Uma ideia comeava a 
cristalizar-se e, observando de novo o abrigo para os carros e as rvores em volta, o plano, foi-lhe 
parecendo cada vez mais plausvel. A um canto do abrigo, viu uma lata de sete litros e meio de gasolina, 
quase cheia, e na orla do bosque havia uma grande pilha de galhos cortados, alm de um monte de 
jornais, junto  porta de trs.

Precisou de doze cuidadosas viagens atravs do ptio, mas quando acabou tinha um muro de galhos 
com mais dum metro de altura ao longo de toda a parede das traseiras. Completou-o com jornais 
amarrotados enfiados ao acaso na parte inferior, depois, cansado, deixou-se cair na relva fria, 
admirando a sua criao.

De repente, ficou imvel, perante um terrvel rosnar muito perto,  sua direita. Um grande doberman 
estava parado na orla do bosque, a cerca de trs metros dele, com os dentes  mostra e o plo negro a 
brilhar  luz da Lua. Embora no tivesse muito medo de ces grandes, tambm nunca se sentira muito 
 vontade ao p deles. Inexplicavelmente, contudo, a sua reaco naquele momento no foi de medo 
nem de pnico. Durante um interminvel minuto, tanto ele como o belo animal ficaram perfeitamente 
imveis, de olhos um no outro, com as nuvens brancas da respirao quase a tocarem-se.

Depois, num lento movimento suave, Luke levantou um brao e estendeu-o, com a mo fechada, na 
direco do co. O rosnado parou imediatamente e, com as narinas a tremer, o

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animal avanou, aproximando o focinho da mo do mdico. De repente, fez um estranho rudo sibilante 
do fundo da garganta, recuou um pouco, voltou-se e desapareceu por entre as rvores, num unico salto.

Segundos depois, Luke estava de p, dirigindo-se rapidamente para a rua seguinte. Deu a volta ao 
quarteiro e aproximou-se do Ford do lado contrrio  rua, protegido da casa pelo carro. Respirou de 
alvio ao encontrar a porta s no trinco e meteu a mo l dentro para abrir o cap. Durante os trinta 
segundos de que precisou para desligar o fio do distribuidor, ficou  vista da casa, mas ningum 
apareceu  janela.

Voltou pelo mesmo caminho, molhou os galhos com a gasolina e, por fim, fez um rastilho de papel de 
jornal ensopado tambm em gasolina at ao carro, no abrigo, despejando o resto do combustvel 
debaixo dele.

Ia a correr por entre as rvores o mais depressa que conseguia quando o muro de galhos pegou fogo.

Paradise reparou no incndio segundos antes de a janela da sala de jantar rebentar para dentro. Com 
um grito de aflio, dirigiu-se para os longos cortinados dourados j em chamas, mas uma terrvel onda 
de calor f-lo parar a alguma distncia da janela. Perturbado, mas mantendo um controlo fruto dos 
seus anos como polcia, voltou-se para Spear, que parecia pregado  cadeira.

-A merda da parede das traseiras est toda a arder! gritou. - Chama os bombeiros, quatrocentos e 
quarenta e quatro, cento e doze. Tenho de me pirar daqui antes que apaream.

Spear levantou-se, atrapalhado, deitando olhares desvairados  sua volta.

-Que fazemos com ela? - perguntou.

- Leva-a para a tua casa - respondeu Paradise, dirigindo-se para a porta. Depois, olhou para a rapariga 
e disse: - Se ela te chatear, d-lhe um tiro num joelho. Agora chama l o raio dos bombeiros, pois 
continuamos sem saber se o que procuramos est ou no nesta casa.

E saiu porta fora, ouvindo-se o carro da polcia pouco depois a acelerar pela rua abaixo.

O rudo do fogo, um inferno que cobria toda a parede traseira, obrigou Spear a dizer a morada aos 
gritos pelo telefone, at ter a certeza de que os bombeiros tinham percebido. Karen Samuels continuava 
sentada, mas com a cabea erguida, a v-lo correr
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dum lado para outro. O leno branco que lhe enchia a boca dificultava-lhe a respirao, mas os olhos 
cinzento-azulados brilhavam mais de curiosidade e divertimento do que de terror.

Spear puxou-a, p-la de p, ainda com as mos atadas atrs das costas, deitou-lhe um sobretudo por 
cima e abotoou-lho. Uma nuvem de fumo negro entrava pela janela rebentada e a temperatura da sala 
comeava a ficar demasiado quente quando ele a empurrou pela porta da frente, olhou para o carro 
pequeno, j a arder, e dirigiu-se ao Ford.

Vrios mirones, a maioria de olhos ensonados e de roupo, observavam o incndio, agrupados a um 
lado da casa, mas ningum os interpelou, enquanto Spear fazia a rapariga atravessar a rua e a metia no 
carro. Com o estalido morto da ignio, comeou a mover a chave freneticamente para a direita e para 
a esquerda, experimentando as luzes, a buzina e o rdio ao mesmo tempo. Ento, o cu nocturno 
transformou-se em dia e a terra tremeu literalmente com a exploso do outro carro.

Luke agachou-se o mais possvel na parte de trs do Ford. Pusera um cobertor escuro por cima de si e 
segurava uma seringa de quetamina na mo direita.

Com o claro e a exploso, a cabea de Spear voltou-se repentinamente para a direita e Luke, 
levantando-se imediatamente, passou o brao direito em volta do pescoo do homem. Ao mesmo tempo, 
espetou-lhe a agulha na base do pescoo e carregou no mbolo. Spear lutou em vo para se soltar, 
depois comeou a procurar o revlver no bolso do casaco. Luke percebeu o que se passava e disse, com 
toda a firmeza possvel:

-Ainda no te dei o suficiente para te matar, mas outro empurrozinho com o polegar e ests morto. 
Por isso, pe as mos no volante e deixa-as l ficar.

Spear parou de se agitar, mas as mos no apareceram no volante. Luke apertou ento mais o cerco 
com o brao esquerdo e gritou:

-Pe l as mos, raios te partam! J!

Lentamente, as mos de Spear apareceram no volante. O homem comeava a sentir o corao a bater 
com mais fora e a respirao acelerada. Ao mesmo tempo, um calor reconfortante substitua o medo, 
enquanto os msculos se agitavam involuntariamente. Pelo pra-brisas, viu um comprido carro dos 
bombeiros, vermelho, a descer a rua na sua direco, mas o claro do incndio despertava-lhe a 
ateno, por isso ficou quieto, deixando a luz alaranjada danar-lhe na mente.

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Luke largou-lhe o pescoo e retirou a seringa, ao mesmo tempo que o desarmava.

- No tenha medo, Karen - disse ele, tirando-lhe o leno da boca. - Sou Luke Corey. Agora est tudo 
bem. Ele j no pode fazer-lhe mal.

A rapariga ia comear a falar, mas Luke j estava fora do carro, a ligar o fio do distribuidor. Outro 
carro de bombeiros acabava de chegar e a multido de espectadores do outro lado da rua atingia agora 
vrias dzias. Um bombeiro exclamou:
- H azar, amigo? No pode tirar isso da?

- Era um fio solto - gritou Luke. - Samos daqui num segundo!

Entrou no carro do lado do volante, empurrando o dcil Spear de encontro a Karen. Para o homem, 
luzes, cores e minutos misturavam-se, no conseguindo prestar ateno a qualquer coisa. Tentou falar, 
mas s foi capaz de emitir uns sons guturais e indistintos.

O Ford pegou com facilidade e Luke conduziu cuidadosamente em volta do quarteiro seguinte. Parou, 
guardou as chaves do carro, desatou Karen e tirou a carteira a Spear. Depois, apearam-se os dois, 
meteram-se no Volkswagen e desceram a rua, afastando-se das chamas e do caos.

Nenhum dos dois falou at terem passado a Ponte de Sagmore. Sem a olhar, Luke perguntou:

-Voc est bem?

- Estou, estou. bem - respondeu Karen.

Prosseguiram em silncio durante dez minutos. Luke sentia-se pouco  vontade, sem saber o que dizer, 
e tambm no tinha ideia do que fazer a seguir. Olhou para o relgio e viu que j passava das duas. 
Com certo esforo, aclarou a garganta e espreguiou-se, deitando uma olhadela  rapariga  sua 
direita. Ia sentada no seu lugar, muito empertigada, com uma perna debaixo do corpo, a olhar em 
frente. Uma lgrima solitria desli zava-lhe pela face esquerda. Parecia cansada e muito frgil.

Luke engoliu com esforo e tentou novamente falar-lhe.
- Lamento muito o que aconteceu com a sua me - disse-lhe.

- Obrigada. Eu tambm. Olhe. doutor Corey. preciso de mais uns dez minutos ou coisa assim. para 
tentar recuperar. est bem?

- Trate-me por Luke e leve o tempo que quiser. A mim, apetece-me guiar mais um bocado.

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Durante o quarto de hora seguinte, os nicos sons para alm do motor do Volkswagen foram uma 
ocasional fungadela ou um soluo de Karen. De repente, a rapariga respirou fundo trs vezes, voltou-se 
de lado e encostou-se  porta do carro.

- Dou-lhe os meus parabns, sabe? - comeou ela. Nesta noite ocorreu um dos mais criativos primeiros 
encontros de toda a minha vida. Voc tem realmente um certo... estilo!

Apanhado completamente desprevenido, Luke respondeu-lhe no mesmo tom:

- Pensei que gostasse. Quis manter as coisas simples, com bom gosto mas no saloias. No  fcil para 
ns, rapazes do campo, planear a noite adequada a uma rapariga da grande cidade. Se realmente 
gostou, temos de combinar uma coisa parecida para o prximo fim-de-semana, como, por exemplo, 
saquear e incendiar Roma.

- Talvez prefira pr Paris a arder - observou ela. - Por falar nisso, voc incendiou mesmo a minha casa 
e fez explodir o meu carro?

- Parecia a melhor soluo, naquele momento - respondeu Luke, embaraado.

- E foi - concordou Karen, sorrindo. - Obrigada por me tirar, daquele sarilho.

- Uest rien - disse Luke.

Continuaram mais uns minutos, at que ela continuou:
- H dois dias que no durmo, Luke. Temos dinheiro para ,um motel?

-Claro - anuiu ele. - Parece que h um ali  frente.
- Ento, vamos, mas com cuidado. Da maneira como as coisas se tm passado, no me admirava de 
chegarmos l e encontrarmos uma tabuleta a dizer Motel Bates, como no Psico.

- Damos conta do recado - declarou Luke, em tom confiante. - Tenho injeces mgicas que chegam 
para o Norman Bates e a me dele. Mas h uma coisa que me preocupa...
- Sim, que coisa? - perguntou Karen.

- Bom, da ltima vez que estive num motel consigo, no se tratava da mesma pessoa. Ajude-me a 
aclarar as ideias. Quem  a Jackie?

- Hum... A viva do falecido... -Tente outra vez.

- J sei! A primeira jogadora negra do basebol, a segunda base dos Dodgers, com um palmars 
invejvel.

7

- Mais uma tentativa dessas, Karen, ou l quem voc , e depois dormimos no Volkswagen, e eu fico no 
banco de trs.

- Est bem - concordou ela, resignada. - Provavelmente, est a referir-se  minha companheira de 
quarto, Jackie Gallante. Mas no espere grande coisa dela, joga muito mal.

Estavam os dois a rir quando o sonolento recepcionista os recebeu e lhes indicou o quarto vinte e trs 
do Motel BelAire, de Weymouth.

Diante do lavatrio, a lavar a cara, Luke foi-lhe relatando os acontecimentos da noite pela porta 
entreaberta.

-Foi ento que decidi tentar chegar c para a tirar das garras deles - disse, entrando no quarto.

Contudo, a maior parte da histria no tinha sido ouvida. Karen dormia profundamente numa das 
camas e a sua roupa estava empilhada numa cadeira a um canto.

Luke apagou a luz, enfiou-se na outra cama e ficou acordado algum tempo, de olhos abertos no escuro, 
at que o sono chegou. Uma hora mais tarde, acordou o suficiente para perceber que a rapariga se 
metera na cama dele e dormia encostada a si. Abraou-a, ela remexeu-se para se acomodar melhor, e 
da a um momento, tambm ele mergulhava num sono profundo, sem sonhos.

Luke acordou pouco depois do meio-dia e verificou que estava sozinho. Vestiu-se, saiu rapidamente e 
viu Karen estendida debaixo duma grande rvore, numa pequena colina coberta de erva, do outro lado 
da estrada. Apoiada num cotovelo, sorriu-lhe quando o viu atravessar. Enquanto se aproximava, 
percebeu pela primeira vez que ela era muito baixa, esguia, de pele clara e encantadora, parecendo 
uma garota. O cabelo, dum tom doirado de Outono, quase at aos ombros, emoldurava-lhe os grandes 
olhos ovais, cinzentos, e a ndoa negra sobre o direito no lhe diminua os atractivos.

Estava novamente um daqueles dias quentes e brilhantes de Primavera da Nova Inglaterra, cheio do 
fresco aroma de coisas a crescer. Raios de sol danavam por entre as minsculas folhas da rvore 
centenria, espalhando crculos de luz no cho  volta dos dois.

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Estiveram horas deitados  sombra salpicada de luz, compartilhando episdios das suas vidas, embora 
sem mencionar a bizarra sequncia de acontecimentos que os juntara e conduzira a um local to 
improvvel.

Karen, filha nica duma filha nica, tinha sido criada em Bston, mas frequentara um colgio interno 
em Vermont, a partir dos doze anos. O pai morrera ou sara de casa muito antes disso, e ela parecia 
saber pouco acerca do assunto.

-O meu pai era o nico problema sobre o qual a minha me e eu nunca conseguimos falar livremente - 
contou a rapariga. - Ela quase nunca chorava, mas uma noite, depois de eu a massacrar com uma srie 
de perguntas de fedelha, fui dar com ela a soluar no sof, por isso nunca mais pus questes daquele 
gnero. Talvez por isso  que me custa tanto acreditar que voc ainda no tenha sido capaz de fazer as 
pazes com o seu pai.

-No lhe custava tanto acreditar, se o conhecesse - retorquiu Luke, brincando com o p dum dente-de-
leo. - Ou talvez devesse dizer nos conhecesse. Nos ltimos anos, escrevi-lhe duas vezes a dar notcias, 
nada complicado, mas no respondeu imediatamente a nenhuma delas, s meses depois e, das duas 
vezes, sem mencionar as minhas cartas. Limitou-se acomunicar-me as investigaes mdicas em que 
estava a trabalhar e a dizer que a minha me tinha muitas saudades.

- Tambm no a v? - perguntou Karen.

-Vejo, claro. Ela vem duas ou trs vezes Por ano a Lexington, a casa da minha irm. Antigamente, 
costumava dizer que era um disparate a maneira como eu e o meu pai nos comportvamos, que tudo se 
resolveria assim que um de ns se aproximasse do outro, mas acho que acabou por se fartar de no 
fazer progressos com ele, no Maryland, e de encontrar a mesma obstinao da minha parte, em Bston, 
porque j praticamente no toca no assunto.

- Isso  muito triste - comentou Karen. - Quando sa do colgio, decidi que a minha vida tinha sido 
demasiado protegida, de maneira que fui para Nova iorque e arranjei trabalho como assistente social. 
Nove dcimos da miudagem que me passa pelas mos no conhece o pai, como eu, mas voc, que tem 
um que provavelmente gosta imenso de si e j est com alguma idade, no consegue arranjar fora 
para levantar a mo e tocar-lhe. Com certeza que uma pessoa que tem a coragem de fazer o que voc 
fez ontem  noite, tambm  capaz disso.

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- Pode acreditar que o meu acto de ontem foi uma mistura de desespero e loucura - explicou Luke, um 
minuto depois.
- A coragem no foi para l chamada.

- Quando o oio falar da sua relao com o seu pai, quase que o acredito.

Dizendo isto, Karen aproximou-se, deu-lhe um beijo, suave ao princpio, mas adquirindo gradualmente 
energia e paixo.
- Com ou sem coragem, fez uma coisa incrvel e maravilhosa por mim - murmurou ela, enquanto Luke 
se esforava por fixar uma folha da rvore para evitar entrar em rbita. Fao tenes de descobrir o 
que  preciso fazer na sua vida e de o ajudar em tudo o que eu puder.

Uns minutos mais tarde, estavam de volta ao quarto, despiram-se desajeitadamente um ao outro e 
comearam a fazer amor. Ela moveu o corpo esguio  volta e por cima do dele, esfregando-lhe os seios 
no peito e depois nos lbios. Luke sentiu a excitao aumentar rapidamente, demasiado rapidamente. 
Respirou fundo vrias vezes e tentou abrandar o andamento, mas Karen meteu-lhe a lngua na orelha, 
depois beijou-o ainda com mais paixo no pescoo e percorreu-lhe o corpo com os lbios. Ao penetr-la, 
Luke tentava ainda recuperar algum controlo sobre a sua excitao desenfreada, mas uns segundos 
depois estava tudo acabado para ele. Voltou a cabea e praguejou: -Outra vez no, merda!

- Ento, Luke, se essa merda foi porque tiveste um orgasmo mais cedo do que querias, deixa l - 
murmurou ela. Somos novos um para o outro, novinhos em folha. Que esperavas? Eu quase tive um s 
de te dar um beijo l fora. s uma brasa e excitante ao tacto e, se calhar, eu tambm. Gosto de saber 
que te agradei tanto. No podemos ficar aqui deitados, abraados um ao outro? Repetimos mais tarde. 
Podes crer que nada do que faas ou no faas me desilude.

Ele olhou-a, mas no encontrou palavras para lhe responder. Da a pouco, tornaram a fazer amor, e 
Luke sentiu uma alegria descontrada que no experimentava desde os primeiros tempos com a 
mulher. Mais tarde, calmamente deitados a olhar um para o outro, Karen estendeu um dedo e tocou-
lhe nos lbios.

- Fique mais uns tempinhos comigo, doutor Corey, se puder - pediu. - Devemos ter muito que dizer um 
ao outro. Quando a rapariga, da a algum tempo, se vestiu para ir
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comprar pasta de dentes, champ e umas carnes frias para o jantar, Luke procurou alguma coisa para 
ler, mas s encontrou a inevitvel Bblia e um Guia para visitantes de Cape Cod e da Costa Sul. 
Strathmore, Massachusetts, leu ele,  possivelmente o mais calmo e pitoresco de todos os municpios 
de Cape Cod. O visitante ver-se- afastado da febril vida citadina ao passear, numa vila intemporal, 
por estreitas ruas ladeadas de rvores, passando por grandiosas manses, muitas das quais datam do 
tempo dos grandes navios de madeira. Riu e abanou a cabea, perante a ironia.

Nesse momento, Karen irrompeu no quarto.

-Meu Deus, Luke! Liga a televiso - exclamou ela. Temos de ouvir as notcias. - Parecia no ter uma 
gota de sangue e tremia incontrolavelmente quando se deixou cair na beira da cama.

- Acalma-te, Karen - pediu Luke num tom de voz firme e profissional. - Depois de tudo o que passmos, 
com certeza que podemos ultrapassar seja o que for juntos. Toma l duas almofadas. Agora, deita-te e 
tenta dominar-te. Vou ver se consigo apanhar as notcias.

- Ai, Luke, foi horrvel - prosseguiu ela, a soluar. Tinham uma televiso pequena atrs do balco da 
loja e de repente... por favor, descobre um noticirio qualquer! Um canal de Bston.

Recapitulando a nossa histria principal da noite, dizia a voz do locutor, antes do aparecimento da 
imagem, um mdico de Cape Cod  procurado por se supor que est relacionado com a brutal 
violao e estrangulamento dum modelo de Bston. Mais pormenores no noticirio das onze. 
Transmitiremos boletins  medida que forem chegando.

Luke sentiu o quarto girar e, por um momento, julgou que ia perder o controlo dos intestinos.

- Ai, no, meu Deus! - era a nica coisa que conseguia dizer repetidamente.

- Mataram-na, Luke! - gritou Karen histericamente. Como no queria ajud-los mais, violaram-na e 
mataram-na! Ela s pedia que no a desfigurassem. E agora mataram-na!

Tambm profundamente abalado, Luke abraou-a com fora, incapaz de pronunciar as mais simples 
palavras de conforto. O belo rosto e o corpo perfeito de Connie Evans materializavam-se-lhe no 
pensamento, e as suas splicas de ajuda explodiam-lhe no crebro.

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Por fim, mudou de canal,  procura de mais informaes. Quando apanhou o quatro, ficaram ambos 
ofegantes. No aparelho estava um grande plano de Luke, fardado, uma fotografia tirada pelo exrcito 
mesmo antes de passar  disponibilidade. Incrdulos, ouviram a notcia da morte de Connie Evans.

Pouco depois do meio-dia, disse o locutor, uma empregada descobriu o corpo e avisou o gerente do 
Sheraton de Bston, que chamou a Polcia. A vtima tinha sido espancada e sexualmente violentada 
antes do estrangulamento. Um mdico de Cape Cod, o doutor Lewis T. Corey,  procurado por suspeita 
de ter cometido este crime. Fontes policiais afirmam que Corey, de trinta e seis anos, foi visto a entrar 
no hotel com a modelo, na noite anterior  sua morte, mas ningum se apercebeu da sua sada, depois 
disso. A autpsia indica que a morte deve ter ocorrido por volta das trs horas da manh. A 
identificao de Corey, veterano condecorado da Guerra do Vietname, foi feita atravs de impresses 
digitais encontradas no quarto. Connie Evans, de vinte e dois anos, trabalhava a tempo parcial para a 
agencia de modelos Diamante, de Bston. Vivia em Quincy, mas estava registada no hotel com o nome 
de Karen Samuels, de Nova iorque.

A seguir, mostraram uma provocante fotografia de Connie, com um transparente vestido branco, a 
cabea inclinada para trs e o longo cabelo preto a esvoaar. O sorriso do modelo evocava um jantar  
luz das velas e um clice de Courvoisier junto a uma lareira crepitante.

0 suspeito, Corey, mdico de clnica geral em Strathmore,  divorciado.

A fotografia de Luke, fardado, apareceu novamente na televiso, enquanto a voz propositadamente 
imparcial continuava: Uma equipa de exteriores do canal quatro est em Strath-

more, onde a reprter Rboda Martin vai entrevistar o doutor T. Kenner Putriam, scio maioritrio da 
clnica de Strathmore onde tambm trabalha o doutor Corey.

Apareceu uma jovem morena, bonita, empunhando um grande microfone entre ela e um Ken Putriam 
calmo, mas de lbios apertados.

Encontro-me em Cape Cod com o doutor Kenner Putriam, scio do suspeito deste crime, Lewis Corey. 
Doutor Putriam, h quanto tempo conhece o doutor Corey?

Somos scios h mais de quatro anos, Rhoda.
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Os seus anos de poltico tinham-lhe proporcionado muitas oportunidades de dar entrevistas televisivas, 
e via-se que estava perfeitamente  vontade. Olhava directamente para a cmara e falava num tom 
comedido.

Quando foi a ltima vez que soube do doutor Corey?, perguntou Voda Martin.

Fizemos a ronda hospitalar juntos no sbado de manh, mas no sei dele desde essa altura, Voda.

Quando o viu no sbado, pareceu-lhe preocupado com alguma coisa em especial?

Nem por isso, Voda.

-Deixa-te disso, Ken! - exclamou Luke, em tom irritado. - No ests a exagerar com o toque pessoal? 
Dizes o nome  dela outra vez e a rapariga convida-te para sair.

Putriam continuou:

Tinha umas ligeiras contuses numa perna e na cabea, dum acidente rodovirio ocorrido na vspera, 
mas, tirando isso, parecia bem-disposto. No posso acreditar que o doutor Corey ,,tenha alguma coisa a 
ver com esse crime horroroso. Se ele estiver a ver isto, peo-lhe encarecidamente que aparea.

Muito obrigada, doutor Putriam. Falmos com o doutor Kenner Ptriam, scio do suspeito Lewis 
Corey, que acaba de fazer um apelo para que o doutor Corey o contacte ou  Polcia. Voda Martin, em 
Cape Cod, para o canal quatro.

Obrigado, Vhoda. E agora o noticirio nacional...

Passaram alguns minutos antes que qualquer dos dois fosse capaz de falar; o breve idlio terminara 
com a rapidez duma guilhotina. Durante um feliz meio dia, tinham-se afastado do pesadelo, libertando-
se da irracional corrente de violncia, vivendo num mundo de ternura, palavras e amor. Num instante, 
esse mundo desaparecera. Como minsculas criaturas marinhas apanhadas numa grande onda, eram 
novamente sacudidos por foras, que no compreendiam, para direces que nenhum dos dois desejava 
seguir.

A voz de Luke tremeu, falhou e desapareceu completamente; os seus olhos estavam inchados e 
brilhantes, e tinha as mos fortemente apertadas nas de Karen.

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-Eles no nos largam - observou. - Nunca mais nos largam, e quando conseguirem de ns o que 
pretendem, vamos ser simplesmente esmagados, sem pensarem sequer no assunto. Aquela pobre 
rapariga nunca ouvira falar de ns antes de ontem e agora est morta por causa duma coisa que se 
encontra em nosso poder. Chegou o momento, Karen, tens de respirar fundo e contar-me tudo o que 
sabes sobre a chave, tudo. Ela continuou sentada na cama, imvel, com a cabea levantada e as pernas 
dobradas debaixo de si. Os soluos tinham parado e olhava fixamente a escurido. Luke viu que algum 
do brilho desafiador que j aceitava como parte do seu aspecto natural voltara aos seus olhos.

- Essas pessoas foram de algum modo responsveis pela morte da minha me? - perguntou ela.

- No vejo como. O que me pareceu foi que ela tinha uma presso sangunea alta e no ia ao mdico.

- Aquele tal Spear que me trouxe para o carro... a minha me amava-o, sabes? Andou atrs dela 
durante anos, e ela escreveu-me a dizer que aceitara finalmente a sua proposta de casamento. Era 
mesmo uma mulher encantadora.

-  Acredito que sim - disse Luke, percebendo que s muito a custo a jovem se controlava. Escolheu 
cuidadosamente as palavras: - As marinhas na tua sala, foi ela quem as pintou?

- Eram temas da sua preferncia - respondeu Karen. O filho da me andava  volta dela s para 
apanhar a chave, no era?

luke conseguiu no desviar os olhos, mas foi incapaz de responder.

-  Ainda bem que ela morreu daquela maneira - continuou Karen com veemncia. - Assim que ele 
apanhasse o que queria, Deus sabe o que lhe faria. Quem me dera que o tivesses matado!

- Querida, ouve uma coisa - pediu ele suavemente. Quanto mais zangados ficarmos, mais hipteses h 
de cometermos algum erro. Tens de te acalmar, para podermos raciocinar, est bem?

Ela inclinou-se para a frente e abraou-o com fora.

- Se alguma vez sairmos disto, vais ter a vida cheia comigo. Ests preparado?

- Arrisco. Vamos l, ento, que sabes?

- No tanto como podias esperar - comeou a jovem.
86


A minha me, desde sempre trouxe a chave presa com adesivo ao tornozelo ou ao pulso. Tenho a 
certeza de que existia alguma relao com um homem para quem ela trabalhou em Bston.

- Conta l - pediu Luke.

- Era um homem de negcios de quem foi secretria. Sei que se chamava Peter, mas acho que nunca 
ouvi sequer o apelido. No vivia connosco, mas era parecido com o pai que nunca tive. Por volta dos 
meus seis ou sete anos, comeou a passar muito tempo l em casa. Deu-me presentes e levou-me ao 
jardim zoolgico no dia dos anos. Acho que Peter e a minha me se amavam muito, apesar de ele 
parecer bastante mais velho do que ela. Morreu quando eu tinha dez ou onze anos e foi o nico enterro 
a que assisti. O Spear mandou cremar a minha me, sem qualquer cerimnia, na vspera de eu chegar. 
Quando isto acabar, quero fazer qualquer coisa, uma festa com flores e msica, com todos os amigos e 
uma sala cheia dos quadros dela. Seria lindo, no achas?

- Acho! - concordou Luke. - Pensas que o tal Peter lhe deu a chave?

- Tenho quase a certeza. Mais ou menos um ano depois de ele morrer, a me mandou-me para um 
colgio interno. Creio que foi nessa altura que recebeu a chave, em 1963, Nunca falmos disso, a no ser 
uma vez, quando eu estava em casa de frias. Ela deu um jantar para mim e depois de todos terem 
sado, ficmos horas a conversar. Acho que tinha bebido um bocadinho de mais, porque arrastava as 
palavras e estava sempre a desfazer-se em lgrimas. Contou-me que se sentia s desde a morte do Peter 
e que este gostava muito de mim. Depois, disse que ele escondera uma coisa para ns, algo que valia 
muito e que, desde que no lhe tocasse, nunca lhe faltaria dinheiro ou segurana.

Luke estava inclinado para a frente, espantado por ouvir aquilo.

- Fazes alguma ideia do que se trata? - perguntou. -No, e acho que a minha me tambm o ignorava. 
Uma vez por ms, aparecia l em casa, ou no carro dela, um sobrescrito com dinheiro, e julgo que ela 
nunca soube donde vinha. Mas era impossvel mandar-me para aquele colgio e depois pagar-me a 
faculdade com o que ganhava com os quadros.

- Chantagem - murmurou Luke.

8

- O qu?

- O que  que podia valer tanto dinheiro para algum s por ningum lhe tocar? Tens a certeza de que 
ela no sabia do que se tratava ou de quem vinha o dinheiro?         ,

Se sabia, nunca mo revelou e, depois daquela noite em que conversmos, acho que nem eu queria saber.

-Mas com certeza que te disse donde era a chave, onde estava escondido o que quer que fosse.

- Acredites ou no, at aqueles homens sinistros me terem atado e comeado a bater-me, nem sequer 
tinha a certeza de a chave estar relacionada com o dinheiro que ela recebia. A unica coisa que me disse 
que podia... espera um segundo...

-Que , querida, de que te ests a lembrar?

Karen olhava para longe, com os maxilares apertados, os olhos semicerrados, espreitando na escurido 
para uma cena e um tempo h muito passados. Com a cabea inclinada para o lado, falou lentamente, 
tirando cada palavra da memria com grande esforo.

Sim, lembro-me, foi nessa noite, na noite da festa. Ela chorou, depois riu-se e disse sentir-se muito 
orgulhosa de eu ter ido para a faculdade; como eu era engraada quando me escondia no meu stio de 
pensar, ficando l sentada horas, a olhar pela janela.

Luke observava-a, fascinado.

- Depois, disse que o meu stio de pensar era um local muito especial, que sempre ali estaria e, se eu 
alguma vez tivesse um problema, podia ir l, ficar sozinha e procurar respostas para as minhas 
dvidas.

-  Stio de pensar? - perguntou Luke.

- Era o que eu costumava chamar  janela da casa da senhora que tomava conta de mim, perto da qual 
me sentava quando tinha alguma coisa que me preocupava ou aborrecia. Era no sto, uma janela 
redonda com tiras de madeira que a faziam parecer uma tarte de vidro.

-Isso era em Bston?

- Claro, a uns dois quarteires da nossa antiga casa. Eu costumava ir para l depois da escola, quando a 
me estava a trabalhar, e s vezes dormia l, se a me e o Peter saam  noite. Depois j no ia tanto, 
logo que fui para o colgio interno, e nunca mais l voltei desde que nos mudmos para Cape Cod

-Quando foi isso?

- H mais de dez anos. Achas que a chave  dessa casa, Luke?

- Tudo  possvel - comentou ele. - Mas como podia a tua me saber que o stio de pensar estaria 
sempre l? Diz-me tudo o que te lembras da casa e dessa senhora.

- Ai, era uma casa antiga linda, perto da nossa. Ns morvamos em Mattapan. A senhora chamava-se 
Theona e era uma preta muito gorda, a melhor e mais maravilhosa pessoa do mundo. Sabes onde  
Mattapan?

- Sei, perto de Dorchester, acho eu. Mas, segundo me lembro,  uma zona bastante difcil.

-Estava a mudar j nessa altura - explicou Karen. Acho que foi por isso que a minha me decidiu 
mudar-se para Cape Cod. Seja como for, queria estar mais perto do mar, pois adorava pintar 
paisagens de praias e gua.

- Espera a um segundo - pediu Luke, excitado. - Vamos l a ver se percebo. A tua me disse-te que a 
casa dessa Theona estaria sempre  tua disposio? Que idade tem ela? Sabes se ainda  viva?

-, pois. Eu saberia, se ela tivesse morrido. Recebemos

um carto de boas-festas todos os anos. A me costumava tentar que Theona viesse visitar-nos, mas 
acho que ela estava demasiado doente para fazer a viagem.  muito mais velha do que a me, at acho 
que os filhos j eram todos crescidos e tinham sado de casa quando comeou a tomar conta de mim. -
Mas porqu essa casa? A Theona era dona dela?

-No fao ideia.

-Bom, e achas que eras capaz de dar com ela agora?
- Provavelmente. Tinha uma linda janela redonda com um vitral por cima da porta. A janela do meu 
stio de pensar era nas traseiras. Aposto que, se fssemos at  minha antiga casa, eu depois 
conseguia encontrar a dela.

- Ento, temos de ir at l. Mas primeiro precisamos de ir buscar a chave.

-No a tens contigo?

- No, mandei-a pelo correio, endereada a mim prprio, para o Motel Metropolitano e... merda, o pior 
 se eles julgam que eu me vim embora porque no dormi l esta noite. Temos de encontrar um 
telefone.

Existia uma cabina a um quarteiro dali e, para seu alvio,
8

Luke verificou que o quarto continuava seu. Depois, tentando soar o mais profissional possvel, 
perguntou se havia correspondncia para Francis Sullivan.

- H, sim, senhor Sullivan, est aqui uma carta para si.
- Muito obrigado. Volto esta noite ainda para Bston com a minha mulher.

-Nesse caso, temos de fazer novo registo, para quarto duplo.

-Com certeza. Um de ns vai a ainda hoje, para tratar disso e ir buscar o correio.

- Obrigado por nos avisar.

A seguir, ligou para a irm que, como ele esperava, se mostrou desvairada.

- Oh, Luke, por onde andas? Ests bem? - perguntou ela, com a voz a tremer.

- Sim, Liz. Sabes perfeitamente que no fiz mal quela rapariga.

- Claro que sim, mas j c vieram duas vezes  tua procura e acho que esto a vigiar a casa. A me 
ligou, porque a histria j vem nos jornais de Washington, e disse que o pai ficou muito incomodado.

-Por minha causa ou por estragar a sua imagem? -Por favor, Luke...

Nesse momento, ouviu-se um leve mas inconfundvel estalido na linha.

-Bolas, Liz, puseram-te uma escuta no telefone. Tu ... ?
- Pra com isso, Luke! Sabes muito bem que eu nunca faria uma coisa dessas!

- Desculpa, Liz, palavra - emendou ele. - Ouve, no te deixes ir abaixo. Duma maneira ou doutra, isto 
h-de acabar por esclarecer-se. Liga para a me e diz-lhe que estou bem. Gosto muito de ti, Liz. Adeus.

Minutos depois estavam de volta ao quarto, a examinar o contedo da carteira de Jim Spear, espalhado 
em cima da cama. As nicas coisas de interesse, para alm de cento e cinquenta dlares em 
dinheiro,eram uma carta de conduo e dois cartes de crdito. Havia ainda um carto-de-visita, que 
identificava Spear como consultor de investimentos. Luke ia deit-lo fora quando reparou que havia 
qualquer coisa escrita nas costas: Stonehili, 549-2477. Meteu o carto e as outras coisas teis na sua 
prpria carteira.

9

- Bom, agora temos de pensar numa maneira de andar por Bston sem sermos identificados. Tens 
alguma ideia? - perguntou.

- Pintar o cabelo e pr um bigode? - sugeriu ela.

- E talvez uma pala e uma perna de pau - gracejou Luke, mas com pouco entusiasmo. De repente, ficou 
mais animado e soltou uma gargalhada. - J sei!  perfeito.

- Ento diga l, senhor ilusionista.

- muito simples e deve resultar. Em vez de tentarmos disfarar-nos, vamos mas  dar o mais possvel 
nas vistas, s que duma maneira que as pessoas evitem olhar para ns.

- Achas que a pancada na cabea pode estar a afectar-te o crebro? - perguntou ela.

- Atreves-te a duvidar do homem que concebeu e dirigiu o grande ataque de comandos a Redfern? 
Devias ter vergonha! Alm disso, temos de fazer qualquer coisa e eu no me sinto seguro com a ideia da 
tinta para o cabelo e um bigode postio a separar-me da priso. Ou de pior ainda.

- Muito bem, meu general. Qual  o plano?

Uma hora e meia depois, dirigiam-se lentamente pela Rua BoyIston, em direco ao jardim municipal 
de Bston. Karen, com uma recm-comprada gabardina com cinto e um chapu verde de abas moles, 
empurrava Luke numa cadeira de rodas. Este tinha um barrete na cabea e estava embrulhado at ao 
peito numa manta castanha que ocultava tambm as palavras Hospital Municipal, nas costas da 
cadeira.

Ningum no hospital protestara quando ela empurrou a cadeira com ele para fora da agitada Urgncia, 
principalmente devido  sua excelente imitao duma pessoa com paralisia cerebral, com espasmos 
incontrolveis na cara e nos braos.

A ideia surgira no crebro de Luke em virtude da grande amizade entre ele e um colega, Stan Willinan, 
que sofria de grave paralisia cerebral. De facto, muitos doentes sentiam-se pouco  vontade perante um 
interno com aqueles sintomas, ao ponto de serem incapazes de reconhecer que era provavelmente o 
mdico mais brilhante que alguma vez passara por um hospital civil.

Aposto um jantar no Lochobers em como sou capaz de andar por a com uma cascavel viva ao ombro 
e ningum repara, por estarem todos a tentar no me encarar, tinha ele dito uma vez a Luke.

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Assim, aps uma infrutfera tentativa num consultrio particullar, Willman dedicara-se ao ensino e  
investigao. E Luke

lia muitos documentos importantes provenientes do seu laboratro.

Como suspeitara, conseguiram andar facilmente pelas ruas de Bston, a ver montras - at jantaram 
numa esplanada - e os vrios polcias por quem passaram no pareceram reparar neles. Dirigiram-se 
ento para o Motel Metropolitano. Quando entrou, Karen tirou a gabardina, revelando uma blusa 
branca arrendada e transparente. O recepcionista, de meia-idade, ficou to imerso nas suas fantasias, 
s de v-la, que tropeou nos prprios ps ao entregar-lhe a carta dirigida ao marido.

Minutos depois, chamaram um txi e, com a cadeira de rodas no porta-bagagem, disseram ao motorista 
que os levasse a Mattapan.

Condecorao por bravura,

com a Estrela de Prata de Primeira Classe, Capit~~o Lewis Tyler Corey Exrcito dos Estados Unidos 
Washington, Distrito de Colmbia
8 de Dezembro de 1970

Depois de seis meses de servio na Repblica do Vietname, o capito Corey ofereceu-se como voluntrio 
para o Grupo de Reaco Mdica da Terceira Zona, em Bien Hoa. Antes dessa transferncia, servia, longe 
da linha da frente, como oficial mdico do grupo de Milpliapp, no orfanato de 7av Ninh. Ao fim da tarde 
do dia 21 de Setembro de 1969, o capito Corey encontrava-se em patrulha voluntria com um peloto da 
Primeira Companhia do Terceiro Regimento de Cavalaria dos Estados Unidos. De repente, o peloto foi 
atingido por um pesado bombardeamento com morteiros, e trs homensficaram imediatamente feridos, 
caindo em campo aberto. Ofogo inimigo era to intenso que parecia impossvel algum ir em seu socorro. 
Perante isso, e sob o ataque cada vez mais cerrado com morteiros, o capito Corey correu at junto dos 
feridos e transportou primeiro um e depois outro para a relativa segurana da selva. Apesar deferido numa 
perna durante o segundo salvamento, voltou, a coxear.
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para o campo aberto, a fim de retirar o terceiro ferido. A poucos metros da segurana, uma granada de 
morteiro explodiu perto, ferindo-o gravemente nas pernas e matando o homem que transportava. Os 
primeiros dois feridos foram evacuados, assim como o capito Corey, tendo todos sobrevivido. Com a sua 
corajosa aco e total desprezo pela prpria vida, o capito Corey,foi directamente responsvel pelo 
salvamento de dois dos seus camaradas. Por esse acto de herosmo, -lhe concedida pelo Congresso e pelo 
Exrcito dos Estados Unidos a Estrela de Prata de Primeira Classe

111 PARTE

A quarenta quilmetros dali, num canto remoto de Lincoln, Massachusetts, um Cadillac Eldorado seguia 
por um caminho de terra batida que atravessava uma zona densamente arborizada. Seguindo 
cuidadosas leis de povoamento e grotescos valores imobilirios, Lincoln continua a ser um dos mais 
exclusivos e menos acessveis dormitrios suburbanos.  realmente impossvel comprar uma 
propriedade grande em Lincoln, diziam muitas vezes os agentes aos clientes. Tem de se nascer l.

O Cadillac seguiu por esse caminho durante mais de quatrocentos metros at encontrar um pesado 
porto metlico entre dois pilares de pedra de mais de dois metros de altura e quase metro e meio de 
largura. Os faris iluminaram uma pequena tabuleta preta com letras douradas, cravada num dos 
pilares, anunciando Stonehill. O condutor no fez qualquer esforo por dar a conhecer a sua 
presena nem saiu do carro. Contudo, num instante, os dez mil vltios que passavam pelo porto e pela 
quase invisvel vedao de arame para l dos pilares foram desligados. Dois homens de armas numa 
mo e poderosas lanternas portteis na outra aproximaram-se, fazendo incidir os focos primeiro no 
condutor e depois no banco de trs do carro. Ritualisticamente, o homem abriu a janela e entregou as 
chaves a um dos guardas. Este abriu e inspeccionou o porta-bagagem, devolvendo-as depois e fazendo 
sinal para o carro passar.

A uns quinhentos metros para l do porto, o arvoredo dava subitamente lugar a um vasto relvado 
perfeitamente tratado, rodeado por um caminho circular semelhante a uma pista para cavalos. No meio 
do relvado, uma intricadamente esculpida fonte de mrmore tinha em volta vrias filas de arbustos 
imaculados. Ao cimo do caminho ficava a elegante manso Stonehill, de ti-

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jolos brancos, ao estilo de muitas das propriedades de Long Island, com uma larga varanda, numerosas 
chamins, telhados pontiagudos e mltiplas pequenas e intrigantes torres. Praticamente todas as luzes 
da enorme residncia pareciam estar acesas, mas, alm do Cadillac, no havia qualquer outro veculo  
vista.

O condutor saiu do carro e subiu os doze degraus de mrmore at  porta principal com a graa 
poderosa dum atleta, Vestia um fato escuro, bem cortado, que lhe acentuava o metro e noventa, os 
largos ombros e a cintura estreita. A cara, barbeada e sem rugas sob o cabelo louro ondulado, dava-lhe 
o aspecto de um astro do cinema, o que em tempos sonhara ser. Parou mesmo antes de chegar  macia 
porta de carvalho, retirou um invulgar revlver de cano comprido que levava preso no cinto e, com ele 
pendurado num dedo, estendeu as mos, com as palmas voltadas para cima. A porta abriu-se 
silenciosamente e ele entrou no espaoso trio bem iluminado. Dois homens atravessaram o cho preto 
e branco e tomaram conta da arma e do casaco, conduzindo o visitante at ao imenso escritrio de 
paredes forradas a nogueira do Sr. Albert Julian.

O homem encaminhou-se directamente para o bar e serviu-se de conhaque, sabendo que o dono da casa 
o deixaria  espera precisamente cinco minutos at  sua apario, Acomodou-se num cadeiro e foi 
beberricando o conhaque, percorrendo com os olhos azuis a opulncia que o rodeava.

Chamava-se Damian Steele e dispunha, havia alguns anos, da sua prpria opulncia, embora no da 
magnitude da de Albert Julian, mas que lhe permitia ser dono de casas em Aspen e na Riviera 
espanhola. Aos trinta e nove anos, Damian Steele l

atingira o apogeu da sua profisso. Os seus preos eram tais que no precisava de aceitar mais de trs 
trabalhos por ano. Em quase quinze anos como assassino, nunca tinha falhado uma misso. Apesar 
desse facto, a Polcia do mundo inteiro no
possua sequer uma fotografia, uma impresso digital ou uma descrio consistente dele.

A sua poltica era sempre arranjar trabalho por intermdio dum agente em Nova Iorque, e s o pedido 
dum homem na posio de Julian podia t-lo feito tratar do assunto pessoalmente. O seu preo para 
qualquer servio era de cem mil dlares, alm das despesas, e, mesmo assim, recusava mais do que 
aceitava.

- Bem-vindo a Stonehill, Damian - disse Albert Julian, fazendo a sua entrada.

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Steele levantou-se e abraou calorosamente o homem que lhe dera vrios dos seus primeiros trabalhos e 
que, de tempos a tempos, ainda contribua para o aumento da sua conta na Sua.

- Tenho muito prazer em v-lo, Dom Alberto. Est com ptimo aspecto.

-Ento, Damian, tens de te lembrar que os tempos do Dom Alberto j l vo! - replicou Julian.

Vestia um roupo de seda vermelha e movia-se com uma agilidade que desmentia os seus setenta anos. 
O abundante cabelo grisalho e o nariz aquilino davam-lhe um aspecto que ficaria bem numa 
embaixada ou na sala de reunies duma grande empresa.

-Agradeo teres vindo to depressa - acrescentou ele.
- Eu  que agradeo, senhor Julian. Se no fosse o senhor, era capaz de andar por a atrs de papis 
secundrios em algum estdio de Hollywood. A propsito, esta manh soube do que aconteceu em 
relao quele assuntozinho de Cape Cod. Um acidente infeliz, acho eu.

- A culpa foi minha, por ter confiado no aselha do Spear. Damian, gostava muito que o meu filho Carl 
tomasse parte na nossa conversa. Estou a ficar cansado das responsabilidades duma organizao to 
grande, e espero que ele possa substituir-me dentro de pouco tempo.

-Como quiser, Dom Alb... senhor Julian. Por mim, tudo bem.

Julian saiu um momento do escritrio e voltou com o filho, que,  excepo do cabelo preto, era uma 
cpia mais nova do pai. Depois das apresentaes, Julian serviu bebidas para os trs, antes de se 
instalar num cadeiro diante de Steele, enquanto o filho se sentava respeitosamente num pequeno sof 
de dois lugares a alguma distncia do pai,

- Quero que saibas que estou muito satisfeito com a maneira como trataste daquele assunto da rapariga 
em Bston, Carl - comeou Julian, ao que o filho reagiu desviando o olhar modestamente. - No te 
esqueas de recompensar devidamente os homens que Fizeram o trabalho. Tens de aprender a ser to 
generoso com os que te servem bem, como firme com os que te deixam ficar mal. O Damian teve a 
amabilidade de nos ajudar a exprimir o nosso desagrado perante o trabalho do senhor Spear. Acho que 
o chefe da Polcia  suficientemente valioso para ns, por isso teremos de o desculpar por esta vez.

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O filho acenou com a cabea, mas manteve-se silencioso.
- So tempos difceis, Damian, mas muito menos do que

eram. H anos que tentamos estabelecer uma situao que nos permita assegurar economicamente o 
futuro dos nossos filhos e dos nossos netos e, tendo isso em vista, a competio nos nossos variados 
negcios j foi praticamente eliminada. As famlias em Chicago, Miami, Las Vegas e na Costa esto 
satisfeitas e em paz umas com as outras, pela primeira vez. Mas agora, na vspera do nosso maior 
empreendimento, aparecem complicaes! Como os problemas surgiram no nosso territrio, as outras 
famlias esto  espera de ver como os resolvemos. J recebi telefonemas de Chicago e de Los Angeles a 
mostrar preocupao com o atraso na soluo da potencial ameaa ao nosso programa.

Steele ouvia-o atentamente, com o rosto bronzeado transformado numa mscara sem expresso. Tinha 
s um vago conhecimento da organizao mencionada pelo seu anfitrio, mas estava a par do boato de 
que uma nica fonte de poder tinha conseguido, nos ltimos anos, unificar o sindicato do crime a nivel 
nacional duma maneira que sempre se julgara impossvel.

-Acho que o melhor  pr-te a par de alguns dos antecedentes da situao, a qual te peo que resolvas.

- Sabe que eu fico totalmente satisfeito por saber s o que o senhor quiser - observou Steele. - J me 
comprometi a fazer tudo o que puder para o ajudar.

- Eu sei, Damian, eu sei - assegurou Julian -, mas espero que o que te vou contar frise bem a 
necessidade duma eficincia discreta da tua parte. Alm disso, o meu filho sabe pouco do que vou 
contar, e  um projecto que eu quero que ele supervisione pessoalmente.

O Julian mais velho acabava de dar uma ordem ao filho sem um aceno sequer na sua direco. Este 
inclinou-se ligeiramente para a frente e comeou a fazer girar nervosamente o grande anel de oiro e 
diamantes do dedo mnimo da mo esquerda. Era o nico filho do segundo casamento do pai, por isso 
gozara de benefcios e de uma ateno muitas vezes recusados s duas irms mais velhas. Depois dum 
percurso liceal onde se distinguira mais no campo atltico do que no acadmico, fora matriculado em 
Yale. A sua experincia universitria durara trs meses e originara uma leso num joelho at ao 
regresso a casa, para comear a trabalhar num dos muitos neg-
1           9

cios do pai. Contudo, durante mais de dez anos, evidenciara muito mais interesse por mulheres e belos 
carros do que por qualquer outra coisa.

Aps vrios anos de tbios esforos, uma noite apanhou uma valente tareia s mos duma organizao 
rival, que o obrigou a prolongada hospitalizao. A partir da comeou a prestar muito mais ateno 
aos conselhos do pai e  complexidade de controlar uma grande e variada rede de actividades ilcitas. 
Contudo, nunca chegaria a saber que a organizao rival fora realmente um grupo de homens do 
prprio pai, encarregados de lhe reajustar as prioridades.

Naquele momento, tremia literalmente de excitao ao ouvir o pai conferir-lhe to importante 
responsabilidade, ainda mais significativa pela oportunidade de trabalhar com o lendrio Damian 
Steele. Tenho de ligar quela tipa dos estilistas e dizer-lhe que amanh  noite fica sem efeito, pensou 
para consigo.

Albert Julian recostou-se na cadeira, cruzou as mos e olhou alternadamente para Steele e para o fogo 
que crepitava na lareira.

-No fim dos anos cinquenta e princpio dos sessenta, vrias famlias competiam pelo controlo das 
principais operaes monetrias no Nordeste. Durante algum tempo, as coisas ficaram mesmo feias e 
muitos homens, e bons, foram mortos nessas guerras. Cada uma das famlias tinha o seu grupo de 
polticos, polcias, juizes e jornalistas, sendo evidente, pelo menos para mim, que a organizao que 
controlasse os mais influentes e poderosos acabava por vencer.

0 meu ajudante e amigo ntimo nesse tempo chamava-se Ferlazzo, Peter Ferlazzo. Era duro, leal e, 
durante anos, foi o meu homem de maior confiana, mas depois teve um caso com a secretria, bastante 
mais nova, e comeou tudo a estragar-se. Ela era realmente uma brasa, com uns belos cabelos negros, 
cara e corpo dum anjo. Tinha uma filha, provavelmente era me solteira, mas o Peter no parecia 
importar-se. Seja como for, como trabalhava com ele, sabia o suficiente sobre o que ns fazamos para 
querer que Peter se afastasse antes de lhe acontecer alguma coisa. Acho que o chateava dia e noite para 
abandonar a famlia. Se calhar, at o fazia jejuar! Seja o que for que tenha feito, ele acabou por ceder  
presso e tentou afastar-se. Um dia, escreveu-me a dizer que deixava a organizao e que,

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para garantir a sua segurana e a da rapariga, levava consigo a coisa que menos podamos perder nessa 
altura, ou seja, o registo de todos os tipos que tnhamos no bolso - congressistas, juizes, a tropa toda. 
Com a carta vinha um embrulho com cpias de todos os documentos comprometedores para a 
organizao. Contudo, s queria que os deixssemos em paz, garantindo que ningum veria aqueles 
nomes e contas, desde que no os importunssemos, mas que a imprensa e outras entidades receberiam 
todos esses documentos, se no fizssemos o que ele pedia. Sei que lhe foi difcil agir daquele modo, s 
que, como sempre, tive de admirar a sua inteligncia e eficcia. Tal como prometeu, os registos nunca 
viram a luz do dia, at que, anos mais tarde, soube que Peter contrara um cancro, e nessa altura veio 
visitar-me. Entretanto, a maior parte da nossa concorrncia j fora eliminada ou absorvida, como 
agora, embora houvesse ainda uns independentes a morderem-nos os calcanhares. Demos um longo 
passeio, falmos dos velhos tempos e ele disse-me como sempre gostara de mim, que me respeitava e 
quanto fora difcil afastar-se. Como estava a morrer de cancro, perdoei-lhe e at lhe prometi fazer o 
que pudesse por ele. Ento disse-me que a tal mulher, essa Evelyn, sabia onde estavam os nossos 
registos, mas, se eu prometesse cuidar dela, garantia-me que os livros nunca seriam vistos por ningum. 
Tentei um acordo melhor, mas o teimoso no cedeu, por isso, quando morreu, comecei a mandar 
dinheiro  mulher todos os meses, e ela manteve a promessa do Peter.

Nessa altura, levantou-se, espreguiou-se e dirigiu-se lentamente ao bar. Steele continuou 
pacientemente sentado, a passar um dedo pela borda do copo, mas Carl foi incapaz de conter a 
excitao por ser includo pelo pai na revelao de informaes to importantes.

-Mas, pai, tudo isso aconteceu h anos! No percebo como...

- Senta-te, Carl! - explodiu Julian. - Senta-te e fica quieto.

Continuou a servir cuidadosamente trs bebidas, deixando acalmar a atmosfera tensa que a sua 
histria criara na sala, e, como se pretendesse contrariar a exploso do filho, demorou-se a reanimar o 
fogo na lareira e a distribuir as bebidas uma a uma, antes de voltar a instalar-se para continuar o 
relato.

-Durante anos, tratei de fortalecer a organizao, ajudan-10

do a obter a unificao e a paz que temos agora com as outras famlias por todo o pas. Como a tal 
Evelyn Samuels no me causava problemas, pareceu-me melhor mandar-lhe simplesmente dinheiro 
todos os meses e esquecer o assunto, mas parte do acordo de paz que ajudei a estabelecer era as famlias 
contriburem com os seus recursos e influncia, incluindo polticos, polcias e tudo. Assim, embora 
muitos dos homens que constam dos registos j tenham morrido ou perdido utilidade para a 
organizao, alguns ainda esto por a e mantm posies de algum poder, por isso, h trs ou quatro 
anos, duas famlias, sobretudo Moretti e a gente dele de Chicago, comearam a insistir que eu devia 
fazer qualquer coisa para recuperar os registos. Ento, mandei o Jimmy Spear a Cape Cod, onde a 
mulher vivia. Ele era bem-falante, um tipo vistoso, e facilmente se aproximou. Na realidade, at dizia 
que ela concordara em casar com ele da a uns meses, e tinha a certeza de que, depois de casados, 
conseguiria descobrir o esconderijo dos registos. At  semana passada, no conseguira sacar-lhe uma 
palavra, mas as outras famlias e eu estvamos satisfeitos com a ideia do casamento. Contudo, h dias, a 
tal Evelyn sofreu uma trombose, ou coisa do gnero, e morreu. Desde essa altura s tenho tido dores de 
cabea, a maior parte provocadas pela inpcia do Jimmy Spear. Descobriu que, pouco antes de morrer, 
ela dera uma chave ao mdico que a atendeu, fazendo-o prometer que s a entregava  filha. O Spear 
estava convencido, e eu concordei com ele, de que a chave se relacionava com os registos escondidos e 
tambm de que a filha sabia do caso. Que acham que o idiota fez? Decidiu ir atrs do mdico e sacar-
lhe a chave antes de este poder entreg-la  rapariga, mas no previu que o tipo era uma espcie de 
heri da guerra e nada tinha de trouxa, pelo que o resultado foi perder o mdico, a rapariga e a chave. 
 aqui que vocs entram, Damian e tu, Carl. Quero apanh-los depressa e quero-os mortos, mas no 
antes de descobrirem onde esto os registos e de mos trazerem.

Julian levantou-se, dirigiu-se lentamente  enorme secretria de bano e mogno, abriu a gaveta de cima 
e tirou de l uma grande pasta. Voltou a sentar-se e entregou-a a Steele, que, mais uma vez, deu 
mostras da sua pacincia e maturidade, ficando a segur-la, por abrir,  espera de novas instrues.

- Ficam com toda a organizao ao vosso dispor - cominou Julian. - O Carl sabe quem so os homens e 
as suas espe-
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cialidades. Arranjmos maneira de o tal doutor lewis Corey ser procurado pelos chuis por matar uma 
rapariga num quarto de hotel, e j consta entre os nossos amigos polcias que h dez mil dlares para o 
que conseguir deixar-nos chegar a ele primeiro. Tenho gente a vigiar a antiga casa do Peter, em 
Belmont, aquela onde a tal Evelyn vivia, em Bston, e at a da irm do mdico, em Lexington. A casa 
de Bston ardeu completamente, provavelmente s mos do mdico, de maneira que no h motivo 
para pensar que ele volte l. O facto de saber que  procurado pela Polcia deve faz-lo andar mais 
devagar, mas com os agentes e os nossos homens atrs dele, alm da fotografia estampada em todos os 
jornais e na televiso, espero poder ca-lo antes que deite as unhas aos registos, ou, pelo menos, antes 
que descubra o que h-de fazer com eles. Dentro dessa pasta, esto umas fotografias e todas as 
informaes que consegui sobre o mdico e, como ainda no sabemos grande coisa sobre a rapariga, 
pus o Lopresti e o irmo a tratarem disso. Temos todos os motivos para julgar que permaneam juntos 
e algures perto de Bston. A Polcia possui a descrio do carro dele; est uma cpia disso a na pasta. 
Quando os apanhares, so teus, Damian, e no me interessa o que vais fazer com os corpos. S quero os 
registos e saber que ambos deixaram de existir. Est claro?

-  Comeamos esta noite, senhor Julian - afirmou Steele. O Carl pode ir comigo para a cidade e ficar no 
meu hotel. Ests de acordo, Carl?

Claro que estou, Damian.  uma honra trabalhar contigo. Steele acenou com a cabea, aprovando o 
que considerava uma prova de respeito, e chegou mesmo a esboar um leve sorriso, dirigindo-se ao 
Julian mais velho:

- No parece que tenham grande coisa a seu favor, neste momento. Comparado com alguns dos 
trabalhos em que colabormos, este parece ser bastante fcil.

- No subestimes o mdico, Damian. O Spear era um idiota, mas no era mole, e o tal Corey deu-lhe um 
n cego, a ele e a dois capangas.

- Eu nunca subestimo as pessoas, senhor Julian - garantiu Steele. - Tem sido essa a chave do meu xito e 
da minha sobrevivncia estes anos todos. Estou muito grato por poder servi-lo, Dom Alberto.

Julian aceitou a utilizao do seu antigo ttulo naquele con-
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texto, e deu um grande abrao primeiro a Steele e depois ao filho.

- Antes de se irem embora, vamos jantar - convidou. Penso que o Burton deve ter tudo pronto na sala 
de jantar. Escolhi os teus vinhos preferidos, Damian!

A noite estava excepcionalmente escura, com pesadas nuvens e uma nvoa rasteira, enquanto o txi 
percorria a Avenida da Colina Azul em direco a Mattapan, que, metida entre Hyde Park e a zona de 
Dorchester, era o centro da comunidade judaica de Bston. Manses de uma e duas famlias, 
cuidadosamente conservadas, sucediam-se ao longo de ruas a subir e a descer, muitas protegidas da rua 
por altos muros de sebes bem cortadas. Para alm duma grande populao judaica, a zona continha 
ncleos doutros grupos tnicos, incluindo polacos, alemes, irlandeses catlicos e um nmero menor de 
italianos.

Os anos 60, contudo, haviam provocado uma rpida transio na zona, com muitas das famlias mais 
antigas a mudarem-se para os mais espaosos subrbios de Newton, Milton e outros. No fim dessa 
dcada, uma significativa populao negra instalara-se em Mattapan, ocupando trs ou quatro 
famlias, muitas vezes, apartamentos em casas que anteriormente eram habitadas por uma s. A 
violncia de rua aumentou e o aspecto fsico de muitos bairros foi-se deteriorando. Gradualmente, no 
entanto, organizaes de moradores, em especial da comunidade negra, foram criando raizes, e as 
estreitas ruas pareciam retomar grande parte do seu anterior carcter e encanto.

Karen ficou surpreendida ao verificar que aquela zona lhe era apenas vagamente familiar. Durante 
quase uma hora, foi indicando ao espantado motorista de txi uma rua aps outra.

- incrvel como tudo isto me parece estranho! - coMentou. - Talvez fosse melhor desistirmos e 
tentarmos outra vez  luz do dia.

- S mais um quarto de hora - segredou-lhe Luke, reparando na quantia marcada no taxmetro. - 
Quanto mais dePressa chegarmos ao fundo da questo, mais hipteses h de sairmos inteiros. - Tinha o 
chapu enterrado na cabea e, Sempre que se lembrava, fazia uma careta ou agitava um brao

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num espasmo, para evitar que o motorista olhasse para ele durante muito tempo.

Passaram outros dez minutos. Luke comeava a perder a f nas recordaes de Karen, quando ela de 
repente se inclinou para a frente, espreitando atentamente pela janela, e gritou para o motorista:

-Ali  direita, aquele parquezito! Leve-nos at ali, se faz favor.

O parque era na realidade um jardim infantil, com escorregas, caixa de areia e baloios em postes de 
metal. Karen apeou-se e dirigiu-se  caixa de areia, olhando primeiro para um e depois para o outro 
lado da rua. Voltou rapidamente para o txi e disse, ofegante:

- A casa onde eu morava fica ali para cima, voltando para a direita. Acho que a rua se chama Alter ou 
Almon.

Na realidade, a rua era a Avenida Alton. Assim que l chegaram, Karen teve pouca dificuldade em 
identificar a sua antiga habitao. Os candeeiros eram um tanto antiquados e,  fraca luz, a casa 
estreita de dois andares parecia cinzenta, embora fosse provavelmente branca. Ao aproximarem-se, 
Karen preparava-se para dar instrues ao motorista, mas Luke agarrou-lhe um brao com fora e 
disse:

-Acelere, se faz favor, e volte ali  frente!

O homem, cada vez mais confuso, fez o que lhe mandavam, enquanto Luke segredava a Karen:

-Viste o carro ao p da tua casa? -Acho que sim. Porqu?

-Porque estavam dois homens l dentro. Vi-os perfeitamente, o que estava ao volante usava chapu e o 
outro entretinha-se a fumar. No me parece que reparassem no txi, mas, em todo o caso,  melhor 
tomarmos cuidado.

-Tens a certeza, Luke?

Tanto quanto possvel. Achas que consegues descobrir a casa da senhora que tomava conta de ti? 
Algum deve saber que estamos juntos. No percebo como aquele chefe da Polcia de Strathmore teve a 
lata de dizer  Polcia de Bston o que aconteceu ontem  noite, de maneira que talvez nem sejam 
polcias. So capazes de trabalhar para o Spear.

Ela ficou calada um momento, a digerir o que ele havia dito, e depois dirigiu-se ao motorista.

- Siga para a direita, se faz favor, mas devagar. - Depois,
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para Luke: - Temos de encontrar uma casa escura, pelo menos era assim naquele tempo, ou talvez 
encarnada, com uma janela _redonda com um vitral por cima da porta, ou ao lado, no tenho bem a 
certeza.

Durante os vinte minutos seguintes, encontraram cinco casas com esses requisitos. Karen avistou a 
primeira quase imediatamente e correu rapidamente para a porta. Ao toque da campainha, surgiu um 
enorme negro, com uma camisola encarnada que parecia prestes a rasgar-se ao meio devido  tenso de 
lhe tapar o peito. Muito maior do que ela, quase enchia o vo da porta, com uma lata de cerveja numa 
mo e um enorme charuto na outra. Do banco de trs do txi, Lukc ouviu a sua voz profunda.

- Ento que temos ns aqui? Procura quem? Theona? Isso  nome de negra. Anda  procura duma 
negra? No h aqui ningum com esse nome. Se calhar, tem de se contentar comigo, deve haver alguma 
coisa que eu possa fazer por si. Pronto, pronto, desculpe l! Estava s a brincar. No fique chateada. 
Gostava de ajudar, se pudesse, mas no conheo essa Theona. De nada. Olhe, desculpe, se a chateei!

Karen virou as costas ao gigante e voltou para o carro. -Tinha tanto a certeza de que era ali... - 
lamentou-se ela, abanando a cabea e sentando-se ao lado de Luke. - Mas o homem disse que no a 
conhecia.

- Eu ouvi o que ele disse. Reparaste no tamanho do animal?

- Reparei. Porqu?

- Onde arranjaste coragem para falar assim com ele? Se desse um espirro, atirava-te para o outro lado 
da rua!

- Ah, estavas preocupado comigo, Luke! Que querido! ironizou ela, sem sinal de um sorriso. - Mas ests 
a esquecer que eu trabalho como assistente social em Nova Iorque. No nosso gabinete, puseram na 
parede um quadro bordado que diz Tem coragem porque s se morre uma vez. Alm disso, daqui 
no vias, mas a me dele estava l dentro sentada numa cadeira de baloio - acrescentou, muito sria.

Durante um momento, abraaram-se, mas o motorista, que olhava nervosamente pelo retrovisor, 
interrompeu-os:

- Vocs dois a atrs! Acho que devamos sair daqui protestou o homem. - No  seguro para um txi 
estar parado tanto tempo num stio como este. A propsito, tm a certeza de que podem pagar a 
corrida?

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Inclinaram-se para a frente, olharam para o taxmetro, que mostrava mais de quarenta dlares, e deram 
umas risadinhas. Por fim, Luke alvitrou:

Talvez seja melhor ficar por aqui esta noite e ver o que te parece  luz do dia.

S mais um bocadinho, Luke, por favor - pediu Karen. Eu sei que  por aqui algures, tenho a certeza.

-Est bem, damos mais uma volta durante um quarto de hora, mas desta vez tomamos s nota das 
moradas, para poder voltar amanh. Achas bem?

- Combinado - concordou ela. - Siga por aquela rua ali  esquerda, se faz favor.

As quatro casas que Karen indicou como possveis ficavam a dois quarteires de distncia umas das 
outras. Todas tinham telhados muito inclinados, pequenos prticos e proeminentes janelas redondas ou 
ovais com vitrais. Na viagem de regresso a Bston, luke sugeriu que talvez valesse a pena passarem de 
manh pelo Registo Predial, para saberem os nomes dos respectivos donos. Tomada essa deciso, 
continuaram em silncio at chegarem ao seu destino, onde o motorista, pouco  vontade, ajudou a colocar 
Luke na cadeira de rodas. Mas, apaziguado por uma boa gorjeta, tocou-lhes a buzina ao passar por eles, j 
a descer a Rua Tremont. A relativamente falhada incurso custara-lhes quase sessenta dlares.

Damian Steele estava junto da janela da sua suite, no quinto andar do Bston Plaza, observando a rua l 
em baixo. Eram quase onze horas e ainda no havia notcias de qualquer dos pontos de vigia. O 
contedo da pasta sobre Corey fora cuidadosamente estudado e estava espalhado em cima duma 
grande mesa redonda na sala, com crculos a encarnado em volta de factos que lhe pareciam teis para 
prever os passos do mdico.

Tinha de se render perante os recursos e a eficincia de Albert Julian, que, em menos de cinco dias, 
reunira uma incrvel quantidade de material acerca de uma pessoa da qual nada sabia antes. Havia 
cpias de artigos da Crnica, de Stratmore, da folha de servio militar, inmeras fotografias, um 
extenso perfil pessoal e familiar do mdico que parecia ter sido feito por um psiclogo e, na realidade, 
assim sucedera.

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Depois de ler e reler os documentos, Steele ficara com um retrato mental bastante 
pormenorizado do doutor Lewis T. Corey. Percebia agora facilmente as dificuldades que 
Spear e os seus homens tinham encontrado para prever e controlar as aces do mdico. As 
pistas estavam ali na pasta, vezes sem conta - Corey demonstrava um incrvel desprezo pela 
sua segurana pessoal e total indiferena pela sobrevivncia.

0 padro que ressalta, dizia o relatrio,  dum homem interessado no bem-estar dos 
outros, mas muito menos no seu. A explicao mais lgica para esta atitude  uma 
razoavelmente profunda depresso, possivelmente relacionada com uma perda pessoal, 
privao de afecto durante os anos de crescimento, ou as duas coisas. O documento trs, 
transcrio do interrogatrio do doutor Corey Snior pela Polcia, em Washington, parece 
apoiar esta teoria. O pai deu pouca ou nenhuma informao sobre o possvel paradeiro do 
filho, afirmando que este no o contactara e que no lhe falava havia vrios anos. No 
explicou os motivos dessa falta de comunicao, mas o entrevistador parece seguro de que ele 
avisar a Polcia, se receber notcias, pois em nenhum ponto da entrevista tentou convencer o 
entrevistador de que o filho no seria capaz de cometer o crime pelo qual  procurado.

Ainda a favor da concluso, esto o divrcio, a folha militar e a conduta profissional. O 
documento cinco  uma cpia da ,,condecorao que lhe foi atribuda por agir com total 
desprezo

pela sua segurana pessoal, o que no  tpico do comportamento dum mdico - na realidade, 
s cinco foram condecorados durante toda a Guerra do Vietname.

Durante os ltimos quatro anos, trabalhou como clnico geral numa pequena cidade, e fontes 
a contactadas (documento dois) usam termos como dedicado, solitrio, severo e at 
austero. Contudo, as mesmas fontes utilizam tambm os termos invulgarmente inteligente, 
inventivo e de fcil dilogo. Foi obrigado a concluir que o conjunto das energias deste 
homem est dirigido para o exterior e que o seu tipo de personalidade  vulgar em muitos dos 
mdicos mais capazes e de maior xito, cuja dedicao e desempenho so motivados tanto pelo 
desinteresse por si prprios, como pela preocupao com os doentes.

Conclumos, portanto, que a pessoa em questo , como parece j ter sido comprovado, 
excepcionalmente inteligente e
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expedito. No entanto, as suas aces so um tanto imprevisveis, j que lhe falta o Impulso da 
autopreservao que motiva o comportamento da maioria das pessoas. A manipulao do seu tipo de 
personalidade no pode ser feita por ameaas directas ou pela dor, mas talvez seja possvel atravs da 
ameaa sobre terceiros, Num confronto directo,  provvel que morra em vez de concordar com 
exigncias inaceitveis e, caso no seja suficientemente provocado,  improvvel que utilize violncia 
fsica contra algum.

Enquanto Steele olhava pela janela, pensativo, Carl Julian estava estendido num sof do outro lado da 
sala, a ler uma revista. At ali, a sua falta de inteligncia e discernimento tinham constitudo uma 
desiluso para Steele, mas estava em excelente forma fsica e no lhe faltava entusiasmo e vontade de 
cooperar. Pelo menos, no deve atrapalhar, pensou steele para consigo, continuando a observar o 
movimento na rua por baixo de si. A maneira como via as pessoas daquela altura no era diferente da 
sua viso normal acerca delas - minsculas criaturas semelhantes a insectos, apressando-se por entre 
carrinhos de brinquedo,  procura dos seus pequenos prazeres, cada uma aparentemente abstrada das 
outras, que, apressadas, a rodeiam.

Durante um breve momento, a sua ateno dirigiu-se para uma cena que se passava do outro lado da 
rua, onde quatro brutamontes provocavam uma mulher que empurrava uma cadeira de rodas, cujo 
ocupante se agitava espasmodicamente. Os homens estavam alinhados a toda a largura do passeio, e 
imitavam os movimentos involuntrios do doente que sorria ligeiramente, enquanto a mulher, depois 
de hesitar, empurrou a cadeira de rodas por entre dois dos rufias quase atropelando um deles. Steele 
seguiu o seu avano com o olhar, at atravessarem a rua e se perderem no trnsito. Depois, viu que os 
homens se tinham reagrupado e estavam a meter-se com trs mulheres vestidas para uma noite de 
discotecas.

Abanou a cabea, aborrecido, voltou para a pasta com o estudo sobre Corey e tornou a ler o escasso 
material que as fontes de Julian tinham conseguido sobre Karen Samuels. Vinte e seis anos e ainda 
solteira, deve ser um frasco, pensou ele, ou uma daquelas feministas. Todavia, o seu estudo foi 
interrompido pelo toque do telefone, mas Carl voltou-se no sof e atendeu sem se levantar.
-  o Corrigan - disse ele, tapando o bocal. - Um dos
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tenentes da Polcia que o meu pai tem no bolso. Queres falar com ele?

Steele aceitou imediatamente o auscultador e pegou num bloco e um lpis.

- Sim?

- Dave Corrigan, da Dcima Sexta Esquadra. Quem fala?
- Sou a pessoa com quem o senhor Julian lhe pediu que colaborasse sem fazer perguntas. Que tem para 
mim, tenente?
- Desculpe. S queria ter cuidado.

- Tudo bem. Ento, que informao nos pode dar?

- Pouca coisa, na verdade, e provavelmente nem  importante, mas o senhor Julian deu-me instrues 
para comunicar tudo o que acontecesse relacionado com o caso Corey.

- Exactamente - confirmou Steele, esforando-se por no soar impaciente com a conversa mole do 
polcia. - Quero saber tudo o que lhe chegar aos ouvidos.

- Bom,  sobre o carro da rapariga que ele matou, Connie Evans.
- ?

- No conseguimos encontr-lo,  s isso. No est em casa dela, em Quincy, nem na garagem do 
Sheraton. Lanmos um aviso e os detectives destacados para o caso dizem que talvez o mdico ande 
com ele.

- Descrio?

-  um Volkswagen Carocha encarnado com matrcula de Massachusetts, nmero quatrocentos e vinte e 
seis-NMP.

- Mais alguma coisa?
- Por enquanto, no.

- Muito bem, mantenha-me informado de tudo o que surgir. Se daqui no atendermos, ligue para o 
outro nmero que o senhor Julian lhe deu e deixe o recado.

Pousou o auscultador e entregou a descrio a Carl.

- Temos andado  procura do carro errado. Liga para todos os postos de vigia e eles que procurem este. 
O Corey e a rapariga esto em qualquer stio  volta de Bston,  mais que certo.

- Tenho pensado nisso - observou Carl. - Como podes garantir isso? Se eu soubesse que era acusado 
dum crime de morte, a esta hora j ia a meio caminho do Brasil. Temos quase cem homens, todos 
colocados nesta rea. Porque no estaro em Worcester ou. no voltaram para Cape Cod?

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- Anda c ver este mapa, Carl - pediu Steele, expondo a sua lgica mais para reforar o seu pensamento 
do que para esclarecimento de Julian. - Cada xis neste mapa da cidade indica um lugar que ns 
sabemos estar relacionado com o mdico ou com a rapariga: a casa da irm dele, a antiga casa do 
Ferlazzo, em Belmont, a da mulher que morreu, a faculdade que o mdico frequentou e o hospital onde 
trabalhava, todos no muito afastados uns dos outros. Estamos a contar com a Polcia para cobrir todas 
as zonas que no podemos vigiar, mas tenho a certeza de que esto escondidos em casa de algum ou 
num motel aqui  volta. Devem saber que a Polcia possui a descrio do carro dele, de maneira que, 
provavelmente, se sentem seguros com o outro e, mesmo que j estejam na posse dos documentos que o 
teu pai quer, no tm para onde ir com eles. O melhor ser esconderem-se durante uns tempos  espera 
de que a busca abrande. Com uma acusao de crime de morte sobre a cabea do Corey, no acredito 
que tentassem a sorte indo  Polcia, mas, se quiserem poupar-nos trabalho, melhor. Faz sentido?

-Ainda bem que no andas atrs de mim!

Tambm acho - respondeu Steele, no percebendo a piada de Carl. - Vamos mas  dar a informao do 
carro  nossa gente.

Seguindo pela rampa da garagem subterrnea do Motel Metropolitano e depois no elevador, Karen 
conseguiu levar Luke na cadeira de rodas at ao quarto, sem repararem neles. Tomaram duche juntos, 
deitaram-se e examinaram a chave que dera origem s peripcias pelas quais tinham passado. Ojornal 
da noite trazia a notcia do assassnio de Connie Evans na primeira pgina, com duas fotografias de 
Luke, a militar e a da licenciatura em Medicina, mas, tirando isso, dava poucas novidades.

- uma chave com um aspecto bastante inocente, no achas? - perguntou ele.

-Donde poder ser, Luke?

-Duma porta qualquer, ou talvez duma gaveta onde se guardem provas dum antigo crime ou coisa 
assim. A nica coisa que no consigo perceber  o motivo por que lhe do tanta
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importncia. Uma fechadura pode sempre ser arrombada ou arranjar-se outra chave. Se calhar  boa 
ideia lev-la a uma loja da especialidade e ver se conseguem descobrir alguma coisa pelo nmero de 
srie. Antes de a mandar para c pelo correio, copiei o nmero, para o caso de se extraviar. J nessa 
altura pensei que, se calhar, acabava por ir a uma loja.

-Porque no a entregaste? - perguntou Karen.
- O qu?

-A chave. Porque no a deste ao Spear, em Strathmore?
- No sei. Acho que quis respeitar o ltimo desejo duma mulher que vi morrer.

A rapariga deitou-lhe um olhar reprovador.

- Desculpa, Karen - emendou ele, tapando a cara. - Eu nunca a conheci seno como uma pessoa em 
estado terminal. Alm disso, tambm no gostei da maneira como comearam a lidar comigo.

-Mas arriscares-te desta maneira...

- Podes crer que, se tivesse percebido que estava em perigo de vida, provavelmente, nesse momento, o 
caso j estava resolvido, mas agora no me parece que nos deixem fugir, seja como for, portanto, no 
h grande coisa a perder.

- Desculpa, mas no consigo ver as coisas dessa maneira. O teu divrcio foi h anos. Porque no 
voltaste a casar? -Por nenhum motivo, a no ser por no ter encontrado a

mulher certa. No me importava de tentar o casamento outra vez, mas at agora no apareceram 
candidatas. Que tem o facto de eu no ter casado a ver com isto tudo?

-Talvez nada e talvez tudo - comentou ela, olhando-o bem nos olhos. - Gostavas muito da tua mulher, 
no  verdade?
- Acho que sim, mas, como tu disseste, isso foi h muito tempo.

- Aposto que nunca deixaste outra mulher aproximar-se, porque tens medo de que te magoem outra 
vez!

- Se isto  psicanlise, o melhor  deitar-me ali no sof gracejou Luke.

-Ahhh! toquei no nervo. Desculpa, no queria coscuvilhar, mas j passmos por tanta coisa juntos 
nestes ltimos dias que me sinto muito perto de ti. Se as minhas perguntas estpidas te,irritam ou 
incomodam, farei o possvel por no falar em coisas srias.

- No  que fique irritado ou incomodado - replicou
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 que... - Calou-se e olhou directamente para ela, continuando: - Tens razo, o que disseste deixou-me 
pouco  vontade. No sei quem diabo tento enganar, sobretudo agora que uns selvagens vo 
provavelmente cortar-nos aos bocadinhos daqui a pouco tempo. Quando tive alta do hospital militar, 
no Japo, no conseguia sair com mulheres. Depois, recebi uma carta da Sarah, a contar-me que casara 
e ia ter um beb. Acho que isso fez com que entendesse o recado, e comecei a conviver com mulheres. 
As coisas corriam bem, at que a pessoa comeava a interessar-se por mim e eu fechava-me 
completamente.

- Queres dizer sexualmente?

- Isso tambm, mas fechava-me em todos os aspectos. No imaginas as cenas de ruptura por que passei 
naqueles tempos!
- Fao ideia - disse ela. - Ento resolveste esconder-te em Cape Cod, no foi?

-Talvez. Pensei que devia ir para um stio onde a vida fosse mais calma, mas adoro o meu trabalho, 
adoro mesmo. E tenho arranjado tempo para o piano, para tentar pintar e para dar passeios pela praia 
quando me apetece.

- Sempre sozinho e sempre em segurana - comentou Karen.

- Nem sempre, ainda saio acompanhado, quando quero.
- Mas nada de relacionamentos srios, no ?

luke no desviou o olhar, mas limitou-se a encolher os ombros.

-Ouve - disse ela finalmente. - Temos de sair disto, vamos sair disto. E, quando isso acontecer, quero 
que confies em mim, que partilhes a tua vida comigo. Sem exigncias, sem riscos, s partilhar. Achas 
que consegues?

- Acho que talvez seja uma pergunta acadmica, mas, se sairmos disto, adorava que fosses tu a tentar 
encontrar alguma coisa do que me resta.

Durante muito tempo, ficaram deitados s escuras, com as mos, os lbios e os corpos a explorarem-se 
mutuamente. Ele descobriu a cova macia onde as costas dela acabavam para dar lugar s rijas ndegas, 
e passou muitos minutos a seguir o seu contorno, enquanto a boca quente da rapariga saboreou cada 
centmetro do pescoo dele, demorando-se sob a orelha esquerda. Depois, guiou-o para dentro de si, 
suavemente, e fizeram amor com a intensidade e a paixo de duas pessoas que pensavam talvez no 
chegar ao dia seguinte. Serviram-se de cada
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parte dos seus corpos para fazerem perguntas um ao outro, encontrando sempre as respostas. Luke 
descobriu que Karen preferia ficar de lado, com os joelhos encolhidos e as costas contra o peito dele, 
movendo-se para trs e para a frente no esforo de o fazer chegar cada vez mais fundo dentro de si. O 
ritmo das suas respiraes e dos seus movimentos foi-se misturando gradualmente, enquanto cada um 
procurava e encontrava novas maneiras de dar prazer ao outro. De repente, os seus corpos 
estremeceram e, durante alguns momentos, cada grama das suas energias misturou-se e explodiu em 
volta deles.

Por cima da cidade, a espessa cobertura de nuvens comeou a desvanecer-se e um raio de luz da lua 
cheia entrou pela janela do quarto, banhando-os num lago de prata.

Era quase meio-dia quando Luke conseguiu ligar para o Registo Predial. Karen tinha sado mais cedo e 
voltara com uma garrafa de leite com chocolate e um saco de bolinhos fritos, que devoraram num 
instante. Quando acabaram, planearam a estratgia desse dia e decidiram no abusar da sorte, 
andando ambos dum lado para o outro durante o dia, ficando Karen com a tarefa de procurar uma 
loja de chaves. Impecvel, de calas azul-escuras e camisola clara, meteu a chave no bolso, enfiou a 
gabardina e ps o chapu de abas largas, prometendo no voltar sem ter resolvido o mistrio.

Quando ela saiu, Luke passeou pelo quarto e depois estendeu-se na cama, de olhos fechados, revivendo 
o que se passara entre os dois. Nunca, em toda a sua vida, se sentira to excitado com uma mulher, e em 
paz ao mesmo tempo, sentimentos que imaginara muitas vezes sem esperar realmente vir a 
experiment-los. E agora, aparecia-lhe de repente uma rapariga na sua vida e, em dias, ajudava-o a 
descobrir algo dentro de si que estava enterrado havia anos. Quero ter a oportunidade de a conhecer, 
pensou. D por onde der,  preciso arranjar maneira de ter tempo. Se eles lhe fazem mal, eu... Merda! 
No podem fazer-lhe mal.

A mulher que o atendeu  terceira vez que ligou para o Registo Predial chamava-se Federman e, ao 
contrrio das duas funcionrias anteriores, era alegre e parecia ansiosa por ajudar no que pudesse.

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O meu nome  Frank Sullivan - apresentou-se Luke. Estou em Bston para escolher uma entre vrias 
propriedades, na zona de Mattapan-Dorchester, a fim de a comprar. Ontem, apanhei um txi para as ir 
ver, mas parece que h dvidas sobre os donos de quatro delas. Espero que possa descobri-los, se eu lhe 
der as moradas.

Tinha muito prazer em ajud-lo, senhor Sullivan, mas no podemos dar essa informao pelo telefone - 
explicou a mulher. - O Registo fica no edifcio Stallworth, no nmero trs da Rua Ingram, e se quiser 
fazer o favor de vir at c e preencher..

-O problema  exactamente esse, senhora Federman. Sabe,  que eu estou paralisado da cintura para 
baixo e tenho muita dificuldade em deslocar-me pela cidade na cadeira de rodas. Detesto pedir-lhe que 
faa uma coisa contra o regulamento, palavra, mas, se fosse possvel ajudar-me pelo telefone, poupava-
me uma data de problemas.

-Senhor Sullivan, claro que compreendo. O meu irmo est numa cadeira de rodas h quase dez anos, 
teve um desastre de carro. Eu sei como as deslocaes so dificeis, alm de que a_maior parte dos 
edifcios pblicos no tem sequer as alteraes mais bsicas para ajudar os deficientes fsicos. Por isso, 
o Tom, o meu irmo, detesta ter de tratar de algum assunto na baixa.

-Ento ajuda-me?

Vou fazer o possvel, senhor Sullivan. D-me as moradas que lhe interessam e eu depois ligo para si 
assim que encontrar os nomes.

Com um suspiro de alvio, deu-lhe os quatro endereos que Karen apontara na vspera e ficou  espera 
do telefonema da mulher. Sem material de leitura, ligou a televiso e ficou a ver o sofrimento, as 
intrigas e o drama da srie Mdicos. Quando isto tudo acabar, pensou, talvez tente escrever um 
guio para uma telenovela. De sbito, soltou uma gargalhada. No, provavelmente diriam que era 
exagerado, mesmo como fico. O seu sorriso transformou-se num infeliz abanar de cabea. Alm 
disso, Luke, quando isto tudo acabar, ests provavelmente na priso, se tiveres sorte.

Quase duas horas depois, Karen voltou e encontrou-o a dormir de costas, com a almofada em cima da 
cara. Fechou a porta devagarinho, foi em bicos de ps at  mesa e abriu o saco de
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papel que trazia consigo. Tirou de l uma garrafa de champanhe, duas taas, queijo e duas velas. 
Depois de as acender, trocou a camisola pela blusa transparente e tomou uma pose de modelo junto  
garrafa.

- Tar! - exclamou. - Acordai,  prncipe adormecido! O mistrio da chave foi resolvido!

Luke estava mais profundamente adormecido do que ela pensava e sentou-se de repente, com as mos 
estendidas para a frente, como se quisesse afastar um atacante. Em vez de reparar na surpresa 
preparada por Karen, olhou logo para o relgio.
- Caramba, so quatro e meia!

-Ol, Luke, estou aqui! Que tens?

- Ah, ol - respondeu, nitidamente aborrecido. - Desculpa,  que o estafermo da mulher do Registo 
Predial no me telefonou.

- Bom, tambm j no  preciso. Acertei em cheio, sabes? At tive tempo para comprar umas coisas 
para festejarmos disse Karen, dando um passo para o lado e deixando  vista o champanhe e as velas.

- Ena, fantstico! Foi com o nmero de srie da chave?
- Claro. Ai, Luke, fiquei to excitada! Devo ter andado uns vinte quarteires  procura duma loja de 
chaves e depois,  esquina dum beco, vi uma, minscula, com uma tabuleta superminscula. L dentro 
estava um homenzinho com um grande bigode grisalho, rodeado por milhares de fechaduras 
empilhadas por todo o lado, que trabalhava com uma mquina de fazer chaves. Seja como for, mostrei-
lhe esta e perguntei-lhe se havia maneira de descobrir donde era. Ele observou-a de todos os lados e 
disse-me que era velha e que nem sequer tinha o mesmo modelo para fazer um duplicado.

- V l, v l - interrompeu Luke, excitado. - Diz l o que descobriste.

-Ento, no queres ouvir esta histria to interessante? -Contas-me os pormenores depois. Donde  o 
raio da chave?

-Dum prdio de escritrios.
- Dum qu?

- Sim, dum dos escritrios no stimo andar, para ser exacta. Paguei vinte e cinco dlares ao homem e 
ele telefonou  fbrica dessas chaves. Acho que gostou do meu corpo. Demorou um bocado, mas 
disseram-lhe que as daquela srie tinham sido

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todas feitas ao mesmo tempo, como parte dum grande contrato de construo. Deram-lhe a morada e 
at informaram de que andar era. Por isso, amanh vamos l, abrimos a porta e resolvemos o mistrio 
duma vez por todas.

-Calma, querida. Diz l onde  o edifcio. -Na baixa,    no nmero trs da Praa de Bston.

-E aquela histria a respeito do teu stio de pensar? No sei. Achas que  possvel o que a minha me 
dizia no estar relacionado com a chave?

-Bom, foi contigo que ela falou. Julgas que se referia  chave ou no? - perguntou Luke, nitidamente 
irritado. Passa-se alguma coisa, Luke. Eu disse ou fiz alguma
coisa que te aborrecesse? Se assim foi, tens de falar comigo sobre o assunto, em vez de ficares a sentado 
a deixares-te roer por dentro.

Num instante, a rapariguinha era de novo uma mulher. Sentou-se  beira da cama, mas no fez meno 
de lhe tocar. Luke sustentou-lhe o olhar todo o tempo que pde, mas acabou por desviar o seu.
-No vais deixar-me levantar muros, pois no? - perguntou. - Desculpa, querida, mas antes de 
adormecer estive a pensar na nossa maravilhosa noite e acho que comecei a ficar aborrecido por no 
podermos esperar um futuro de mais do que umas horas, agora que finalmente encontrei uma pessoa 
como tu.

Karen aproximou-se dele e abraaram-se. Os olhos dela encheram-se de lgrimas e uma deslizou-lhe 
pela cara.

No acreditas que vamos sair disto, pois no?

Luke comeou a responder, mas foi interrompido pelo toque do telefone. Com a pressa de atender, 
quase a atirou ao cho.

- Sullivan - disse ele.

- Senhor Sullivan, daqui  a Cecelia Federman. Lembra-se? Do Registo Predial? Desculpe ter levado 
tanto tempo, mas alguns dos livros de que eu precisava estavam a ser consultados e fiquei  espera.

-No faz mal - respondeu Luke, tentando respirar normalmente. - Agradeo-lhe muito a sua ajuda. 
Conseguiu descobrir os nomes dos proprietrios?

-  Consegui, mas nenhum deles vive nestas moradas.

- Isso no admira. Tenho aqui um lpis. Pode ditar-me os nomes e as moradas?

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Os primeiros trs nomes nada lhe disseram, mas tomou nota na mesma. Ento, quando a mulher leu o 
quarto, Karen ouviu-o respirar com mais fora. Em grandes letras, Luke escreveu: Rua Abbott, 22. - 
Proprietria: Evelyn D. samuels.

Quando desligou, olharam um para o outro em silncio at que Karen disse:

- Ento, era assim que ela sabia que o meu stio de pensar estaria sempre ali... No fazia ideia de que 
a minha me fosse dona duma casa sem ser a nossa.

- Tens a certeza de que o homem das chaves no te enganou?

- Tanto quanto posso estar certa de alguma coisa. Como te disse, acho que excitei as hormonas do 
velhote, e ele parecia realmente com vontade de me ajudar.

- Isso  incrvel - lamentou-se Luke. - No tnhamos um stio onde a chave servisse a agora h dois. 
Bom, no podemos fazer grande coisa a respeito do prdio de escritrios esta noite. Acho que  melhor 
ir visitar a senhora que tomava conta de ti.

,- Gostava de poder telefonar-lhe para lhe dizer quem somoss e ter a certeza de que est em casa. 
Quanto menos andarmos em pblico, melhor. Vem outra vez um artigo na primeira pgina dos jornais, 
com uma fotografia tua. Acho que um mdico fora da lei  coisa grave, no?

- A visibilidade acompanha a profisso. Quando cheguei a Strathmore, descobri que, assim que tinha 
uma borbulha no nariz, a notcia aparecia no jornal local. Bom, vamos ficar quietos at estar escuro, de 
maneira que talvez seja boa ideia abrir o champanhe e festejar o facto de estarmos juntos.

Pegou na garrafa e soltou a rolha, continuando a falar:
- Os meus pais devem estar completamente desfeitos com esta histria, sabes? Acho que talvez fosse boa 
ideia eu ligar para eles, se passarmos por uma cabina. No, pensando melhor, e apesar de ningum 
saber ao certo se estamos em Bston, devem ter a linha deles sob escuta e so capazes de nos localizar, 
nem que eu fale s um minuto. O mais inteligente  no lhes dar essa hiptese, pelo menos at 
resolvermos o caso da chave ou at a publicidade sobre o crime ter acalmado.

- Espera, Luke! - pediu Karen, com um sorriso excitado.
- Acho que me lembrei!

-De qu? Foi alguma coisa que eu disse?

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- No, desculpa, mas acho que me lembrei do apelido dela. -De quem?

Da Theona. Settles,  o ltimo nome dela, tenho a certeza.

Na lista dos telefones de Bston, encontraram T. Settles no vinte e dois da Rua Abbott. Karen marcou o 
nmero e, ao quinto toque, uma mulher atendeu.

-Pretendia falar com a senhora Theona Settles. Ela est, se faz favor?

-Sou eu. Quem fala? - A voz era ligeiramente rouca, mas forte, e falava com o ritmo arrastado dos 
negros do Norte.
- Theona! Estou muito contente por a encontrar.  a Karen, a Karen Samuels. Lembra-se de mim?

-  Se me lembro? Karen, minha querida, que bom saber de si! H dez anos ou mais que no a vejo. 
Como est a sua me? Foi por isso que eu telefonei, Theona. Tenho uma notcia

muito triste para si. A me teve uma trombose e morreu na quinta-feira no hospital de Stratmore.

Fez-se silncio do outro lado e depois Theona disse:

- Era uma grande mulher, a sua me. Sabe que no acei- tou um tosto de renda durante estes anos 
todos? Eu tentava pagar e ela nunca recebia. E agora morreu, diz a menina. Esteve doente muito 
tempo?

- No, no ia ao mdico h meses. Aconteceu de repente, em casa, e morreu horas depois. Olhe, Theona, 
eu estou com um problema e acho que pode ajudar-me. H alguma hiptese de eu ir a esta noite?

Claro, minha querida, nada me dava maior alegria do que v-la. Tenho uma reunio da Associao de 
Moradores at cerca das oito e meia, mas depois estou em casa. Podia faltar, mas, como sou uma das 
fundadoras, as pessoas pedem-me conselhos. Alguma coisa de til h-de sair de todos estes anos que 
tenho vivido e acho que um pouco de sabedoria  tudo o que posso oferecer. Que tal aparecer por volta 
das nove? Sofro de artrite nos joelhos e, mesmo com bengala, pareo um caracol a andar. Levo meia 
hora a chegar a casa.

-s nove est perfeito - concordou Karen. Sabe como chegar c, filha?
-Acho que sim, Theona. No se preocupe que ns achamos o caminho. Vou com um amigo chamado 
luke.

-Um namorado?
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-Mais ou menos. Olhe, estou excitadssima por ir v-la! Estamos a s nove.

Eram exactamente nove e um quarto quando se apearam do Volkswagen diante do nmero vinte e dois 
da Rua Abbott. Com um chapu enterrado at aos olhos, Luke preferira deixar a cadeira de rodas no 
quarto do motel e descer a escada das traseiras at  garagem. No tiveram dificuldade em encontrar a 
casa e foram recebidos com beijos e apertados abraos por uma excitada Theona SettIes.

A sua compleio era semelhante  de uma gigantesca bola de praia, pois, mal alcanando um metro e 
meio de altura, pesava mais de noventa quilos. Tinha um vestido azul, um avental sem peitilho, e a sua 
cara cor de bano era cheia e sem rugas, com um aspecto de querubim que desmentia os seus setenta 
anos. Era juvenil no seu carcter aberto e caloroso e no seu riso agudo.

F-los sentar num gasto sof na sala, foi buscar um carrinho de ch com um servio de prata e instalou-
se num cadeiro que, com os anos, fora modificando a sua forma para acolher a dela.

- No recebo muitas visitas nos ltimos tempos - observou.

- Est com ptimo aspecto, Theona - exclamou Karen.
- Acho que exactamente o mesmo de quando me limpava o nariz e me obrigava a beber o leite.

- Mas a menina mudou e muito! Meu Deus, que linda mulher se fez! A sua mezinha contou-me, na 
ltima carta que me escreveu, que a Karen tinha um emprego em Nova Iorque, e at me custou a crer 
que j passara tanto tempo. Mas no veio c para me ouvir falar do passado. Diga l  Theona qual  o 
seu problema, e esteja  vontade, querida. H muito tempo que aprendi a no deixar os outros fazerem 
julgamentos por mim. -Que quer dizer com isso?

- Ora, ora. Sou velha, mas no cega. A o seu belo namorado tem uma cara que no  fcil esquecer, 
mesmo de fotografias de jornais.

- O Luke nunca fez mal a uma mosca, Theona. A minha me entregou-lhe uma chave que deve ser de 
alguma coisa muito importante e, desde essa altura, anda gente a fazer-nos coisas horrveis para tentar 
deitar-lhe a mo.

- Olhe, conte l isso mais devagar. Volte ao princpio e conte-me o que puder sobre o que lhe aconteceu.

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Karen, durante cerca de meia hora, relatou-lhe lentamente a histria, com todos os pormenores 
possveis, e, de vez em quando, Luke acrescentava uma ou outra informao, enquanto Theona ouvia 
em silncio.

- Esto mesmo com problemas - comentou ela, por fim. O homem a quem vocs chamam Peter foi dono 
desta casa. Era casado com uma bruxa de Belmont, e eu costumava fazer a limpeza em casa deles. O 
apelido de ambos era Ferlazzo, Peter e Julia Ferlazzo. Seja como for, um dia o senhor Ferlazzo 
perguntou-me se eu gostava de me mudar para esta casa e de tomar conta de si, em troca da renda; foi 
assim que vim morar para c. A sua mezinha amava-o e ele retribua-lhe, mas a mulher dele nem 
queria ouvir falar de divrcio e ameaou-o, de o arruinar. Ento, Peter e a senhora Evelyn passavam 
todo o tempo que podiam juntos, enquanto eu tomava conta de si. Quando ele morreu, a sua me disse-
me que a casa ficara para ela, mas que queria que eu continuasse a morar c, apesar de j no tomar 
conta de si. Muitas vezes planemos ver-nos, depois de se mudarem para Cape Cod, mas aparecia 
sempre alguma coisa que o impedia. Bom, filha, o local a que chama stio de pensar ainda est onde o 
deixou. Tomamos mais uma chvena de ch e depois vamos l acima ver o que encontramos.

Para Damian Steele, a oportunidade surgiu precisamente s nove e vinte. Fora um longo e frustrante 
dia, com poucos ou nenhuns progressos na procura deCorey e da rapariga. Carl Julian tinha comeado 
a enerv-lo, e Steele chegou mesmo a perder as estribeiras, gritando-lhe que parasse de estalar os 
dedos. Revira completamente a pasta pela dcima vez e desmanchara e limpara a sua Walter de cano 
longo, feita de encomenda.

Carl tambm estava a ficar nervoso e irritado. A sua sugesto de arranjarem duas mulheres para o 
quarto do hotel fora rotundamente rejeitada, e as suas poucas tentativas de conversa com o famoso 
assassino recebidas com pouco mais de monosslabos.

Num dos raros momentos de conversa espontnea, steele disse, andando dum lado para o outro:

- Eles esto escondidos em Bston, no acredito que fos-
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sem para outro stio, de maneira que devem ter-se refugiado nalgum local aqui perto. H quanto tempo 
tivemos notcias das equipas que andam a verificar os motis da zona sete pela ltima vez? - perguntou, 
mas foi interrompido pela campainha do telefone.

- Sim?

-  o chefe?

- Sou. Que se passa?

- Daqui  o Berggren, na zona trs. Acho que os encontrmos. O Volkswagen est estacionado em frente 
duma casa em Dorchester, no vinte e dois da Rua Abbott, e no o vimos l quando passmos por essa 
rua, h meia hora.

- Tens a certeza da matrcula? -Absoluta.  o carro.

- Continuem a vigiar, mas fiquem escondidos. Vamos j para a. - Depois, voltou-se para Carl e 
exclamou: - Eu sabia! Esto numa casa na Rua Abbott, em Dorchester.  aqui mesmo, a poucos 
quarteires da antiga casa da me da rapariga. Puseste a corda no carro? Toca a andar!

- Theona, adorava continuar a conversar consigo toda a noite - observou Luke -, mas precisamos de ir 
l acima ver se encontramos alguma coisa. Nada garante que isso me ajude a livrar-me desta acusao 
de assassnio, mas no me parece que a sorte que tivemos at aqui dure muito mais tempo.

A rotunda mulher demonstrou ser ainda mais sensata e encantadora do que Luke suspeitara. Tinha 
ouvido com toda a ateno o relato e parecia compreender mesmo os matizes mais subtis do problema.

- As coisas vo realmente muito mal quando nem nos polcias uma pessoa pode fiar-se - comentou. - 
Penso que, na sua maioria, so bons e honestos, mas  impossvel distingui-los das mas podres at ser 
tarde de mais. Grande parte da minha gente no tem f na Polcia, nem mesmo nos agentes negros; eu 
digo-lhes que algum tem de comear por confiar em algum, mas at agora essa  uma parte da minha 
sensatez que ningum aceita. Ento, quando encontrarem o que a me da Karen escondeu, que vo 
fazer com isso?

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-No sabemos - respondeu Luke. - Tudo depende do que for. Se se tratar de dinheiro ou algo do gnero, 
ficamos no mesmo sarilho. A nossa grande esperana  que seja suficientemente importante para servir 
de moeda de troca. As nicas pessoas que sabem que eu no estava com a rapariga quando ela foi 
assassinada so a Karen e o homem que anda atrs da chave, e no me parece que possa contar com 
ele.

No momento em que se levantaram, as portas da frente e das traseiras da casa abriram-se de repente e 
quatro homens, trs deles de armas em riste, entraram na sala. Luke deu um
rpido passo na direco da porta da frente, mas parou ao som da voz dum dos homens, alto, bem 
vestido e o nico sem arma na mo.

Mais um passo, doutor Corey, e a menina samuels fica com um buraco num p.

 meno dos seus nomes, Luke sentiu todos os msculos do corpo ficarem moles. Durante uns 
segundos, alimentara a esperana de que se tratasse de gatunos que nada tivessem a ver com eles, mas 
assim ficou imvel uns segundos, e depois deixou-se cair no sof.

O homem alto tornou a falar, na direco dos que estavam  sua esquerda:

Vocs dois, levem esta senhora para o quarto e depois
esperem por ns no carro. O Carl e eu temos um assunto a tratar com o doutor Corey e a menina 
Samuels.
A voz dele era suave, mas autoritria e to gelada que fez Luke contrair-se. Vendo os dois homens 
levarem Theona para
fora da sala, manteve-se imvel, fazendo o exerccio mental

que costumava usar para se acalmar em situaes clnicas crticas .Respirar fundo, manter. Expirar 
lentamente... olhar em volta... concentrar.. concentrar... relaxar.. decidir. Nas referidas situaes, a 
ordem seguinte para si prprio seria agir, mas naquele caso a aco era impossvel, pelo menos de 
momento.

Com um olhar observador, afinado por anos de prtica nas enfermarias e no consultrio, comeou a 
avaliar os dois homens que os confrontavam e o problema que constituam.

Achou a tarefa de se concentrar mais difcil do que nunca, sobretudo porque o pensamento lhe fugia 
constantemente para a rapariga sentada a seu lado. Por fora, parecia incrivelmente descontrada, mas, 
vendo melhor, estava numa posio demasiado rgida e, embora a cara no tivesse expresso, esfregava
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ritmicamente os polegares nos dois dedos seguintes de cada mo. No posso deix-los fazerem-lhe 
mal... no posso, deu consigo a repetir em pensamento.

Ento, com um esforo considervel, comeou a avaliao dos dois homens. Era evidente desde o 
princpio qual dos dois era mais de recear. O tal Carl parecia hesitante, um tanto inseguro, mantinha-
se a uma distncia respeitosa atrs do homem alto e parecia esperar por ordens para fazer qualquer 
coisa. Este ltimo mostrava-se completamente seguro de si, com uma economia de movimentos que 
transmitia uma impresso de grande autoridade. Vendo-o dirigir-se deliberadamente para a sala de 
jantar, a fim de ir buscar uma cadeira, Luke no teve dvida de que os esperava uma difcil e 
provavelmente dolorosa provao.

- Senta-te, Cari - ordenou o homem, indicando-lhe o cadeiro que Theona ocupava minutos antes. 
Depois, colocou a sua cadeira defronte deles e sentou-se, olhando primeiro para um e depois para o 
outro.

- O meu nome  Steele, Damian Steele, doutor Corey. Primeiro, quero dar-lhe os parabns pela sua 
imaginao e desenvoltura. Causou-nos grandes inconvenientes nos ltimos dias.

- Pois pode dizer ao seu Jim Spear que no fazemos tenes de o ajudar mais do que em Strathmore - 
interveio imediatamente Karen, desafiadora.

-  muito valente, menina Samuels, mas garanto-lhe que, embora o senhor Spear tenha trabalhado 
para ns, os seus servios foram, digamos, dispensados.

O segundo sentido da frase foi compreendido por qualquer deles, e Karen afundou-se no sof.

- Ora bem, no precisamos de apresentaes, e acho que podemos passar ao que interessa. Faa favor 
de despejar lentamente os bolsos em cima da mesa, doutor Corey. Obrigado. Creio que esta chave  o 
objectivo da nossa transaco, no concorda? - Empunhou-a diante deles, virando-a e revirando-a. - 
Pelo sim, pelo no, Carl, faz, por favor, o inventrio da carteira e bolsos do casaco da menina. No 
queremos deixar escapar outras chaves que possam trazer consigo.

-No vale a pena - disse luke. - A chave  essa.
- Luke! - exclamou Karen, espantada com a facilidade com que ele se rendera.

-No estamos em posio de regatear. Alm disso, agora
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que tm o que querem, podem deixar-nos em paz. A perseguio acabou e ns perdemos,  o que .

- Muito bem dito, doutor, mas engana-se num pequeno pormenor. Temos a chave,  verdade, mas esta  
apenas parte do que pretendemos de si. O resto relaciona-se com a localizao da fechadura que condiz 
com este bocado de metal.

-Pense bem, Steele. Acha que ainda estvamos aqui escondidos, se fizssemos alguma ideia donde  a 
chave? Tenho a certeza de que Spear sabia. Ele no lhe disse, antes de o terem... dispensado?

- Infelizmente, no. Nesse ponto, estou inclinado em acreditar no que me diz, doutor, mas previno-o de 
que, embora no me zangue com facilidade, as pessoas, por norma, ficam magoadas quando me irrito. 
No afasto completamente a possibilidade de estar a mentir, e quero que saiba que, se descubro que  
assim, obrigo-o a ficar sentado a ver-me cortar os dedos da menina Samuels, um a um. Ento, j se 
lembrou de mais alguma informao que possa ajudar-me?

Luke mordeu o lbio por dentro, para manter algum controlo sobre as suas funes gstricas e 
intestinais. Karen estremeceu e sentiu um suor gelado debaixo dos braos e nas tmporas.

- Mais nada - conseguiu Luke dizer. - Acredite que lhe dizia, se soubesse.

- Muito bem, doutor. Carl, por favor, amarra bem estas pessoas e fica a vigi-las enquanto fao uma 
visita a uma loja de chaves dum amigo nosso. Ah, olhe, doutor, fique sabendo que, quando voltar, trago 
comigo uma quantidade suficiente de pentatol de sdio, e pode ter a certeza de que sou especialista em 
utiliz-lo. S tem at eu regressar para tentar lembrar-se de qualquer outra informao que possa 
ajudar-me. A menina Samuels tem umas mos to bonitas e delicadas...

Steele desviou a cadeira, continuando sentado enquanto Carl atava os pulsos e os tornozelos de Luke e 
Karen. Depois, fez-lhe sinal para o seguir at  porta da rua, onde recomendou:

- Nada de tocar na rapariga, Carl, pelo menos, at termos o que queremos. Depois,  toda tua.

Com aquela promessa, Carl sentiu o sangue descer-lhe at s virilhas, imaginando Karen Samuels 
deitada numa cama, com os braos e as pernas abertos, como Connie Evans. Com essa, tinha chegado 
ao orgasmo s de a ver retorcer-se e implo-
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rar, e fora obrigado a deixar um dos seus homens viol-la. Desta vez, ia controlar-se melhor, prometeu 
a si prprio.

Nos poucos segundos em que os homens ficaram fora da vista, Luke segredou:

- No quero que fales, nem uma palavra, acontea o que acontecer. Percebes?

Karen concordou com a cabea e, quando Carl voltou para a sala, ela aproximou-se e pousou a cabea 
no ombro de Luke, com os olhos fechados.

-- Que ganha com isto, Carl? - perguntou Luke.

- Olhe, doutor Corey, fique quieto e calado! - ordenou o rapaz.

Era a primeira vez que o ouvia falar e, depois de se encostar e semicerrar os olhos, Luke acompanhou 
cuidadosamente todos os seus movimentos. Carl, primeiro, ficou sentado uns minutos, mas a seguir 
bocejou, levantou-se e andou dum lado para o outro, parando para folhear um livro de bolso na estante 
de Theona. Voltou ento para a cadeira com um baralho de cartas e comeou a fazer uma pacincia, 
bocejando mais duas vezes. Um plano foi-se formando e cristalizando gradualmente na mente de Luke.

Dez minutos mais tarde, Carl Julian levantou-se de novo e, aps verificar os ns das cordas, dirigiu-se 
para a casa de banho. Assim que achou que ele no podia ouvi-lo, Luke voltou-se para Karen e 
segredou-lhe o mais firmemente que conseguiu:

- Olha, querida, ouve bem o que te digo. Uns minutos depois de ele voltar, quero que fiques com a 
maior dor de cabea de sempre. Finge bem, e faz o que eu disser. Achas que s capaz? - Karen acenou 
com a cabea e ele deu-lhe um leve beijo na testa. - Aguenta, querida. Pode ser a nossa nica hiptese e 
temos de fazer com que funcione.

Quando ela ia comear a dizer qualquer coisa, ouviram o rudo do autoclismo, e Carl voltou e sentou-
se.

Da a cinco minutos, Karen comeou a mexer-se, a seguir a respirar ofegante, piscando os olhos e 
abanando a cabea para trs e para diante. Carl olhou-a e nesse momento Luke perguntou:

-Que foi, querida? Que tens?

A rapariga comeou a torcer-se e Luke viu, encantado, que ela tinha os olhos cheios de lgrimas.

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-Ai, Luke,  mais uma enxaqueca! - articulou a custo. Pior do que todas as outras. No aguento, acho 
que vou vomitar.

Ao v-la com as lgrimas a escorrer pela cara, acreditou que fosse mesmo capaz de vomitar.

Ela est cheia de dores, Carl. Deixe-me levantar - pediu Luke - para ver se h alguma coisa no armrio 
dos remdios que possa dar-lhe para aliviar as dores.

-Nem pensar. O senhor fica onde est e diga-lhe que se acalme e esteja calada ou eu amordao-a.

Se ela vomita com uma mordaa, aspira o vmito e morre. Acha que o senhor Steele ia gostar?

-Deixe l o senhor Steele comigo. Diga-lhe que se acalme, ouviu?

O rapaz comeava a ficar nitidamente incomodado com os gemidos cada vez mais fortes de Karen.

- Eu vou tentar, mas voc tem de me ajudar. Apague a luz e fique em silncio total.
Espantado, Carl fez o que ele disse, deixando apenas acesa a luz da sala de jantar.

Luke comeou a falar com Karen num tom calmo e tranquilizador:

Olha, Karen, quero que respires mais devagar e que oias o que te digo. Tens de te descontrair, ou a 
dor de cabea ainda aumenta. Fecha os olhos e respira mais devagar. Concentra-te na minha voz e 
deixa tudo o mais desaparecer. Pensa s na minha voz, isso mesmo. Tens de te relaxar e deixar os 
braos inertes no colo.
Pelo canto do olho, viu Carl bocejar e colocar inconscientemente as mos no colo.

-Fecha os olhos com mais fora e deixa a dor sair, concentra-te s no som da minha voz. Inspira mais 
lentamente, mais ainda, e deixa cair os braos. - A respirao de Karen enfraqueceu e a cabea 
comeou a baloiar ligeiramente para a frente. Luke continuou:

- Fecha os olhos, sentes as plpebras pesadas. Ests a ficar cansada, muito cansada. S queres dormir, 
nada mais do que dormir.

No precisou de mais do que cinco minutos para saber que
haviam ambos adormecido. Carl ainda oferecera menos resistncia do que imaginara, e estava imvel, 
a respirar normal-
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mente, com os olhos fechados. Por segurana, Luke continuou a falar:

- Vou contar de dez para trs e, quando chegar a dois, tu, Carl, podes abrir os olhos, mas s 
conseguirs mexer-te ou falar se eu disser. Pronto: dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro
- os olhos do rapaz comearam a tremer ligeiramente - trs, dois - e abriram-se completamente -, um, 
zero.

Luke exalou o ar com fora e sorriu, vendo Karen a dormir calmamente a seu lado. Fizera vrios 
cursos de hipnose e utilizara a tcnica, com frequncia, em doentes com problemas de peso e em 
fumadores. Naquele momento, abenoava as muitas horas passadas a aprender o mtodo.

A ideia de tentar adormecer Carl sem ele perceber tinha-lhe surgido ao lembrar-se duma 
demonstrao na faculdade. O professor hipnotizara propositadamente no s um aluno, mas tambm 
a maioria dos que se sentavam nas duas primeiras filas. Mais tarde, mostrara que os estudantes 
inadvertidamente hipnotizados tinham dormido uma mdia de duas horas e meia menos na noite 
anterior do que os que haviam resistido  sua tcnica.

Luke escolheu as palavras cuidadosamente, lembrando-se de que o rapaz cumpriria literalmente as 
ordens que lhe desse.
- Carl, h grandes trepadeiras, com folhas grandes, a espalharem-se pela sala toda. Ests a v-las? - 
perguntou, e o rapaz,acenou com a cabea. - As trepadeiras enrolaram-se  volta dos nossos corpos e 
estamos com dificuldade em respirar.
- A respirao do rapaz tornou-se forada. - Tens de levantar as mos e vir aqui antes que te enrolem 
completamente. Carl obedeceu e atravessou a sala, aproximando-se de Luke. Agora, tens de soltar as 
minhas mos das trepadeiras. ptimo, Carl,  isso mesmo. Agora as trepadeiras esto a encolher e j 
podes deitar-te no sof sem problema. Muito bem, Carl. Estende-te, fecha os olhos e diz-me o teu nome 
todo.

- Carl Julian.

-E onde vives, Carl? -Em Lincoln.

Luke tinha muitas perguntas que gostava de lhe fazer, mas no ia perder mais do seu precioso tempo a 
interrogar um pistoleiro contratado.

- Muito bem, Carl, agora quero que durmas profundamente, at que eu, e s eu, te diga que acordes. A 
pessoa que falar
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tem de ser um anjo, um anjo verdadeiro, com asas e halo. Percebes?

Carl acenou de novo com a cabea. Ento, Luke voltou-se para Karen e disse:

-Ests a ouvir-me, Karen? ptimo. Vou tirar-te as trepadeiras das mos e dos ps. Depois, quero que te 
levantes e venhas comigo.

Quando ficaram na cozinha, sozinhos, continuou:
Agora vou estalar os dedos, Karen, e tu acordas descansada e fresca como nunca.
A rapariga despertou instantaneamente e ficou ali a piscar os olhos, tentando orientar-se.

Estava mais ou menos a perceber o que se passava, mas no conseguia acreditar que fosse real! - 
exclamou ela. - s fantstico! Como te lembraste disto?

Falamos depois - segredou Luke. - Neste momento, o melhor  despacharmo-nos. No fao ideia de 
quanto tempo temos at o Steele aparecer. Vai ver se a Theona est bem, mas afasta-te das janelas. Os 
outros dois brutamontes devem estar l fora num carro.

Minutos mais tarde, Theona, de lanterna porttil em punho e seguida por Luke e Karen, subia a custo 
a escada do sto, cujo recheio era o habitual: caixas, mveis velhos, molduras rachadas e poeira, 
poeira a cobrir tudo. Havia at um manequim de costureira, de arame e tecido, enferrujado por anos 
de abandono. Nos pontos em que o telhado inclinado tocava nas paredes, a altura era de menos de um 
metro. No centro, contudo, na parte mais alta, Luke andava perfeitamente de p.

-H tempos que no venho aqui - disse Theona, enquanto abriam caminho at ao centro da diviso. 
Uma lmpada fraca era a nica fonte permanente de iluminao, o que deixava os cantos s escuras.

L est, filha - indicou Theona, apontando o centro da parede das traseiras.

E, Luke,  a minha janela!

Ele aproximou-se rapidamente, inspeccionou-a durante um momento, e depois voltou para junto das 
duas mulheres, a abanar a cabea, desapontado.

O que descobrira fora uma janela circular, como Karen tinha descrito, numa seco da parede que se 
salientava cerca de meio metro do resto da casa. Debaixo da janela havia um sli-
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do banco, com perto de um metro de altura e da largura da pequena alcova. Imaginou-a facilmente, em 
rapariguinha, sentada ali, a observar a actividade no ptio l em baixo. O assento era nu, e tanto 
quanto podia ver, nada havia no sto que pudesse interessar-lhes..

Voltou-se para sair dali, mas Karen agarrou-o por um brao.
- Espera, Luke, s mais um minuto. Tenho a sensao de que nunca mais volto a ver este stio.

Correu para a janelinha, enroscou-se em cima do banco e durante uns minutos silenciosos ficou ali 
sentada na alcova, a olhar l para fora com os olhos hmidos, contemplando a clara noite de Abril.

-- Era exactamente assim que ela se sentava em pequena
- murmurou Theona. - Fez-se uma bela mulher!

Luke acenou com a cabea, mas continuou a admirar a cena  janela. O perfil imvel de Karen, 
recortado na suave claridade da janela, dava-lhe a mesma calorosa sensao que tinha muitas vezes 
quando admirava alguns dos seus quadros preferidos no Museu de Arte de Bston. Finalmente, com 
esforo, obrigou os seus pensamentos a voltarem  realidade da situao e aproxmou-se dela para a 
ajudar a descer do banco, mas, enquanto o fazia, tocou com o sapato no rodap.

J iam a descer a escada, quando se lembrou desse som e da sensao de ter dado um pontap numa 
coisa slida e no oca como seria de esperar. Num impulso, deu meia volta, correu para o banco e deu-
lhe umas pancadinhas na parte de cima e dos lados, primeiro com firmeza e depois com a tcnica 
utilizada pelos mdicos para verificar os contornos de rgos como o corao e o fgado, mas no 
encontrou a ressonncia caracterstica duma estrutura cheia de ar.

Procurou nas caixas de carto, enquanto as duas mulheres o observavam, fascinadas e intrigadas. De 
repente, com um eureka, ergueu um pequeno martelo de madeira e comeou a bater na parte de baixo 
da borda superior do assento. Num minuto, o tampo saltou e, com as mos a tremer, meteu a mo l 
dentro. Quando a retirou, deixou-se cair de joelhos no cho poeirento.

- Nem posso acreditar que estivemos quase a desistir quase gritou. - Est aqui, Karen, exactamente 
como a tua me disse.

Um pequeno cofre rectangular tinha sido metido no espao vazio, sob o banco da janela, e preso com 
cimento de todos os lados, deixando apenas a tampa  vista.

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Karen fez incidir sobre ele a luz da lanterna e exclamou:
- Isto  incrvel! Depois de tudo o que nos aconteceu, descobrimos finalmente o grande segredo, e agora 
o Steele tem a porcaria da chave.

- Veja melhor, Karen - observou Theona, chamando a ateno da rapariga para o que Luke j 
constatara. -  um cofre! Olhe a pega e o disco com os nmeros. No h chave neste mundo que sirva 
ali.

Karen olhou para Luke durante um momento e depois desviou o olhar. A tenso e a excitao, que lhes 
tinham alimentado o entusiasmo durante os ltimos trs dias, acabavam de se esgotar como o ar que sai 
dum pneu furado. Automaticamente, Luke experimentou a pega do cofre, mas no sentiu a mnima 
folga. A resposta s suas perguntas, s suas esperanas num futuro, e at  sua sobrevivncia, estavam 
ali, a centmetros deles, centmetros que bem podiam representar anos-luz.

Por fim, declarou:

- No podemos fazer grande coisa aqui. Vamos mas  pr outra vez o assento no seu lugar e fugir, antes 
que aparea o loirao. Arranjamos um stio para nos escondermos durante uma semana ou duas e 
depois tentamos voltar c. O Steele pode ter a chave, mas nada garante que encontre este stio.

- Ah, pois - observou ela, desencorajada. - Acreditas tanto nisso como eu, Luke. O homem que ficou l 
em baixo tem uma arma. Vamos pegar nela e tentar apanhar o Steele de surpresa.

- Ora, Karen, o homem  um profissional! Alm disso, mesmo que o consegussemos surpreender, 
duvido seriamente de que fosse capaz de me servir da arma. Ests disposta a abater algum  queima-
roupa?

-No sei, mas no tenho medo. Ai, merda! Que estou eu a dizer? No, no sei se sou capaz de matar 
algum. -Bom, o melhor  no nos arriscarmos. Pelo menos, se

fugirmos agora, temos a certeza de ficar vivos e inteiros durante mais algum tempo.

- Espera, Luke - pediu Karen quando ele comeou a colocar a parte superior do assento no seu lugar - 
Vamos s pensar no assunto mais um minuto. Se o que a minha me e o Peter esconderam est ali no 
cofre, donde  a chave?

- No sei. Talvez haja outras coisas escondidas no edifcio de escritrios ou talvez a combinao do 
cofre esteja l. Tenho
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a certeza de que foi feito de encomenda, de maneira que a combinao pode ser uma coisa qualquer, 
dia de anos, nmero de telefone, qualquer coisa do gnero. Seja como for, querida, ainda tenho o 
nmero de srie da chave, de maneira que talvez possamos mandar fazer uma cpia na tal loja que 
descobriste. Vamos l, assim que encontrarmos um stio para nos escondermos. Desde que estejamos 
livres e juntos, temos uma hiptese. Cos diabos, j chegmos at aqui, ou no?

Como no obteve resposta s suas palavras de encorajamento, Luke parou de martelar os pregos do 
assento e voltou-se para ela.

-Que , Karen? - perguntou. - Que tens? -Ouviste bem o que acabaste de dizer?

-Claro, disse que desde que estejamos livres e juntos... -No, no! A combinao do cofre!

-No percebo o que ests a...

- A chave, Luke, no vs? Disseste que podiam ter feito a combinao do cofre com um nmero 
qualquer!

- Meu Deus! - exclamou ele, rebuscando os bolsos  isso, no ? Merda, no consigo encontrar o papel. 
No to dei? No, espera, acho que foi aqui que o escrevi. C est! Theona, aponte a luz para aqui. Mais 
perto, ainda no vejo. Isso mesmo, para aqui. E-quatro-seis-zero-sete-um-zero-seis. Os nmeros do 
disco vo at quantos, Karen?

, Ela tirou novamente o assento e ajoelhou-se para espreitar, com Theona a iluminar o interior.

-Noventa e cinco. No, h mais marcas. Noventa e nove, acho eu.

- Por onde comeamos? - perguntou Luke, ajoelhando-se junto a ela e pousando o papel ao lado do 
disco.

- No ests a ver? O nmero parece mesmo uma combinao - alvitrou Karen, excitada. - O E pode ser 
para rodar para a esquerda.

Luke rodou o disco vrias vezes para a esquerda e olhou para ela.

-Acho que esgotei o meu poder de raciocnio - observou. - E agora?

-Talvez isto seja s eu a imaginar: mas se os zeros no contassem a no ser para separar os nmeros da 
combinao? Cuidadosamente, Luke marcou quarenta e seis, depois voltou para a direita, parando no 
setenta e um. Finalmente, retro-
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cedeu para a esquerda, parando no seis. Olhou primeiro para Theona e depois para Karen antes de 
agarrar a pega. Os trs contiveram a respirao ao mesmo tempo, ele empurrou a pega para baixo e 
todos deitaram o ar fora quando viram que a tampa do cofre no cedia. Para ter a certeza, voltou a 
marcar os nmeros, com todo o cuidado, mas o resultado foi o mesmo.
-Bolas para a ideia - comentou o mdico, abanando a cabea, desapontado. - Estamos a esgotar o 
tempo. Mesmo que a combinao esteja no nmero de srie da chave, h milhares de maneiras de 
agrupar os algarismos. Podia levar horas a descobrir a combinao certa.

Por favor, Luke, estamos to perto! - pediu Karen. Eu sei que  assim. Ainda no te mostraste 
assustado uma nica vez em todas as situaes, nas quais estiveste envolvido at agora. De repente, 
pareces aterrorizado, d a impresso que o teu pensamento est a milhares de quilmetros daqui. Que 
se passa?

-Ests doida? Aquele louco pode voltar dum momento para o outro. Achas que vou ficar aqui sentado e 
calado enquanto ele comea a cortar-te bocados? - Com as ltimas palavras, a voz comeou a falhar-
lhe. Puxou-a para si e abraou-a com fora. - Nunca te acontece ver as coisas ao contrrio? perguntou, 
em tom carinhoso. - Estou com medo, e  realmente a primeira vez, como tu disseste. Amo-te, talvez 
mais do o que a outra pessoa em toda a minha vida, e no consigo pensar noutra coisa, a no ser em 
que possam fazer-te mal. S me interessa fugir deste stio contigo.

Karen agarrou-lhe a cabea e puxou-a para o peito.

Eu tambm te amo, Luke, e cada vez mais, mas no quero s um dia ou uma semana, e no me apetece 
passar todos os minutos a olhar por cima do ombro. A hiptese duma vida em comum permanece ali 
dentro daquele cofre e, raios me partam, estou pronta a sofrer ou a morrer, ou at a matar, para que 
isso acontea. Tens de parar de te preocupares comigo, deves  concentrar-te em descobrir uma 
maneira de abrir o cofre. Eu vou l abaixo buscar a arma do homem. Theona, fique aqui e segure na 
luz, que eu j volto.

Beijou-o suavemente e desceu a escada a correr.
Quando voltou, dois minutos depois, encontrou-o de joelhos com o queixo apoiado nos braos cruzados, 
a olhar fixamente para a tampa de ferro.
     13

-

Ele j tentou alguma coisa? - perguntou Karen a Theona. A mulher abanou a cabea.

- Luke!

- Espera, querida, tenho quase a certeza... Ai, meu Deus, j sei! - Luke sorriu-lhe. - Tinhas razo, os 
nmeros so o segredo!

- Ento porque no funcionou?

-Nunca tiveste um daqueles armrios com fechadura de combinao no colgio?

Claro, mas no estou a ver..

 o segundo nmero. Temos de passar pelo primeiro e depois parar no segundo.

Com todo o cuidado, voltou a marcar os nmeros, dando uma volta completa a seguir ao quarenta e 
seis, antes de parar no setenta e um. Depois de recuar e marcar o seis, agarrou no fecho, puxou e este 
desceu com um estalo, enquanto, com o mesmo movimento, Luke abria a pequena porta.

Deram um grito quando ele fez incidir a luz da lanterna no interior do cofre.

- Parece um livro.  teu, Karen, por isso faz tu as honras, no queres?

Com as mos hmidas e inseguras, a rapariga tirou l de dentro duas coisas: um livro encadernado e 
uma bolsa de cabedal preto to atafulhada de recortes de jornal que no fechava. Comeou a folhear 
rapidamente o livro.

- Est cheio de listas de datas e nmeros - disse ela - e h iniciais no cimo de cada pgina. Achas que 
tm alguma coisa a ver com pagamentos de proteco ou coisa do gnero?

- No sei, mas no  altura de tentarmos descobrir. Vamos j cavar daqui, est bem?

-Sim! V, tu levas isto e eu levo a arma.
- Alguma vez te serviste de alguma?

- No, mas garanto-te que, se for preciso, disparo mesmo. O mdico colocou o tampo do assento no seu 
lugar, pegou no livro e na bolsa de cabedal e abraou cada uma das mulheres antes de comear a descer 
a escada. J na cozinha, voltou-se para Theona:

- Acha que conseguimos sair daqui pelas traseiras? Ela acenou com a cabea.

- H um beco que vai dar  rua a seguir. Esperem um minuto enquanto fao um telefonema.

Marcou um nmero sem ter de o procurar.

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-Est, Charlotte?  a Theona Settles. O Jnior est a? Exactamente, quero falar com ele, e depressa, se 
faz favor,  muito importante. Est, Jnior? Daqui a Theona. Preciso da tua ajuda. Optimo, estava a 
contar com isso. Tenho aqui dois amigos que precisam de auxlio para sair do bairro, Poders arranjar-
lhes um carro? ptimo! Ela chama-se Karen e ele Luke. So brancos, mas boas pessoas, apesar disso. 
No, eu vou ter contigo. E olha, Jnior, estes pequenos tm uns malvados atrs deles. Toma cuidado. 
Bom, seja como for, talvez seja melhor veres se o Davy e o George ou alguns dos outros andam por a. 
Tens-te portado bem? Espero que sim. Obrigada pela ajuda. Eles no se demoram.

Desligou e voltou-se de novo para eles.

- Est tudo combinado. O Jnior Ellis arranja-lhes um car ro. A casa dele  fcil de encontrar, no 
quero ningum a a guiar um carro e a chamar as atenes.

- Ele vai levar-nos no carro dele? - perguntou Luke, espantado.

- Bom, eu no disse o carro dele, mas um carro. No me parece que nos ltimos dez anos, o Jnior Ellis 
ande com algum que no tivesse sido roubado. No entanto,  bom rapaz, gosta  muito de automveis. 
Agora, oiam com ateno. Seguem pelo beco que vai do ptio at  prxima rua. Depois, andam dois 
quarteires para a esquerda at  Rua da Fonte. No sei o nmero, mas ele deve estar  porta. 
Perceberam?

- Claro - concordou Luke. - Mas a senhora vem connosco, no vem? No vamos deix-la aqui.

- Eu fico perfeitamente, muito obrigada. Assim que sarem, chamo a Polcia e arranjo um belo comit 
de recepo quando o nosso amigo voltar. Vo-se l embora.

- Isto  um disparate! E se o Steele volta antes da ... ? Contudo, a frase ficou por terminar e os trs, 
contendo a respirao, voltaram-se ao ouvir passos  porta da rua.

- Depressa, ponham-se a andar! Eu fico bem - insistiu Theona no momento em que a porta se abria. 
Beijaram-na rapidamente e desceram a curta escada at  porta das traseiras.

Damian Steele trauteava uma melodia indistinta ao aproximar-se da porta do nmero vinte e dois da 
Rua Abbott, Tinha sido uma noite muito proveitosa, Apanhar Corey e a rapariga
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fora ainda mais fcil do que esperara, e Dom Alberto ficara to satisfeito com a notcia que lhe 
prometera mais vinte e cinco mil quando o trabalho tivesse terminado. Para cmulo, Brian fora 
absolutamente sensacional.

Deixando Carl a guardar os prisioneiros, steele dirgira-se directamente aos seus aposentos no Plaza, 
onde se despira e envergara um roupo de seda preta, para fazer duas chamadas telefnicas. A 
primeira, para Stonelifil, provocara grande satisfao em Dom Alberto, mas tambm preocupao 
devido  espera, at  manh seguinte, por uma loja de chaves. Steele dissera a Carl que ia tratar disso, 
mas s tencionava faz-lo de manh.

A segunda chamada fora para o quarto mil duzentos e oito do mesmo hotel.  espera, estava l Brian 
Mundt, um reputado advogado que conhecera dois anos antes num bar de Nova Iorque. Desde ento, 
passavam juntos todo o tempo que Mundt conseguia tirar  sua firma,  mulher e aos trs filhos. Para 
steele, todo o tempo seria pouco.

Mundt atendeu o telefone ao terceiro toque e, com o som da sua voz, Steele sentiu as pulsaes 
aceleradas, Tinham passado quase dois meses desde o seu ltimo encontro, e ser obrigado a dormir no 
mesmo quarto com um ignorante e suado macho como Carl Julian, sabendo que Brian se alojara dois 
andares abaixo, dera-lhe vontade de vomitar.

Mundt entrou nos aposentos de Steele sem bater, trazendo na, mo uma pequena mala com os leos, 
vibradores e outros apetrechos que gostavam de usar. Com quarenta e poucos anos, passara por 
algumas modificaes fsicas desde o seu tempo de campeo de luta no Michigan. A mulher do 
advogado achava as mudanas nojentas, mas Steele deliciava-se com elas - os msculos, outrora duros e 
bem salientes, tinham amolecido e ficado indefinidos e, alm disso, a sua cintura de setenta e cinco 
centmetros media agora quase mais quinze.

-Pensei que nunca mais ligavas - lamentou-se ele. Mais um dia  espera naquele quarto e dava em 
doido!

- Desculpa, Brian, no consegui livrar-me do estpido do Julian at h uns minutos. Deixei-o de guarda 
a umas pessoas. S temos mais ou menos uma hora, mas amanh  tarde j as coisas devem estar 
despachadas.

- Sabes, Damian, eu podia ter ficado em Nova iorque os dois ltimos dias a tratar de alguns assuntos. 
s vezes, fazes-me cada desconsiderao!

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Ao aproximar-se da esquina, abanou a cabea, admirando Karen, que, de mos nas ancas, o olhava, 
mas, j perto dela, viu-lhe a sbita expresso de terror e, quase ao mesmo tempo, o vidro traseiro dum 
carro estacionado  sua direita estilhaou-se.

- Cuidado, Luke! - gritou ela, apontando para a rua atrs dele.

Voltou-se e avistou o vulto de Damian Steele agachado em posio de disparar a uns dez candeeiros de 
si.

-Corre, Karen, que eu c me arranjo! - exclamou Luke com dificuldade.

Ela voltou-se e recomeou a correr pela Rua da Fonte, seguida de Luke, que foi ficando cada vez mais 
para trs, ziguezagueando, para no constituir um alvo fixo. A dor dilacerante que sentia na perna era 
insuportvel e a cabea balanava incontrolavelmente a cada passo. De repente, meteu o p direito num 
buraco e caiu de bruos, largando o livro e a bolsa. Os joelhos e as palmas das mos absorveram o 
impacte, o que lhe provocou novas dores nos braos e nas pernas.

Numa escurido quase total e em pnico, gatinhou  procura do que deixara cair. Durante uns 
segundos, pensou que perder       a tudo, e estava quase paralisado quando tocou com os dedos na bolsa 
de cabedal. Continuou de gatas, com os joelhos e as mos esfolados, a arder,  procura do livro, at que 
avistou Steele a apenas seis candeeiros de distncia e a correr bem. Com grande esforo, ps-se de p e 
avanou conforme pde, tentando descobrir o vulto de Karen  sua frente, mas sem o conseguir. As 
dores nas pernas, de lado e nas mos fundiam-se numa agonia crescente, tornando cada passo um 
esforo terrvel. Teve a certeza de distinguir o eco dos passos do homem que o perseguia. A cabea 
descaiu-lhe mais a cada passo, abanando dum lado para o outro, a sua velocidade diminura 
consideravelmente e comeou a suar frio quando percebeu que Steele o apanharia rapidamente.

Na realidade, isso teria acontecido em menos de um minuto, se o outro no tivesse parado no stio onde 
Luke cara, e quando retomou a perseguio levava o livro debaixo do brao. Perdera uns metros, mas 
no duvidava de os recuperar com facilidade.

Luke estava a chegar ao limite das suas foras, perdera o ritmo, os braos e pernas agitavam-se 
descontrolados, alm de que a incapacidade de avistar Karen lhe aumentava a sensao de que no 
conseguia escapar.

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De repente, ficou sem o pouco flego que lhe restava ao chocar com uma parede, na realidade um 
enorme negro parado no meio da rua, que, com calas e casaco pretos, era quase invisvel,  excepo 
do branco dos seus grandes olhos. Tinha pelo menos um metro e noventa, devia pesar mais de cem 
quilos, e o revlver na sua mo direita dava-lhe um ar ainda mais ameaador. O impacte do corpo de 
Luke teve nele mais ou menos o efeito do toque de uma pena, mas o mdico, j sem ar nos pulmes, caiu 
redondo no cho. Sem esforo, o homem estendeu um brao e levantou-o.

, - Calma, filho - sossegou-o ele numa voz forte, provavelmente incapaz de segredar. - Est tudo bem. J 
pode parar de correr. A sua amiga est ali  frente com o Jnior. V l ter com ela, que ns tratamos 
do jeitoso que vem atrs de si.

E indicou a Luke um brilhante Lincoln prateado e um negro magro numa posio descontrada junto  
porta do condutor. Ao afastar-se do negro enorme, Luke viu, pelo canto do olho, mais seis ou sete 
sarem das sombras e aproximarem-se do gigante.

Steele chegou  barricada humana, com o revlver em punho, quase ao mesmo tempo que luke 
alcanava o carro, mas compreendeu a situao e enfiou a arma de novo no cinto. No menos de meia 
dzia de homens enfrentavam-no a curta distncia de armas em riste. Percebeu que eram capazes de 
disparar. Discretamente, baixou o livro e ficou a ver Luke sentar-se ao volante do Lincoln. Quando um 
dos negros falou, Steele j decorara a matrcula do carro.

- Guardar a arma foi uma deciso inteligente, senhor .. ?
- Davis, Bill Davis,

-Espero que a Me Settles esteja bem. No lhe fez mal, pois no?

- Est ptima - mentiu ele, procurando desesperadamente algum ponto fraco dos adversrios que 
pudesse aproveitar. Contudo, no o encontrou, e embora tivesse hipteses de

abater trs ou quatro antes de algum deles conseguir disparar um tiro, com o livro em seu poder no 
valia a pena arriscar. Como quem lhe lia o pensamento, o enorme negro lanou um aviso:

- No sei que espcie de truques tem na manga, mas seria bom que os esquecesse e no tentasse 
qualquer gracinha.

- Olhem, amigos, eu no tenho problema com vocs disse Steele, tentando parecer descontrado. - 
Aquele homem roubou-me dinheiro, mais uns documentos importantes, e h

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meses que anda a tentar fazer chantagem comigo. No procuro chatices, mas quero os papis e dar-lhe 
uma lio.  importante eu apanhar esses papis. Digamos que a importncia  de cinco mil dlares. 
Tudo o que tm a fazer  deixarem-me passar e o dinheiro  vosso, para dividirem como quiserem.

O negro corpulento mirou-o da cabea aos ps durante um minuto; depois, lentamente, baixou a arma. 
Steele sentiu uma vaga de excitao ao perceber como fora fcil comprar os arruaceiros.

- Olhe, se me deixar tirar a carteira, dou-lhe j um adiantamento - disse ele, levando a mo ao bolso de 
trs das calas.

-  Mais devagar, amigo - replicou o outro, fazendo-o parar imediatamente. - No h aqui ningum que 
no deva favores  Me Settles. Felizmente para si, ela s   nos pediu que o afastssemos da rapariga e 
do namorado e no falou em dar-lhe cabo do canastro. Por isso, porque no fica a  quieto e calado? 
Quando eles se forem embora, talvez a gente o deixe dar meia volta e voltar para onde veio sem uns 
buracos novos no corpo.

Steele ficou ali, completamente frustrado, a ver o Lincoln arrancar e afastar-se lentamente rua acima, 
com os seus dois ocupantes. Para alm de anotar mentalmente a matrcula, nada mais podia fazer.

Quando o carro chegou  esquina e desapareceu, o homem dirigiu-se-lhe de novo:

- Bom, senhor Davis,  a sua vez. Se fizer o favor de colocar dez notas de cem dlares na minha mo, 
com todo o cuidado, deixamo-lo dar meia volta e regressar por onde veio.

steele fez o que lhe diziam e voltou-se, mas o homem lanou-lhe um ltimo aviso.

- Olhe, senhor Davis, deixmo-lo ir porque no temos um bom motivo para o matar.. por enquanto. 
Mas fique sabendo que, se descobrirmos que fez mal  Me Settles, a sua vida dura s at o 
encontrarmos. Por isso, pire-se. Ns vamos a casa dela daqui a pouco, de maneira que ainda lhe damos 
tempo para pr uns pensos em alguns arranhes que ela lhe tenha feito.

Menos duma hora depois, steele chegava de carro a Stonehill. O livro descansava a seu lado, e Carl 
Julian ia estendido no banco de trs. Vrios estalos na cara tinham-no acordad

parcialmente, mas continuava a piscar os olhos e a abanar a cabea, como que a tentar aclarar as 
ideias. As respostas s perguntas de Steele haviam sido vagas e sem nexo, dando praticamente a 
impresso de ter sido drogado.

Albert Julian prestou muito mais ateno ao livro do que ao filho, mas mandou-o levar para um 
quarto, guardado  vista. Examinou as pginas do livro, enquanto Steele lhe relatava os acontecimentos 
dessa noite, cuidadosamente alterados quanto ao seu paradeiro durante o tempo em que Carl fora 
hipnotizado.

-- Ento, depois de deixar as coristas negras, fui buscar o seu filho e vim logo para c.

-No paraste outra vez no stio onde o Corey caiu para ver se havia l mais alguma coisa - perguntou 
Julian, evidenciando pouca satisfao por recuperar o livro.

- No, j o tinha - respondeu Steele, ligeiramente confuso. - Olhe, se est preocupado com o Corey, no 
vale a pena. Quando muito, meteu-se num sarilho ainda maior do que antes. H mais uma mulher 
morta e as impresses digitais dele ficaram espalhadas pela casa toda. Sei a matrcula do carro em que 
fugiram e j telefonei s nossas patrulhas, e para o Corrigan, na esquadra. No se preocupe, Dom 
Alberto, que eu no espero que me pague sem o trabalho estar feito.

Julian no lhe respondeu at acabar de folhear o livro. Ento, olhou-o abanando a cabea, obviamente 
desapontado.
- Tens de l voltar, Damian - insistiu. -  preciso ires de novo ao stio onde encontraste isto.

-De que est a falar? H mais alguma coisa?

- Em toda a minha vida, nunca pedi nada a ningum seno  Nossa Senhora, mas agora peo-te a ti, 
Damian.

Steele no respondeu, vendo a preocupao evidente do homem que muitos consideravam o mais 
importante do mundo do crime. Uns minutos antes, comeara a sentir um cheiro muito desagradvel, 
que percebeu de repente ser das prprias calas, sujas pelo espasmo de morte da negra. 
Involuntariamente, estremeceu e fez uma careta de nojo, expresso que no passou despercebida a 
Julian, que o olhou intrigado.

- Ficaste ofendido com o meu pedido? - perguntou.
- No, no, Dom Alberto. Algum me mijou em cima e cheiro mal. Continue, se faz favor. Que mais  
preciso encontrar?

-  Os homens que figuram nestas listas j morreram quase
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todos e, seja como for, no so uma ameaa para a organizao, mas eu tenho a certeza de que junto 
com o livro estavam tambm uns documentos que o Peter Ferlazzo havia escondido. Desses  que eu 
preciso. Se caem nas mos erradas, pode ser o fim de tudo aquilo para que trabalhei estes anos todos.

-Mas porque no me disse logo isso?

- Dessa minha deciso idiota  que te peo desculpa, mas era realmente melhor no falar nos 
documentos ao Carl, como viste pelo seu trabalho desta noite, e achei que quanto menos pessoas 
soubessem da sua existncia, melhor.

Steele continuou sentado, em silncio, a reflectir sobre a nova informao. Os documentos, fossem quais 
fossem, tinham importncia suficiente para Albert Julian autorizar a compra do silncio de algum 
durante quase duas dcadas, para j no falar na autorizao para quatro mortes, pelo menos. Decidiu 
que viveria mais tempo se no soubesse do que se tratava.

- No precisa de se desculpar - disse por fim. - Tenho praticamente a certeza de que o Corey no tinha 
esses documentos quando caiu, mas  claro que volto l para procurar. Se no se importa, agradeo-lhe 
que continue a guardar segredo. S precisaria de saber do que se trata, se o senhor achasse que era 
imprescindvel para o meu trabalho

- Muito bem, Damian. Por agora, o segredo fica comigo, mas  essencial encontrar o mdico, a rapariga 
e os documentos o mais depressa possvel. Ligaram de Chicago outra vez e concordaram em dar-nos 
mais dois dias, depois, mandam gente de l para tratar do assunto, e eu no posso impedi-los. O que 
no falta  quem esteja  espera da nossa demonstrao de fraqueza e confuso para avanar e tomar 
conta das operaes.

- Vamos encontr-los - garantiu Steele, em tom confiante. De repente, inclinou-se para a frente e fez 
estalar os dedos, numa invulgar exibio de animao para o seu feitio. A chave, Dom Alberto! Quase 
me esquecia da chave - e tirou-a do bolso, entregando-a a Julian, que a examinou pensativamente 
durante uns momentos e depois a apertou com fora na mo, de olhos fechados, como que a tentar 
avaliar o seu significado.

- V l se estou enganado, Damian. Segundo disseste, no te parece que o Corey tivesse o livro com ele 
quando o ataste e lhe tiraste a chave, pois no?

- Correcto.
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-E depois ele, fosse como fosse, recebeu o livro da mulher sem precisar da chave. Talvez tenhas razo, 
meu amigo, talvez o Peter escondesse noutro stio os papis que procuramos. Eu fico com a chave. Vai 
com dois homens ao stio onde ele deixou cair o livro, enquanto vou falar com a nossa gente na Polcia, 
para fazerem uma busca cuidadosa  casa da velha. Assim, amanh saberemos ao certo o que esta 
chave abre. Entretanto, quero que encontres o Corey, tens todos os meus recursos  disposio.

- Obrigado, Dom Alberto, no deve demorar. Levantou-se e sentiu-se de novo enojado ao ver que as 
calas se colavam  coxa. Disfarando cuidadosamente a repulsa, Steele descolou o tecido da pele, 
dizendo para consigo que ia passar pelo hotel para tomar duche antes de fazer qualquer outra coisa. 
Quando o caso ficasse resolvido, Carl Julian pagaria caro por o ter exposto a tal vexame, muito caro

IV PARTE

--Ests quieto e deixas-me acabar de te pr a ligadura? Sempre ouvi dizer que os mdicos so os piores 
doentes, mas nunca percebi o que isso significava at agora!

A luz interior do Lincoln iluminava o suficiente para Karen lhe colocar uma ligadura na mo direita. 
Fora do carro, os ramos dos carvalhos agitavam-se na brisa matinal, varrendo ritmicamente o tejadilho 
e as janelas. Estavam estacionados no fim duma estrada de terra, na reserva das Colinas Azuis, a sul da 
cidade.

Quase sem poder agarrar o volante, luke acabara por desistir de guiar e deixara-se cair de encontro  
porta, enquanto Karen procurara, durante uma hora, uma farmcia aberta. As dores nos membros 
esfolados e o latejar nas costas no se comparavam com o desespero que sentia por ter perdido o livro.

A rapariga, possivelmente por causa dos ferimentos, no lhe fizera perguntas quando soube do 
acontecido, e os dois haviam seguido sem falar at sarem da estrada e pararem na estreita estrada de 
terra.

-Merda, essa coisa arde! - gemeu luke quando ela lhe lavou os arranhes com desinfectante,

- Disparate! - ralhou Karen. - O farmacutico disse que no. Fica mas  quieto e porta-te bem, para eu 
acabar de te tratar a mo. Quando sairmos desta embrulhada, vou pr-te em forma com umas corridas 
pela praia. Nenhum pistoleiro deste mundo ser capaz de te apanhar quando acabares o programa de 
treino que tenho para ti!

-No vamos sair da embrulhada, Karen - resmungou ele, desencorajado. - Estraguei tudo, meu Deus...

-No digas isso, luke - pediu ela, demasiado calma. -
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Estamos juntos, arranjmos um carro e escondemo-nos no arvoredo. Se pensarmos nos ltimos dias, 
no me parece to mau assim. Alm disso, ainda temos a bolsa com os recortes de jornal que talvez nos 
dem uma ideia da importncia do livro.

- Olha, o mnimo que podes fazer  ser honesta comigo! explodiu Luke. - As nossas hipteses de 
sobreviver a isto esto algures entre poucas e nenhumas, e tu ficas a sentada com essa conversa, como 
se eu fosse um menino mal-comportado. O mnimo que podes fazer..

- Pra com isso e cala-te j, doutor Lewis Sabicho! A voz dela tinha uma dureza e um histerismo 
controlado que ele nunca lhe ouvira. - Quem s tu para me dizer como hei-de lidar contigo? A ltima 
mulher com quem tiveste um relacionamento, sem ser tua doente, foi provavelmente a tua me, e 
guardo srias dvidas de que fosse bom. Bolas, Luke, eu no preciso de estar para aqui a choramingar, 
a dizer que tenho medo, que me apaixonei por ti e que receio perder-te! Tu devias saber isso tudo e, em 
vez de me desencorajares, o que tinhas a fazer  pensar numa maneira de... - calou-se to depressa 
como comeara e estendeu as mos, agarrando-lhe a cara, com lgrimas nos olhos e o lbio inferior a 
tremer incontrolavelmente.

Desculpa falar contigo assim, Luke - soluou. - Mas eu...
- Realmente atacaste-me bem - concordou ele, visivelmente irritado. - Eu no te percebo, Karen, no 
percebo mesmo. De certeza que tambm tens algumas fraquezas! Estamos aqui num salva-vidas de 
borracha a quase cinco quilmetros de terra e temos um furo. Em vez de ficares desanimada com a 
nossa situao, comeas a falar na hiptese de um peixe saltar do mar com um estojo de emergncia 
com remendos. Realmente, que te deu?

Karen ficou calada durante uns minutos, a olh-lo, e quando finalmente falou a sua voz j no continha 
fria nem o tom de  defesa anterior. Em vez disso, parecia resignada.

- Sabes o que  a doena de Guillian-Barr, no sabes? Ele acenou com a cabea, um bocadinho 
incomodado com a sbita mudana. - Bom, quando eu tinha dezasseis anos, tive essa doena, sob a 
forma de paralisia ascendente. Primeiro, fiquei com as pernas fracas e no conseguia andar bem, at 
que no podia j mexer-me do pescoo para baixo. Respirar era um esforo terrvel, e os mdicos 
disseram que tinha de ficar num pulmo de ao e que, com o tempo, talvez a infeco desapare-
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cesse e eu me curasse. Passei nove meses naquele pulmo, a olhar para a minha me e para os meus 
amigos por um espelho colocado em ngulo mesmo por cima da cara. Nove meses a ser alimentada  
colher e lavada com uma esponja; nove meses em que o sono s vinha durante duas ou trs horas de 
cada vez; nove meses que muitas vezes medi em minutos. A maior parte do tempo, limitava-me a ficar 
ali a olhar para o meu mundo minsculo atravs dum espelho redondo de quinze centmetros de 
dimetro. Ao princpio, queria morrer, queria matar-me, mas nem sequer podia mexer-me o suficiente 
para isso! Depois, comecei a concentrar-me em melhorar e decidi que, se essa fosse a minha nica 
hiptese na vida, ia mesmo ficar boa e aproveit-la o melhor possvel. Compreendi que nada podia ser 
to horrvel como o que eu estava a passar, e prometi a mim prpria que, se melhorasse, viveria cada 
momento como se fosse o ltimo. Nada de grandes depresses nem de sentimentos de piedade por mim 
mesma, nada de choraminguices. Ento, comecei a melhorar, primeiro os braos e a respirao, depois 
as pernas. Meses de fisioterapia, meses de pensar se voltaria a andar, mas voltei, e foi porque quis. 
Durante todo aquele tempo, pensei muito sobre a espcie de pessoa com quem passaria o resto da 
minha vida. Tu tens quase tudo o que eu desejei encontrar num homem, Luke, menos a aceitao e a 
excitao de viver o dia-a-dia. A  que te vais abaixo, e vejo isso como um problema, embora no 
insupervel. Seja como for, quiseste saber o motivo da minha atitude to positiva para com todas as 
coisas. S te posso dizer que...

- Chega, Karen - interrompeu-a ele. - No continues, no  preciso. Como sempre, acertaste no alvo. 
Durante anos, deixei de acreditar que ainda me podiam acontecer coisas boas. Pensei que tinha apenas 
uma vida cheia de pessoas agradecidas por eu as curar, a fim de poderem continuar a fazer algo para o 
que eu no arranjava tempo.

- Ou tinhas medo de experimentar - interveio ela. -Talvez sim, tambm. Seja como for, precisamente 
quando descubro que o que sinto pode ser um motivo para fazer coisas, uma razo para viver, esto a 
tentar tirar-me isso. Muito simplesmente, no sei se consigo aguentar muito mais.

- Quando  que percebers que no tens de lutar sozinho, nunca mais? Isso no significa nada para ti?

- Talvez quando comear a compreender que  verdade,
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Karen, lamento, palavra que sim. No desistas de mim, pelo menos por enquanto, mas continua a 
lembrar-me, que eu farei o que puder para arranjar um stio um pouco mais seguro e quente do que 
um carro roubado, estacionado no fim duma estrada de terra perdida em qualquer lado, E agora 
vamos deitar uma olhadela aos recortes de jornais.

Procurou a bolsa no cho do carro. Nesse momento Karen estendeu a mo e apagou a luz. Beijaram-se 
e ficaram abraados na escurido, com a respirao a abrandar ao mesmo tempo, at que 
adormeceram ambos.

Quando Luke acordou, horas mais tarde, o sol da manh passava por entre as rvores e fazia brilhar a 
pintura metalizada do Lincoln.

Precisou de dez dolorosos minutos para mudar da posio em que dormira. As mos e os joelhos 
realmente no lhe doiam muito, mas todos os msculos pareciam gritar  mais pequena contraco. 
Olhou pelo retrovisor e descobriu que um arranho na ponta do nariz viera juntar-se s ndoas verde-
amareladas da testa. A imagem que lhe ocorreu  mente, ao ver-se naquele espelho, foi a de entrevistas 
que tinha visto com os derrotados em combates de boxe, e as ligaduras nas mos mais acentuavam a 
impresso. Durante um instante, riu-se sozinho, ao pensar na reaco do seu scio, o Dr. Ken, sempre 
todo aprumado, se o visse naquele estado, para no falar do proeeminente Dr. Lewis T. Corey Snior.

S nessa altura percebeu que a porta do condutor estava entreaberta e que Karen e a bolsa com os 
artigos de jornal tinham desaparecido. Saiu a custo pela outra porta e coxeou pela estrada, arrastando 
a perna direita. O cu estava claro, mas salpicado de espessas nuvens cinzentas. Soprava uma razovel 
brisa de oeste e, espreitando por entre as rvores nessa direco, viu uma densa faixa de nuvens ainda 
mais ameaadoras. Duas ou trs horas at chegar uma tempestade, pensou para consigo. E que raio 
de dia  hoje, j agora?

Albert Julian tinha o auscultador do telefone preso entre a orelha e o ombro e uma expresso vazia no 
rosto, mas qualquer pessoa que o conhecesse, mesmo mal, poderia aperceber-se da
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ansiedade e agitao que sentia. A luz da manh atravessava os cortinados parcialmente fechados do 
seu escritrio, fazendo brilhar por momentos o cubo de gelo a boiar no-largo copo de usque que ele 
fazia rodar ritmicamente na mo esquerda.

A conversa que mantinha ao telefone era claramente dominada pela pessoa do outro lado, e as 
respostas de Julian limitavam-se quase a monosslabos de concordncia. Enquanto ouvia, fazia rabiscos 
na metade superior duma folha de papel, interrompendo-se de vez em quando para acrescentar algo  
lista de apontamentos na metade inferior.

Ainda no eram dez horas da manh de quarta-feira, 27 de Abril, e a ltima vez que Dom Alberto 
Juliano, agora Albert Julian, ingerira uma bebida alcolica de manh fora nove anos antes, no dia da 
morte da mulher.

- Exactamente, padrone - concordou ele, com a voz bem controlada. - No me parece que o horrio para 
La Tartaruga precise de ser alterado.

- Claro, padrone, que garantia melhor do que a minha vida posso dar-lhe ... ?

-Mas por que motivo?

- Garanto-lhe que foi drogado, e desconhece tudo sobre La Tartaruga.

-Mas  meu filho!

- Sim, padrone ...
-O Steele tambm?

- Sim, padrone.

- Dou-lhe a minha palavra. O Carl fica arrumado hoje mesmo, e o Steele assim que o material for 
recuperado. Como lhe disse, no me parece que o mdico e a rapariga o tenham. Continua escondido 
onde quer que o Peter o guardou, mas ns possumos a chave. J no deve demorar.
- Sim, meu padrone. O dia de La Tartaruga est quase a chegar, e nenhum de ns o desapontar.

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Depois de pousar cuidadosamente o auscultador, Albert Julian ficou imvel durante longos minutos, a 
olhar, sem ver, para as altas janelas estreitas da parede de fundo do escritrio. Por fim, como um rob, 
colocou o copo e o bloco numa mesa perto de si e aproximou-se das janelas. Uma faixa de nuvens 
cinzentas obscurecia o Sol e parecia deslocar-se rapidamente para nordeste.

- Il giorno per la morte - murmurou. - Acabou-se tudo para ti, Carlo, meu filho. Ests sozinho, j no 
posso ajudar-te, ningum pode.

Tinha os olhos hmidos e brilhantes, ao encaminhar-se mecanicamente para a grande secretria de 
mogno e nogueira. No canto traseiro direito, havia um longo e estreito altifalante tapado por uma grade 
de madeira, com uma fila de pequenos interruptores por baixo. Julian estendeu a mo para eles, mas 
parou, como se no conseguisse aproximar-se mais. O nico som que interrompia o silncio do 
escritrio era o estalido abafado do pndulo dum grande relgio de caixa alta, num canto.

Recuou ligeiramente, para depois, resoluto, avanar, accionando um dos interruptores. Menos de um 
minuto depois, abriu-se a porta, dando passagem a um homem que ocupava quase todo o espao da 
moldura da mesma. Quem o conhecia referia-se-lhe muitas vezes, embora nunca na sua presena, como 
o Humanide, e ningum, incluindo o seu patro e amigo mais ntimo, Albert Julian, podia ter 
arranjado um termo que o descrevesse melhor. O seu metro e noventa e cinco era apenas uma 
estrutura para a cara incrvel, numa cabea do tamanho e feitio duma bola de basquetebol apoiada 
solidamente nos ombros, no existindo qualquer vestgio dum pescoo. O corpo imenso pesava  
vontade mais de cento e trinta quilos, e os curtos braos, desproporcionados, terminavam em mos que 
fariam um melo parecer pouco mais do que um limo.

Contudo, ainda mais extraordinrio do que o seu tamanho era a total ausncia de cabelo e plos - 
Alopecia totalis. A pele luzidia do crnio caa-lhe em vrias grandes pregas, que lhe formavam a testa, 
culminando numa maior e a direito, onde deveriam estar as sobrancelhas. Os olhos eram pouco mais do 
que duas passas num mar de leite-creme, e o resto das suas feies completamente indefinvel.

Era conhecido por Victor Barker, embora tivesse nascido Vito Bacciarelli, em Palermo, h mais de 
cinquenta anos. Mata-
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ra mais de cem homens e mulheres, a maioria a pedido, para proteco de Dom Alberto Juliano, o seu 
padrone de quase trinta anos. Assim, a no ser que tivesse ido cumprir alguma misso especfica, nunca 
se afastava mais dum minuto do seu dono. Quando Julian accionou o interruptor na secretria, uma 
luz piscou e uma campainha tocou num painel no quarto de Victor, indicando que precisavam dele no 
escritrio.

Alberto Julian indicou ao gigante um forte sof perto da lareira, e o Humanide deslocou-se com uma 
facilidade e uma ligeireza surpreendente, sentando-se sem uma palavra.

- Estive a falar com Il Padrone Grande, Victor. Est com receio de que a inpcia do Carlo tenha posto 
em perigo La Tartaruga.

O Humanide replicou com uma voz que parecia lixa sobre cascalho:

- Quer que eu tome conta do menino at La Tartaruga ficar acabada?

Julian no conseguiu articular o que quer que fosse durante algum tempo, e depois respondeu.

-Quem me dera que fosse to simples, meu amigo... Passaram mais alguns minutos sem que nenhum 
dos dois falasse ou olhasse para o outro. Por fim, Victor levantou-se e, voltando-se para a lareira 
apagada, perguntou simplesmente:
- Hoje?

Albert Julian fez um ligeiro aceno com a cabea, virou-lhe as costas e o Humanide parou um instante, 
dirigindo-se depois para a porta.

- Victor - chamou Albert Julian, numa voz abafada e sem expresso. - Quando este assunto estiver 
tratado, procura o senhor Damian Steele, se fazes favor, fica com ele e ajuda-o. Logo que os 
documentos forem recuperados, ele tambm tem de ser neutralizado.

- Com certeza, meu padrone. Tenho muita pena do menino Carlo.

-Tambm eu, Victor, tambm eu.

O vento aumentara consideravelmente de intensidade quando Luke saiu do carro e foi at um pequeno 
descampado situado a uns duzentos metros do Lincoln, onde Karen se atarefava,

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baixando-se de vez em quando para apanhar pedras, que colocava depois sobre os recortes de jornal. Alis, 
pareceu a Luke que j estavam pelo menos trinta ou quarenta dispostos na erva em filas ordenadas.

A rapariga apercebeu-se da sua aproximao e parou, a sorrir, de mos nas ancas e a cabea  banda, com 
uma expresso avaliadora no rosto. Luke reparou como ela parecia fresca, enrgica e adorvel, apesar de 
tudo o que lhes acontecera.

- Pra j a! - exclamou ela, em tom alegre, colocando as mos como se segurasse uma mquina 
fotogrfica e o estivesse a enquadrar. - Quero ficar com esta cena gravada para sempre. Pareces mesmo 
sado do filme O Regresso da Mmia! Manteve as mos na mesma posio e foi descrevendo a cena com 
um sotaque britnico: - E depois, enquanto a bela Lady Karen olhava aterrorizada, Rarass IV, morto 
h dois mil anos, arrastou-se na sua direco, atravs do campo, com a sua lgubre respirao a cortar 
o ar matinal, as ligaduras penduradas e os braos e as pernas muito abertas. Ela sentiu o sangue 
arrefecer-lhe s de pensar em ter de suportar sexo com a odiosa criatura antes do caf da manh. 
Ainda se lavasse os dentes ou, pelo menos, mudasse algumas das ligaduras, pensou ela, recordando 
por momentos o retroseiro de Liverpool com quem podia ter casado. Como te sentes,  grande Ramss?

Como sempre, era irresistivel e Luke comeou a grunhir ao melhor estilo de mmia que conseguiu e a 
arrastar ainda mais a perna direita.

- Primeiro panquecas e depois quecas - rosnou ele. Desataram os dois a rir, e ela correu pela erva para 
o abraar. O beijo foi hmido, doce e imediatamente excitante. Luke deixou-se cair, puxou-a para cima 
de si e Karen deu-lhe outro beijo, passando-lhe a mo pelo corpo at acariciar a ereco.

- Meu Deus, afinal ainda h vida na velha mmia! - exclamou a jovem.

- Continua a fazer isso e eu sigo-te para onde quiseres disse ele, com um sotaque que era uma mistura 
atroz de Bela Lugosi e Boris Karloff.

A erva estava fresca, com pouca humidade e, por cima deles, as nuvens cinzentas tinham cortado o cu 
ao meio. Ficaram abraados durante um bom bocado, movendo-se ocasionalmente para trocarem um 
beijo ou acariciarem-se. Finalmente, percebendo que o mau tempo se aproximava a toda a velocidade,
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Luke rolou para o lado e sentou-se, com os braos apoiados nos joelhos.

-J os leste? De que falam? - perguntou.

-  estranho, Luke, muito estranho. S li dois, mas referem-se todos  mesma pessoa. Muitos dos 
recortes no tm datas, mas o mais antigo que encontrei  de 1955 e o mais recente de dez anos mais 
tarde. Nada a partir de 1965, at agora, mas acho que foi nesse ano que o Peter morreu, e deve ter sido 
ele a junt-los. Ainda h outros na pasta. Anda l ver o que eu fiz, tentei orden-los por datas. A maior 
parte  de jornais de Bston, mas tambm h alguns do Times. Devem significar qualquer coisa. Espera 
at veres de quem falam.

Luke levantou-se com bastante dificuldade e, de mos dadas, dirigiram-se para os artigos 
cuidadosamente dispostos no cho. Alguns eram simples fotografias, outros, notcias de vrias colunas 
com as continuaes doutras pginas coladas com fita gomada no fim. Durante dez minutos 
observaram-nos silenciosamente, ajoelhados na erva. Os recortes estavam amarelados, mas geralmente 
bem conservados. De vez em quando Luke olhava para Karen espantado e apreensivo.

A coleco seguia cronolgica e pormenorizadamente o princpio da carreira pblica e poltica dum 
homem chamado Nicholas Fearing, o mesmo que, apenas dezoito meses antes, tivera to grande 
influncia na eleio da presidncia democrtica, o mesmo que, desde a sua tomada de posse, dezasseis 
meses antes, desempenhava com tanto xito o cargo de vice-presidente dos Estados Unidos. Em suma, 
tratava-se do brilhante, expedito, vigoroso e muito adorado Nicholas Fearing, o Menino de Ouro da 
poltica americana.

De repente, docilmente, os empregados e a gerncia da Nathan goldsteyn e C.a Importaes, 
Exportaes e Armazenagem, empresa que ocupava o sexto andar do edifcio de escritrios no nmero 
trs da Praa de Bston, comearam a entrar em fila no pequeno gabinete ao fundo do trio. Dirigindo 
os seus movimentos, estava um autntico gigante, cujo aspecto assustador infundia ainda mais respeito 
devido  ausncia de cabelo e plos na enorme cabea e na cara e tambm  metralhadora que 
empunhava na sua enorme mo direita.

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Tinham colocado guardas junto ao elevador e da porta para a escada, e o Sr. Nathan Goldstein ajudava 
involuntariamente na cuidadosa e sistemtica busca de todo o andar, obrigado a isso por um revlver 
de cano comprido empunhado descontraidamente por um bem vestido Apolo.

Goldsteyn era obeso, de cara avermelhada, um fumador inveterado que pigarreava ou tossia quase 
continuamente, atirando cinza de cigarro para a alcatifa dourada e vermelha. Steele levara-o de sala 
em sala, enquanto ele praguejava interiormente ao pensar no almoo perdido com a voluptuosa 
secretria da Companhia de Comrcio do Extremo Oriente.

- Saltava-lhe para a cueca hoje, de certeza - resmungou e aparecem-me estes anormais. Depois disto, 
no querer saber de mim. L volto eu para a Shirley e para um novo episdio da epopeia A Esposa 
no Sensual. Que merda!

- Disse alguma coisa, senhor Goldsteyn? - perguntou Damian Steele.

- No, no, estava s a amaldio-lo e aos seus antepassados. Olhe, se voc me disser o que procura, 
talvez eu possa poupar a todos uma data de tempo e chatices. J lhe disse que no h dinheiro por aqui. 
S computadores, percebe? Com os computadores e os cartes de crdito, geralmente nem trago 
comigo uma moeda para um cagatrio, portanto, porque no mete os seus valentes no elevador e vo 
assaltar o joalheiro Lipshitz, no primeiro andar?

- Senhor goldsteyn, se no se cala e no afasta aquele ficheiro da parede, sou obrigado a dar-lhe um tiro 
numa das mos - replicou Steele calmamente. - Estou a ser claro?

- Que nem gua - respondeu Nathan goldsteyn, esforando-se por arredar o ficheiro.

A chave servira perfeitamente na fechadura da porta do gabinete de goldsteyn, que ficara sentado  
secretria, confuso, frustrado, irritado e a fumar, enquanto Damian Steele rebuscava cuidadosamente 
cada centmetro da diviso, o que inclua um cuidadoso exame do contedo das gavetas e ficheiros. At 
a alcatifa fora arrancada e as tbuas do cho batidas  procura dum compartimento escondido. 
Contudo, nada relacionado com Peter Ferlazzo aparecera at ali, e Nathan goldsteyn negava a ps 
juntos ter conhecido tal pessoa.

- Que empresa ocupava este andar antes da sua companhia, senhor goldsteyn? - perguntou Steele, 
examinando cuidadosamente o contedo de cada gaveta do ficheiro.

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-Viemos para aqui h oito, no, nove anos. No fao ideia de quem diabo c estava antes. Fosse quem 
fosse, espero que tivesse melhor assistncia da merda da empresa dona desta pocilga. Dois mil por ms 
por esta porcaria de gabinetes e uma morada chique. No pagamos extra pela porra das baratas.

- Meta a viola no saco, senhor Goldsteyn - ordenou Steele, nitidamente irritado. - V para o gabinete ali 
de trs com o resto da sua gente e esteja calado, para ningum se magoar.

Goldsteyn obedeceu, contrariado.

- H qualquer coisa estranha com esta chave, Victor disse Steele, andando para trs e para diante no 
estreito gabinete.

O Humanide ficou calado, mas deslocou a sua enorme cabea ligeiramente no que pareceu ser um 
gesto de concordncia. Os dois profissionais estavam sozinhos no gabinete de Nathan goldsteyn, 
enquanto este e o seu pessoal eram guardados  vista noutra diviso.

-Vamos l rever o que sabemos sobre o raio da coisa continuou Steele, embora sem esperar 
encorajamento verbal do Humanide, mas falando consigo prprio em voz alta, como fazia muitas 
vezes.

Por motivos que no compreendia nem analisava, Damian sentia um conforto e uma segurana 
inusitados em companhia do gigante, sendo fcil supor como Dom Alberto Juliano impunha respeito e 
obedincia instantneos com Victor Barker em silncio  sua direita. Enquanto andava dum lado para 
o outro e falava, Steele ia contando distraidamente pelos dedos as concluses a que chegava.

- Peter Ferlazzo quer sair da organizao, de maneira que desvia e esconde documentos que considera 
suficientemente importantes para que Dom Alberto e a sua famlia lhe garantam a vida, e pelo menos 
parte do que rouba fica escondida algures em casa da preta. Passados anos, Ferlazzo sabe que est a 
morrer e transfere o segredo do paradeiro dos documentos para a tal Evelyn Samuels, que, por sua vez, 
j s portas da morte, no hospital, d esta chave ao mdico e f-lo prometer que s a entrega  filha. 
Apanhamos ambos, e a chave, em casa da preta, ainda de mos vazias, mas depois de fugirem tm pelo 
menos o antigo livro-razo, apesar de eu possuir a chave. Seguimos o rasto desta e descobrimos onde 
serve, mas nada encontramos

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que tenha a ver com o Ferlazzo, com a Samuels, com a organizao, ou seja, com o que for. Ento a chave 
nada significa, era s para despistar? Nesse caso, porque estava com uma senhora de Cape Cod, se era 
dum escritrio em Bston? Esta hiptese no me convence, Victor, no tem lgica. Se soubssemos mais 
alguma coisa sobre a espcie de homem que o Peter Ferlazzo era e o que fazia, ajudava, mas no me 
parece que haja tempo para o descobrirmos. Alis, comeo a pensar que h mesmo pouco tempo.

Steele andava e falava depressa, com os pensamentos a atropelarem-se e a sarem-lhe da boca cada vez 
com mais velocidade. Victor Barker deixou-se ficar imvel, com os seus olhinhos pretos a seguirem quase 
imperceptivelmente os movimentos do lendrio assassino. No fundo da sua mente, procurava decidir como 
neutralizaria Damian Steele, assim que a misso estivesse completada. Mos ou arame, resolveu por fim.

- Muito bem, muito bem - dizia Steele. - Que significa isto tudo? Quer dizer, Victor, meu amigo, que temos 
de voltar a casa da preta. A resposta est l, tem de estar, e significa tambm que, provavelmente, o nosso 
doutor e a namorada ficaram com os documentos. Se assim for, devem estar a aparecer s claras daqui a 
pouco, talvez hoje. Vamos precisar de ajuda, Victor, de muita ajuda, para vigiar o scio do mdico, em 
Cape Cod, a irm e at a famlia, no Maryland, tambm o apartamento da rapariga em Nova Iorque, alm 
de quaisquer amigos ou pessoas de famlia de qualquer deles que venhamos a descobrir. Eles aparecero 
daqui a pouco, e precisaro de ajuda. Telefona a Dom Alberto, v se ele pode tratar disso. Fala tambm 
com o nosso homem da Polcia de Bston, diz-lhe que precisamos de voltar  casa de Mattapan nas 
prximas duas horas.

Encontramo-nos no hotel daqui a quarenta e cinco minutos, e seguimos para a Rua Abbot. Tu tratas dos 
telefonemas e eu do Goldsteyn e do pessoal dele. Alguma pergunta?

Os enormes ombros encolheram-se ligeiramente e a cabea de bola de basquetebol cor-de-rosa moveu-se 
uma vez para a direita e outra para a esquerda, enquanto Steele, com um curto aceno de cabea e um 
sorriso aprovador, se dirigia para o trio.

Quando Damian Steele o chamou ao trio, Nathan Goldsteyn acabara de fumar o sexto Kool, medicinal 
dum raio, cravado  sua secretria, a nica outra fumadora das doze pessoas guardadas  vista no 
apinhado gabinete.

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-Que foi agora, Harpo? - perguntou ele, com grande descontraco. - Onde est o Limpinho?

- Senhor Goldsteyn, o senhor ou  extremamente corajoso ou deploravelmente estpido, no tenho bem 
a certeza - respondeu Steele, com a voz calma mas firme que nunca deixava de impressionar e assustar 
as pessoas a quem se dirigia. - Seja como for, e por um motivo qualquer, no me apetece v-lo 
magoado. Est a perceber?

Goldsteyn engoliu em seco e concordou com a cabea, sem mais gracinhas.

- Se venho a saber que o senhor ou algum do seu pessoal diz uma palavra sobre a nossa visita, eu 
encontro todos, a comear por si, e mato-os da maneira mais dolorosa que possam imaginar. A minha 
recomendao inclui toda e qualquer agncia noticiosa que pensem contactar. Alguma pergunta, 
senhor goldsteyn?

O empresrio sentiu um espasmo nos intestinos e, percebendo que tinha de ir depressa  casa de banho, 
abanou a cabea negativamente.

- Eu perguntei-lhe se tinha alguma dvida, senhor Goldsteyn. - Cada palavra de Steele era um estalo na 
cara do homem.

-No senhor, nenhuma. - As cordas vocais de Nathan Goldsteyn estavam quase virtualmente 
paralisadas.

- Ora ento, muito bem - concluiu Damian Steele, antes de dar lentamente meia volta e conduzir os seus 
homens dali para fora.

Nathan goldsteyn correu para a casa de banho e depois avisou os empregados de que quem falasse nos 
acontecimentos daquela manh fora dali ia para o meio da rua imediatamente. Ele era muitas coisas, 
mas no deploravelmente estpido.

Seguros pelas pedras, os recortes de jornal agitavam-se como peixes presos no anzol, pois o vento 
aumentara consideravelmente. Luke pensava que tinha mudado de direco, soprando nesse momento 
de nordeste, e caam tambm algumas gotas de chuva dum cu cinzento-escuro.

Vai ser uma tempestade dos diabos, pensou para consigo.
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Como que numa espcie de confirmao csmica, ouviu vrios troves distantes, cada um mais forte do 
que o precedente.

- Acho que  melhor guardarmos estes recortes - recomendou ele a Karen, embrenhada na leitura dos 
mais recentes. J tiveste alguma grande revelao?

A rapariga abanou a cabea e comeou a junt-los, ao mesmo tempo que prometia a si prpria no 
deixar Luke perceber que comeava a sentir-se desencorajada e sem esperana. Chegmos demasiado 
longe, repetia para consigo, para agora sermos derrotados. Por isso, Karen Samuels, o melhor  
respirares fundo e deixares-te de merdas. Este homem precisa de ti, precisa da tua compreenso, da tua 
fora e de saber que nada, nem mesmo a vida, vale a pena se no pudermos ficar juntos. Tu acreditas 
nisso, confirma-o agora. Tens de o ajudar a no sentir medo.

Olhou para Luke, curvado para a frente, a juntar distraidamente os recortes. As ndoas negras e as 
ligaduras, o seu sofrimento fisico e moral fizeram-na ficar agoniada de repente. Comeou a respirar 
fundo, lentamente, tentando no vomitar diante dele, e conseguiu controlar-se, embora com 
dificuldade. Estaria tudo acabado para eles? Teria terminado antes mesmo de surgir uma hiptese de 
comear? Porqu, Deus meu?, gritou a si prpria. Porqu?

Contrada, aproximou-se dele e apanhou do cho a bolsa de cabedal preto que contivera os recortes. Ao 
curvar-se para apanhar os que j pusera num montinho, os poucos que ainda estavam l dentro caram 
no cho e esvoaaram.

Corria atrs deles, quando Luke, sem levantar os olhos, disse:

- Isto  muito menos do que eu imaginava, Karen. com certeza que andavam  procura do livro, no 
podia ser disto. Quer dizer, nem sequer sabemos quem  que coleccionou os artigos, quanto mais o que 
significam. No vejo nada de anormal, mesmo sendo o Peter Ferlazzo e o Nicholas Fearing amigos. 
Bolas, quem anda a fazer isto connosco j tem o livro, de maneira que talvez estejamos salvos, talvez 
nos deixem em paz. Que mais podem querer de ns? No achas?

No obtendo resposta, sentiu um sbito n no estmago e voltou-se imediatamente para o stio onde a 
vira pela ltima vez.

Respirou de alvio quando a viu sentada, de pernas cruza-15

das, a pouca distncia, embrenhada na leitura de um dos artigos. Abanando a cabea, resignado por ela 
no o ter ouvido, retomou a tarefa de apanhar os recortes. A temperatura baixara bastante em apenas 
alguns minutos, e os raros pingos de chuva tinham sido substitudos por um nevoeiro empurrado pelo 
vento.

- V l, querida! - chamou Luke. - O temporal est quase em cima de ns. Vamos outra vez para o 
carro pensar no que havemos de fazer, Sabes, eu estava a dizer que agora que o livro caiu nas mos 
deles, talvez estejamos safos, talvez j nem andem atrs de ns.  claro que ainda temos de enfrentar 
uma acusao de homicdio, mas algum h-de ouvir-nos e acreditar em ns, no achas?

Pela segunda vez, a sua pergunta ficou sem resposta e as suas especulaes sem discusso.

-Tu ests bem, Karen?          perguntou Luke, j bastante preocupado.

-Estou, claro que sim         respondeu ela. - Olha, pe aqui esses recortes. Vamos para o carro, que eu 
quero mostrar-te o que descobri.

-Encontraste alguma coisa? Bom, ento conta. Que foi?
- Digo-te assim que estivermos abrigados. Est a comear a chover a srio e, se calhar, at nem  
importante.

Contudo, ela sabia que isso no era verdade. Ento, percorreram apressadamente os ltimos metros at 
ao Lincoln sob uma carga de gua. As copas dos carvalhos protegeram-nos um pouco da chuva, mas a 
escurido aumentava o efeito dos frequentes relmpagos, pois os troves eram quase contnuos. 
Molhados e sem flego, enfiaram-se os dois dentro do carro pela porta do lado do passageiro. O rudo 
do dilvio no tejadilho acrescentava o fogo de armas ligeiras ao da artilharia pesada dos troves. Luke 
fechou os olhos durante um momento, relembrando vivamente sensaes experimentadas na selva com 
tiroteios reais, milhares de anos antes e a milhes de quilmetros de distncia.

Nunca me senti realmente assustado naquela altura, nem uma s vez, pensou para consigo. Porque 
estarei agora a suar e a tremer?

Abriu os olhos e viu que Karen o fitava.

-  a guerra? - perguntou ela, como se estivesse dentro dos seus pensamentos.

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- s de mais, sabias? s parecida com Afrodite, corres como Hermes e, nas horas vagas, ls o 
pensamento das pessoas. Bom, na qualidade de algum que  parecido com Marte e corre como Zeus 
com gota, deixa-me garantir-te que no consigo adivinhar nem o mais bsico dos teus pensamentos. 
Ento, porque no me mostras o que descobriste?

Karen metera o sobrescrito na blusa para no se molhar e, sem uma palavra de explicao, entregou-
lho.

Era velho, bastante velho, e estava amarelado. A letra era pequena e certa, feita com caneta de tinta 
permanente, caracterizada pelo curioso desenho da vogal a e de algumas consoantes. O remetente, em 
duas curtas linhas, dizia: Domenico Ferlazzo; Ragusa, Siclia. A morada era: Sr. Peter Ferlazzo, 
Companhia de Produtos do Nordeste, Praa de Bston 3, Sala
703, Bston, Massachusetts, Estados Unidos da Amrica.

No canto inferior esquerdo da frente e no canto inferior direito das costas, lia-se Confidencial e 
Pessoal. O selo era italiano e o carimbo dos correios estava ligeiramente borrado e apagado.

 luz interior do carro, Luke teve quase a certeza de ver
1946 no carimbo, mas fosse ou no esse o ano, a carta tinha provavelmente sido enviada havia mais de 
trinta.

No tentou dominar o tremor das mos, ao abrir o sobrescrito para tirar de l o contedo. A chuva 
continuava a cair com toda a fora, mas Luke Corey nem dava por isso, como tambm no sentia as 
dores no corpo. Mesmo antes de desdobrar as frgeis folhas amareladas, sabia: o motivo da 
perseguio do terror, de todo aquele pesadelo estava ali na sua mo.

A carta tinha duas folhas e meia de meticulosa caligrafia e a data de 4 de Janeiro de 1946 ao alto, no 
lado direito. Os cantos de duas das folhas tinham desaparecido mas, fora isso, as pginas estavam 
intactas.

Comeava com Carissimofratello e acabava com Con affezione immortale, Domenico, e em toda a carta 
havia s meia dzia de palavras que Luke conseguia entender, visto estar escrita em italiano.

Olhou para Karen e encolheu os ombros, com uma expresso de esperana.

- Que tal  o seu italiano, minha senhora? - perguntou.
- Clssico ou contemporneo? - inquiriu ela, com um sorriso modesto.

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-Quer dizer que falas mesmo?

- N! Nem uma palavra -- admitiu Karen. - Que maada, no ? - e riram ambos. -A srio, 
Luke, que achas?
- Acho que talvez seja importante, mas precisamos de arranjar a traduo,  o que . At l, 
ficamos sem ter a certeza. -No me refiro  carta, palerma, mas sim  fotografia! -Fotografia? 
Mas eu no vi...

-No sobrescrito. Procura bem.

Estava metida num canto. Uma fotografia quadrada, com sete centmetros de lado, 
incrivelmente bem conservada. Nitidamente trabalho de amador representava um rapaz, no 
fim da adolescncia, de p diante duma grande manso, com ar solene. Tinha uma camisola 
escura de gola alta que, juntamente com o seu cabelo escuro e grosso, emoldurava um rosto 
bastante atraente, de feies bem esculpidas. No parecia muito  vontade.

- Pouca tcnica, mas a cara  mais ou menos familiar comentou Luke.

- Tu no existes, Luke! - exclamou a rapariga, abanando a cabea de espanto.
A que te referes?

-Olhe outra vez para a fotografia, doutor. Ser que pode haver alguma dvida?

Luke obedeceu at que os olhos se lhe abriram de espanto. Mais uma vez Karen tinha razo, 
no podia mesmo haver dvida. A idade modificara bastante o jovem, mas o cabelo, os olhos e 
o feitio da boca pouco se tinham alterado. O rapaz da fotografia era o vice-presidente 
Nicholas Fearing.

- O Corey tem os documentos, os documentos todos. Agora tenho a certeza, Dom Alberto.

Damian Steele estava estendido no sof dos seus aposentos no hotel, a falar ao telefone, e 
olhava aprovadoramente para a sua nudez bronzeada, contraindo um msculo de cada vez. 
Brian MundI, s com umas cuecas de seda azul-clara, sentava-se do outro lado da sala, a 
fumar cachimbo e a olhar para a rua, com um ar satisfeito. Como de costume, valera a pena 
esperar por Damian.

- Deixe-me contar-lhe tudo o que fizemos. Tenho a certe-
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za de que concorda com o facto de os documentos j no estarem escondidos... Estou sozinho, sim. 
Porque pergunta? O Victor? Ficou no quarto dele. Tem sido uma grande ajuda, Dom Alberto. 
Obrigado pela sua sugesto de trabalharmos juntos.

Mundt atravessou a sala e entregou-lhe uma bebida, enquanto ele continuava a relatar o encontro com 
Nathan Goldsteyn e a posterior visita  casa de Theona Settles.

- A ligao era entre a preta e o seu amigo Ferlazzo. Descobrimos marcas no p do sto e num assento 
de janela, desmanchmos o banco e encontrmos um cofre metido em cimento no espao interior.  um 
cofre Argus, de Bston, de maneira que eu e o Victor fomos l discutir o assunto com o director da 
firma construtora. Precismos de cinco mil dlares e da promessa de certas coisas desagradveis, mas 
ele acabou por ver as coisas  nossa maneira, ou seja,  do Vietor, e deu-nos a combinao, mas o cofre 
est vazio, Dom Alberto.

Enquanto Steele ouvia, Mundt ajoelhou-se a seu lado e comeou a massajar-lhe os msculos da coxa 
direita. Tapando o bocal, ele sorriu e segredou:

-Agora no, meu idiota!

Mundt retribuiu o sorriso, deu-lhe uma palmadinha entre as virilhas nuas e voltou para a cadeira do 
outro lado da sala.
- No, Dom Alberto, no disse. A chave? Bom, isso tambm me incomodava, e s percebi quando voltei 
para o hotel. O seu Peter Ferlazzo, que era um homem muito cuidadoso e muito esperto, utilizou o 
nmero de srie da chave para o segredo do cofre. O Corey devia saber isso e tinha o nmero consigo, 
estou certo que sim, Dom Alberto. Nem consigo imaginar como o senhor podia ter sobrevivido todos 
estes anos e chegado aonde chegou, se os seus amigos e consultores no fossem cuidadosos... No, nem 
uma palavra sobre o mdico ou a rapariga. A Polcia emitiu um mandado de captura deles e do carro, e 
acho que j no deve faltar muito para termos novidades, mas tambm penso que talvez seja 
importante eu conhecer mais qualquer coisa sobre o que eles tm em seu poder. Diga-me o menos 
possvel sobre os documentos, para no haver qualquer falha depois de os apanharmos... Uma carta e 
uma fotografia,  tudo. Em italiano? Ainda bem, porque no sei uma palavra e no me interessa ficar a 
par do contedo dessa carta... Pois , eles tm de aparecer daqui a pouco e nessa altura apanhamo-los. 
Eu quero o Corey, Dom Alberto, estou morto por o apa-
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nhar, e quando desejo uma coisa com tanta fora, consigo-a. O senhor sabe disso, no sabe?... Devo-lhe 
uma por ter drogado o Carl... Qu? Ai, Dom Alberto, lamento muito. Quando  o enterro?... Vou 
plantar as orelhas do Corey na campa do seu filho, Dom Alberto, prometo! Sim senhor, telefono assim 
que o apanharmos. Obrigado, Dom Alberto.

steele desligou, encaminhou-se lentamente para Mundt e comeou a massajar-lhe a nuca com fora.

- Algum me poupou o trabalho de pagar  besta do Carl os problemas que me causou. Olha, acho que 
assim podemos estar mais tempo juntos. Tens alguma coisa que fazer neste momento?

Um extenso ncleo de baixas presses cobre todo o Nordeste e mostra poucos sinais de se afastar. 
Portanto, at que o sistema de altas presses que est sobre os Grandes Lagos comece a exercer a sua 
influncia, a chuva e o tempo instvel mantm-se. A previso , pois, de chuva e trovoadas, 
ocasionalmente severas, persistindo pelo menos at amanh  noite ... 

O Lincoln arrastava-se em direco a Bston, preso no trnsito da auto-estrada do Sudeste. A chuva 
ininterrupta obrigava a diminuir a velocidade ainda mais do que habitualmente, numa via conhecida 
depreciativamente pelos habitantes da Nova Inglaterra como o maior parque de estacionamento do 
mundo. Karen inclinou-se para a frente e aumentou o volume do rdio. Vestia roupa nova, calas 
Levis, uma camisa aos quadrados e uma camisola azul-escura, que lhe realava os seios pequenos e 
firmes, tudo comprado no Centro Comercial Braintree. Luke olhou-a e sentiu um calor percorrer-lhe o 
corpo. Era a mulher mais encantadora, meiga e vibrante que j conhecera, pensou.

- Ouve l uma coisa, Karen - pediu. - Tive uma ideia.
- Sorte de principiante - comentou ela sorrindo, o que fez o corao dele dar um salto.

- Que gracinha! - replicou, continuando: - Nestes ltimos dias, temo-nos dado cada vez melhor e fomo-
nos adaptando a todas as situaes que nos surgiram, no foi?

- E?

-E aqui estamos agora metidos num bloco de metal que se desloca dois centmetros por hora.

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-E ento?

- Ento, pomos o navio em piloto automtico, vamos  superficie de dez em dez minutos, para verificar 
a posio da prxima estao de servio, saltamos para o banco de trs e tentamos entrar para o 
Guinness.

- Ena, ena, doutor! Talvez no tenha ideias com muita frequncia, mas quando tem...

- Mas que achas?

- Acho que olhes para a estrada e eu ponho a cabea no teu colo. Talvez no se estabelea um recorde, 
mas, pelo menos, no acabamos enfiados numa vala.

- Olha que no sei...

Inclinou-se para ela e deu-lhe um beijo no cabelo radioso, antes de Karen se estender no banco e 
encostar a face no colo dele.

Luke ia baixar o som do rdio, quando comearam a ouvir notcias acerca do homicdio de Theona 
Settles. De olhos fechados, agarrados um ao outro, em silncio e imveis, escutaram a voz impessoal do 
locutor, a faz-los cair de novo no pesadelo. O corpo fora encontrado pela Polcia pouco depois das trs 
da manh, a seguir a uma informao annima, e, segundo o resultado da autpsia, tinha sido 
estrangulada no mais de duas horas antes. Havia sido emitido um mandato de captura em nome do 
Dr. Lewis Corey, cujas impresses digitais estavam espalhadas por toda a casa da mulher assassinada. 
Aquele era j procurado pela Polcia por ser suspeito de ter violado e estrangulado a modelo Connie 
Evans num hotel de Bston, trs dias antes.

A mo de Karen ia apertando mais o joelho de Luke  medida que a notcia prosseguia. Pensava-se que 
Corey viajava com uma mulher, Karen Samuels, de vinte e seis anos, um metro e sessenta, loira, de 
olhos azuis. A ltima informao sobre eles era que utilizavam um Lincoln Continental prateado, 
roubado, com matrcula de Massachusetts nmero 648-P.IC. Quem os avistasse devia entrar 
imediatamente em contacto com a Polcia e usar do mximo cuidado ao aproximar-se dos suspeitos, 
pois podiam estar armados e deviam ser considerados extremamente perigosos.

-Ela sabia, no sabia, Luke? - perguntou Karen.

- Sabia, sim - respondeu ele, desligando o rdio. - Provavelmente, demorou-o o suficiente para 
podermos fugir.

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- Temos de os fazer pagar, Luke, e tambm pela Connie, coitadinha. Raios os partam! Theona era uma 
mulher fantstica
- e Karen endireitou-se, com a cara enterrada nas mos.

- Primeiro, precisamos de descobrir quem so - observou ele - e antes disso pirarmo-nos desta estrada. 
Eles tm a descrio do carro e at a matrcula, caraas! O Steele deve estar em comunicao directa 
com a Polcia, que faz exactamente o que ele manda. Merda! Mesmo que pensssemos entregar-nos e 
arriscar, isso agora ficou fora de questo. Mais uma hiptese que vai  vida e, que eu saiba, s temos 
mais outra...

- Arranjar a traduo da carta e descobrir o mistrio.

- Claro, mas primeiro temos de sair da porcaria da estrada. Se o tipo que vem aqui atrs ouviu o 
mesmo posto que ns, j podemos estar lixados. Vou tentar aquela sada ali adiante e depois vamos at 
Cambridge por estradas secundrias que eu conheo bem.

- Cambridge?

- Quero ver se encontro algum do Departamento de Italiano de Harvard que possa traduzir a carta. 
Enquanto trato disso, tu podes comear a procurar na Widener.

E uma biblioteca?

 a biblioteca, saloia! Eu trato da carta e tu do Nicholas Fearing.

Incrivelmente, o trnsito diminuiu de intensidade de repente, permitindo a Luke sair da auto-estrada e 
dirigir-se para Cambridge pela Avenida Morrisey, mas no podiam seguir muito depressa, por causa 
das ruas alagadas com a chuva que no parava.

Da a uma hora e meia, no entanto, estavam na Avenida de Massachusetts, em direco  Praa de 
Harvard.

- Achas que  seguro continuar muito mais tempo neste cargueiro? - perguntou Karen.

- No, tenho a certeza de que j estamos a abusar da sorte, mas que podemos fazer?  pena no 
conseguirmos falar com o nosso amigo Jnior para trocarmos de carro. - Soltou uma gargalhadinha e 
abanou a cabea.

- Encosta ali, Luke, ali! - exclamou ela de repente.

- Onde? Que viste? - perguntou Luke, to alto que ambos se sobressaltaram.

- Naquele parque de estacionamento. Entra ali - indicou Karen, apontando para um edifcio baixo com 
uma grande ta-
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buleta encarnada e azul que dizia Parque coberto - mximo trs dlares.

Encolhendo os ombros, Luke reprimiu as cem perguntas que lhe apetecia fazer, virou para o parque de 
estacionamento, tirou o bilhete da mquina e comeou a subir a rampa. Encontrou lugar no segundo 
nvel e arrumou o Lincoln. Ainda o carro no tinha parado e j Karen estava fora dele, a andar 
apressadamente ao longo das filas de carros estacionados.

- Anda c e diz-me o que estamos a fazer! - pediu Luke. Ela parou e voltou para trs, olhou a cara dele 
e esfregou o queixo, como um professor  procura de palavras para explicar um conceito difcil a um 
simplrio.

- Sabes como se rouba um carro fechado  chave?
- No, porque perguntas? Tu sabes?

- Claro que no - respondeu ela, fazendo um beicinho teatral -, mas acho que consigo descobrir como se 
rouba um par de chapas de matrcula. Talvez no ajude muito, mas pelo menos ficamos com uma 
vantagem que no temos agora, certo?
- Luke anuiu com a cabea e sorriu da ideia dela. - E precisamos mesmo do carro, certo? - Mais uma 
vez, recebeu um aceno de cabea.

- Pronto - continuou Karen. - Tu procuras uma matrcula com trs algarismos e trs letras, como a 
nossa, e eu vou l fora comprar uma chave de fendas e um alicate.

- Sim, patro, mas porque queres uma matrcula parecida?
- Meu filho, meu filho - disse ela, abanando a cabea -,  para o dono do carro ter menos hiptese de 
descobrir que a sua matrcula  nova. Agora, despacha-te! - e, voltando-lhe as costas, dirigiu-se para a 
sada.

- s realmente espantosa, sabias?        quase gritou Luke.
- Tenta encontrar um Volkswagen           respondeu Karen, num murmrio. - Os donos desses carros, 
geralmente, no tm cartes de crdito, de maneira que h menos hipteses de precisarem de olhar 
para a matrcula.

De facto, s quase quatro semanas depois  que George Karajanian, um vendedor duma loja de mveis, 
reparou que as placas de matrcula do seu Volkswagen no eram as que deviam ser, e foi por 
intermdio da Polcia, depois de passar um sinal vermelho, alm de que perdeu uma noite inteira de 
corridas de galgos antes de o assunto se resolver.

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O professor Alexandre DAmbrosio estava a dar os ltimos retoques no exame final de introduo ao 
italiano quando Luke lhe bateu  porta.

- Entre, se faz favor - exclamou DAmbrosio.

Era um homem magro, provavelmente no princpio da casa dos cinquenta, pensou Luke, com culos de 
aros de tartaruga e alguns cabelos brancos, o que lhe dava um perfeito ar de professor universitrio. Os 
olhos eram castanho-escuros e possuam uma expresso calorosa, aumentada pelos ps-de-galinha ao  
canto de cada um. Luke gostou imediatamente dele.

- Tem a certeza de que procura o Departamento de Italiano  e no a enfermaria? - perguntou 
DAmbrosio, observando as  mltiplas ndoas negras e as mos ligadas de Luke.

- Tive um desastre de moto - explicou este, encolhendo os  ombros e esperando parecer  vontade. - 
Falei com a sua secretria, professor, e ela disse que o senhor podia ajudar-me.

- Bom, ela deve saber se posso ou no. E a minha Sexta-Feira h tanto tempo que qualquer dia tenho de 
lhe chamar Sbado! - Luke conseguiu aumentar ligeiramente o seu sorriso, embora com algum esforo. 
- Porque no comea por me dizer o seu nome? Parece-me um bocadinho velho para estudante.

- E at para finalista. Sou mdico interno no hospital de Cambridge. Tom putriam.

DAmbrosio levantou-se e estendeu-lhe a mo, mas parou quando reparou novamente nas ligaduras de 
Luke.

- Bom, doutor putriam, em que posso ajud-lo?

- Gostava que me traduzisse uma carta - pediu Luke, sentando-se numa cadeira do outro lado da 
secretria do professor.
- Para italiano ou para ingls? - perguntou DAmbrosio,

sorrindo, o que ajudou Luke a ficar um pouco mais  vontade.
- Para ingls, nem pensei que algum pudesse querer o contrrio.

- Realmente, poucos querem. Ento, diga-me l que carta  essa, doutor.

Luke entregou-lha por cima da secretria coberta de papis.
- Encontrei-a no sto, num ba cheio de papis velhos e fotografias. Era tudo em ingls, excepto esta 
carta, e estou com curiosidade de saber de que se trata. Parece ter sido escrita h mais de trinta anos.

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-Pois parece - concordou DAmbrosio, distrado. Estava j a ler a segunda pgina e da a uns minutos 
acabou, mas quando voltou a olhar para Luke, toda a simpatia tinha desaparecido dos seus olhos, 
substituda por uma mistura de confuso e preocupao.

- Pode dizer-me mais alguma coisa sobre esta carta, doutor Putriam? Quem a escreveu ou quem a 
recebeu, por exemplo?
- Na verdade, no, senhor professor - respondeu Luke. S sei que a maior parte do que estava no ba 
havia pertencido ao av da minha mulher, que, segundo ela, tinha uma ligao qualquer com a Mafia. 
Por isso estamos ansiosos por traduzir a carta.

DAmbrosio fixou os seus olhos escuros em Luke e ficou assim durante quase um minuto. Depois, 
resignado, tirou um bloco da gaveta e passou-lho, juntamente com uma caneta.

- H algumas palavras que no so fceis de traduzir para ingls, doutor Putriam. Vou tentar 
encontrar o termo ou ideia que achar mais aproximada. Se ditar muito depressa, diga, e eu falo mais 
devagar.

- Sim, senhor - concordou Luke, consciente de que o professor o olhava fixamente.

DAmbrosio comeou a traduzir a carta numa voz lenta e montona, com a mesma animao dum 
funcionrio de tribunal. Luke no teve dificuldade em escrever tudo, mas,  medida que o conted  *o 
se revelava, comeou a sentir um suor gelado, primeiro debaixo dos braos e depois no corpo todo. 
Quando o professor acabou, tinha o pulso acelerado e a respirao alterada ao ponto de sentir tonturas.

Ficaram os dois sentados, sem falar, enquanto Luke examinava a carta. Era o motivo, sabia-o agora, de 
tantas mortes e da descida do valor da vida dele e da de Karen, mais rpida do que a da bolsa em 1929. 
Leu sem levantar os olhos para DAmbrosio, mas parando de vez em quando e fechando-os, para evitar 
que o gabinete andasse  roda.

Querido irmo,                     4 de Janeiro de 1946

Esta  com certeza a ltima vez que tens notcias minhas. As dores so to grandes agora que preciso de 
tomar remdios com intervalos de poucas horas. Os mdicos ofereceram-se para me operar de novo, mas 
com
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pouca ou nenhuma garantia de xito, de maneira que recusei.

Contudo, estou pronto, Peter. chegou a hora e estou preparado, graas a ti. Conheces-me o suficiente, 
tenho a certeza, para compreender que me aguentaria vivo, fosse como fosse, at o meu filho ficar com 
o.futuro garantido. Agora, em paz, posso aguardar a minha morte.

Foram bons tempos os nossos, meu irmo, antes de eu ser deportado, mas as lembranas desses anos 
ajudaram-me a passar muitos tempos dificeis e vo comigo para a campa.

Agora chegou a vez do Nicholas, o teu sobrinho, o meu filho, levar uma vida na Amrica como eu nunca 
pude ter. O dinheiro que te mandei  para ser utilizado da seguinte maneira:

- Vinte mil dlares para a passagem e documentos da sua nova identidade;

-- Cinquenta mil dlares para o Nicholas e a sua nova famlia, incluindo a sua educao numa 
universidade americana;

- Vinte mil dlares para ti.

Tens de conseguir a transio para a sua nova vida de maneira que no reste qualquer ligao a mim ou a 
qualquer membro da famlia; ele deve ter a hiptese de seguir o seu prprio caminho.

Nicholas  um rapaz brilhante, Peter um gnio, dizem alguns. J fala ingls e francs como um nativo, e 
os professores dizem que a sua compreenso da histria e da matemtica  espantosa.

Finalmente, quero falar-te da execuo que o Nicholas levar a cabo para ti e para o Dom Alberto. Ele 
concordou, porque eu lho pedi e, como j te disse, eliminou trs homens por mim indicados, o Molinaro, o 
Secchi e o Aranha, todos enviados para c pelo Provone. Digo-te os nomes deles s para poderes garantir 
ao teu padrone que o trabalho vai ser feito calma e eficientemente,  maneira do Nicholas. Contudo, tens 
de te lembrar, Peter, de que esta execuo tem de ser a ltima que alguma vez lhe  exigida;  o meu 
pedido de morte para ti.

O Nicholas recebeu ordem para ficar aqui em casa depois de eu morrer.  espera das tuas instrues. 
Envio-
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-te estas fotografias recentes, para o passaporte dele e para outros documentos que tens de mandar fazer

Deus te acompanhe, meu irmo.

Com eterna amizade, Domenico

- Fascinante - comentou DAmbrosio finalmente, recostando-se na cadeira e juntando as pontas dos 
dedos das duas mos, pensativo. - Havia algum nome no sobrescrito? Tem alguma pista quanto a estes 
Peter e Nicholas?

- Nenhuma - respondeu Luke, demasiado depressa.

- Se no se importa, gostava de ficar com uma cpia para a minha prpria informao e estudo. Talvez 
com alguma pesquisa consiga descobrir qualquer coisa sobre as pessoas relacionadas com esta carta 
espantosa.

- ptimo, eu fao uma cpia a mais e trago-lha amanh
- gaguejou Luke, lembrando-se nesse momento de ter visto uma fotocopiadora no gabinete da 
secretria do professor.

- Muito bem - concordou DAmbrosio. - Entregue-a  Barbara, se eu no estiver c.

Luke tentava perceber porque no teria o professor sugerido exactamente essa fotocopiadora, quando 
ele se levantou com um aceno de cabea, indicando que o tempo se tinha esgotado. Agradeceu-lhe, 
pegou na carta e na traduo e recuou, consciente dos olhos fixos nele.

Ao voltar-se para agarrar o puxador da porta, DAmbrosio falou, e as suas palavras, pronunciadas 
calmamente e sem vestgios de crtica, feriram Luke como punhais.

- Gostei de o conhecer, doutor Corey. S lamento que tenha sido em circunstncias to dificeis.

Luke ficou imvel, de olhos fechados, virado para a porta. O professor torturou-o com alguns 
momentos de silncio, e depois abrandou o golpe.

- Descontraia-se, Lewis. Volte-se, eu no sou uma ameaa para si.

Luke voltou-se com dificuldade, obrigando-se a enfrentar o olhar de DAmbrosio.

- Senhor professor.. como  que ... ?

- O seu pai, Luke. Fizemos parte de vrios comits juntos,
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quando ele pertencia  universidade, e sempre apreciei as conversas que tnhamos no fim daquelas 
horrveis reunies, Sigo o seu caso nos jornais desde o princpio e no consigo perceber como...,

-  uma histria longa e complicada, senhor professor interrompeu Luke. - S posso dizer-lhe que no 
sou culpado e que, ao traduzir-me esta carta, talvez me tenha ajudado a chegar ao fundo da questo.

- Se eu puder fazer mais alguma coisa...

- J fez mais do que eu podia esperar, senhor professor disse ele, recordando Connie Evans e Theona 
Settles. - Obrigado.

- Lembre-se de que estou aqui para o ajudar - concluiu DAmbrosio, quando Luke saiu do gabinete.

- Para um homem que no existiu durante o primeiro tero da sua vida, o Nick Fearing no se saiu 
nada mal! - comentou Karen, com a cadeira inclinada para trs no cubculo de leitura, a roer a borda 
dum copo de papel ainda meio cheio de caf morno.

A mesa diante dela estava coberta de folhas escritas dos dois lados com a letra ornamentada mas 
desenvolta que era a su marca registada desde a faculdade, e Lukc achou-a invulgarmente 
desmazelada, com a fralda da camisa azul-clara a aparecer debaixo da camisola azul-escura e uma 
madeixa de cabelo amarelo-palha cada na testa.

- Que achas da carta? - perguntou ele, estendendo a mo para lhe arranjar o cabelo, mas retirando-a 
logo ao verificar que gostava dele assim.

- No tem grandes surpresas, acho eu, a no ser os crimes. Condiz com o que se sabia at aqui. O que 
me parece cada vez mais assustador  que, para alm de assassino e vice-presidente, o Fearing deve ter 
uma organizao incrvel atrs dele... ou por baixo dele. Quem sabe?

- Continua, querida - pediu Luke.

- Bom, pensa no que nos aconteceu. At agora, sabemos que tem gente em Cape Cod, incluindo o 
corrupto do chefe da Polcia, em Bston e, com um bocado de sorte, nos jornais, na

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rdio e na televiso. Localizaram-nos em casa da Theona uma hora depois de l chegarmos, h homens 
a vigiar a casa da tua irm, provavelmente puseram-lhe o telefone sob escuta, e isto tudo com o Fearing 
a oitocentos quilmetros de distncia, em Washington. Meu Deus, Luke, sabe-se l o que enfrentamos! 
Mas neste momento aposto que  mais do que estamos dispostos a acreditar.

O mdico suspirou e comeou a fazer furos no copo de papel, enquanto digeria o que ela dissera. Podia 
haver buracos no copo, mas na lgica dela  que no. Mecanicamente, pegou na fotografia do jovem 
Nicholas FerlazzoFearing e colocou-a diante deles.

- No tem muito ar de assassino - comentou Karen, pensativa.

- O Baby Face Nelson tambm no tinha - replicou Luke, num tom lgubre. - Isto est quase a tocar as 
raias do inconcebvel. Como diabo pode um embusteiro ser eleito vice-presidente dos Estados Unidos? 
No  suposto verificarem os antecedentes e a famlia dos candidatos?

- Acho que sim - disse Karen -, mas depois de ouvires o que eu descobri, no me parece que possas 
culpar algum por no desconfiar. O tio Peter e os amigos dele eram imaginativos e perfeitos, no 
deixavam pontas soltas, excepto, acho eu, a carta e a fotografia. E, portanto, ns. Que tal te sentes como 
ponta solta?

- Como quem est agarrado a uma corda demasiado curta respondeu Luke - e j devemos ter chegado 
mesmo a ponta.

- Por favor, Luke, v l se te animas - disse ela, zangada. - Descontrai-te e ouve mas  a biografia que eu 
fiz do czar Nicholas. Depois, se no conseguirmos resolver como liavemos de agir, deixo-te afundar no 
pessimismo at onde quiseres. Est bem?

luke sorriu, deu-lhe um beijo e recostou-se na cadeira. -Nicholas Mark Fearing - comeou ela - nasceu 
em PowelI, Montaria, no dia seis de Novembro de mil novecentos e vinte e oito. Escorpio, no era de 
prever? Os pais eram o falecido reverendo Joseph Fearing e a tambm falecida sua esposa, Mary. E isto 
 que  o mximo, Luke, esta gente era sabida. Dois anos depois, o bom reverendo e a mulher 
supostamente pegaram no seu forte rebento e foram para frica como missio-
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nrios. No consegui encontrar uma palavra sobre o seu destino concreto e o que l fizeram, mas 
aposto que existe algures uma floreada descrio das suas boas obras. Seja como for, aps uma 
prolongada estada no continente negro, os Fearing voltaram para os Estados Unidos em...

- Espera! Deixa-me adivinhar - pediu Luke -, em mil novecentos e quarenta e seis.

- Brilhante e certo, meu querido, ora a tens. Dezassete ou dezoito anos esfumados na calma - e Karen 
estalou os dedos com tanta fora que fez eco no silncio da biblioteca.

-Mas os registos, a certido de idade... Com certeza que deve haver..

- Posso continuar ou queres ser tu a estrela?
- Desculpa.

- Tambm pensei nisso, de maneira que liguei para a conservatria do Registo Civil de PowelI, 
Montaria. A funcionria no pareceu espantada com as minhas perguntas e deu-me a entender que eu 
era apenas uma das muitas pessoas que queriam informaes biogrficas sobre o primeiro filho, de 
Powell. E depois fez-me uma conversa semipreparada, louvando as virtudes do Fearing e as suas 
contribuies para o bem da humanidade, acabando por dizer que a cidade se sentia muito grata ao 
vice-presidente pela sua generosidade em ajudar  reconstruo do edifcio onde ficava a conservatria 
depois da exploso e do incndio que tinham praticamente destruido tudo, em mil novecentos e sessenta 
e quatro.  claro que, na altura, ele era apenas governador do Massachusetts.

- Incrvel - foi a nica coisa que Luke conseguiu dizer. Absolutamente incrvel.

- Tanto quanto sei, nenhum dos Fearing voltou alguma vez a PowelI, pelo menos at Nick ir l 
inaugurar o novo edifcio, em sessenta e quatro. Nessa altura, os pais j tinham morrido uns catorze 
anos antes, num trgico desastre de automvel, imagina tu. Outra ponta solta cortada.

- Olha que fizeste um trabalho impressionante! - gabou Luke.

-H mais, mas a maior parte  biografia normal. Ainda no topo bem o homem, a no ser pelo que 
tinha visto na televiso ou lido nos jornais antes de isto tudo acontecer, mas  a personificao do sonho 
americano. Filho de pobres missionrios, educado nos primeiros anos pelos pais, acabou o liceu em
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Lawrence, Massachusetts, imagina. Foi para Harvard em mil novecentos e quarenta e oito e formou-se 
entre os primeiros do curso trs anos depois, com um de avano. Depois cursou Direito tambm em 
Harvard e foi o editor da Revista de Direito. Fez um estgio no gabinete do procurador distrital e deve 
ter sido bastante competente, porque, em mil novecentos e cinquenta e oito, com a madura idade de 
trinta anos, foi nomeado para o cargo. Aparentemente, o tipo que ele substituiu morreu ao servio. 
Hum hum...

Hum hum, dizes bem - concordou Luke. - E o resto? Procurador-geral estadual entre sessenta e 
sessenta e dois e depois vice-governador durante dois anos, tornou-se governador aos trinta e seis, 
quando OBrian ocupou outro cargo qualquer em Washington. O resto, como se diz,  histria. 
Fearing, o Destemido, o mais duro procurador-geral que os Estados Unidos jamais tiveram, inimigo 
declarado do crime organizado e terror dos patres corruptos dos sindicatos. Finalmente, candidato, 
juntamente com George Tabor, de longe o mais fraco e inepto presidente que alguma vez elegemos. Um 
editorial que li dizia que, durante a campanha, Tabor no teria sido capaz de andar e mastigar pastilha 
elstica ao mesmo tempo, se o Fearing no o treinasse.

-Achas que a tua me sabia o que estava no cofre? perguntou Lukc.

Duvido, ela nunca foi pessoa de guardar segredos. Se soubesse, acho que me tinha contado e, para bem 
dela, foi melhor assim. Bom, mas sabemos ns. E que vamos fazer?

Luke no teve oportunidade de responder  pergunta, pois uma elegante morena, que parecia tudo 
menos bibliotecria, aproximou-se do cubculo e informou-os de que a Widener ia fechar.

-Acho que podemos c voltar amanh - observou ele, enquanto recolhiam os apontamentos.

-Para qu?

- Precisamos de saber mais coisas sobre o Fearing, s ainda temos umas quantas ideias e uma fotografia 
desbotada. Estamos na pista certa, mas, se tentarmos convencer algum com as provas que at agora 
conseguimos, acabamos provavelmente no mesmo quarto do hospital de Bridgewater ou pior.

i            - H com certeza muitas coisas bem piores do que ficar no mesmo quarto que tu, seja l onde 
for - gracejou Karen, o que o fez sorrir.

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- Bom, nesse caso, ficas encarregada de arranjar um stio para passarmos a noite. Deve haver penses 
aqui perto.

A tempestade transformara-se numa fina chuva empurrada pelo vento, quando, aps descerem a 
escada da biblioteca, atravessaram o relvado de Harvard. Quando muito, pensou Luke para consigo, as 
descobertas daquele dia tornavam a posio e o futuro de ambos ainda mais desesperados, o que o fez 
sentir um n na garganta ao compreender que aquela podia perfeitamente ser a ltima noite que 
passavam juntos.

Luke estava encostado a duas almofadas em cima da cama de lato do quarto que haviam alugado no 
terceiro andar da Penso Cranwood. Tinham feito amor vrias vezes durante a noite e outra vez ao 
acordar. Naquele momento, o seu corpo gozava uma paz livre de dores que no se lembrava de sentir 
h anos. Admirava Karen, s de calcinhas brancas, a fazer uma srie de exerccios de alongamento 
seguidos de quinze minutos de outros movimentos perfeitamente controlados. A luz cinzenta da manh 
formava um halo  volta do corpo dela, uma verdadeira combinao de criana e mulher, leve mas 
musculosa, desenvolta e sensual - o gnero de corpo que seria to atraente e desejvel da a vinte anos 
como era naquele dia.

Sorriu e voltou a adormecer, mal fechou os olhos a beleza delicada da rapariga foi subitamente 
substituda pela aterradora imagem de Damian Steele. Tinha o cabelo louro em chamas, a pele dum 
nojento tom esverdeado e ostentava um grotesco sorriso malvado, com os olhos avermelhados e os 
dentes a brilhar. Luke comeou a tremer, tentando em vo abrir os olhos, e ento a cara riu-se com 
gargalhadas agudas e trocistas, misturadas com o som da respirao aterrorizada de luke. A imagem 
tornou-se mais vvida e o riso quase ensurdecedor, at que, tal como aparecera, se desvaneceu, 
substituda por uma voz suave junto ao seu ouvido.

- Acorda, luke. Pronto, j passou, est tudo bem. - Karen fazia-lhe festas na testa, abrindo-lhe 
cuidadosamente os dedos apertados.

Despertou completamente, olhou-a durante um momento, depois abraou-a com toda a fora, at que, 
gradualmente, a sua
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respirao foi ficando mais lenta e parou de tremer. Karen afastou-se um pouco, para lhe pegar nas 
mos.

- Ests melhor?

Luke acenou com a cabea, e ela perguntou:

- Vamos trabalhar? - E, perante novo aceno, continuou no mesmo tom suave: - Deve ter sido um sonho 
horrvel, tens de mo contar depois.

- Que dia  hoje, a propsito? - perguntou Luke, sentando-se na cama.

- Quinta-feira, vinte e oito.
- Uma semana.

- Qu?

- Uma semana - repetiu ele. - S passou uma semana desde a morte da tua me. Meu Deus, que dias!

- V l, matulo, veste-te. Falaremos do passado assim que estivermos mais seguros do futuro, est 
bem?

- Tu mandas - concordou Luke pegando na camisa e nas calas que atirara para o cho na noite 
anterior.

De brao dado, saram para a manh hmida e dirigiram-se de novo para a biblioteca Widener. 
Embora a chuva tivesse parado, o vento forte e a ameaa de nova carga de gua permitiram-lhes usar 
os capuzes dos anoraques sem darem nas vistas. Por sugesto de Luke, seguiram por um caminho 
secundrio, parando numa entrada de prdio mais ou menos em cada quarteiro, para terem a certeza 
de que no os seguiam, e nenhum dos dois achou a precauo exagerada.

Na escada da biblioteca, juntaram-se a uma contnua leva de estudantes sombrios e de lbios apertados.

- poca de exames finais -- comentou Luke, abanando a cabea ironicamente. - Tudo ou nada.

- Que queres dizer? - perguntou ela.

- Que, quando estamos na faculdade, perdemos a noo da vida protegida e limitada que temos, 
sobretudo na altura dos exames. - Baixou a voz para um murmrio, ao passarem as portas de madeira 
e vidro. - Quando penso nas coisas minsculas com que eu me preocupava, comparadas com as que me 
absorvem agora a mente, apetece-me ir ter com cada um destes marres, aban-los at os dentes lhes 
baterem uns nos outros e dizer-lhes que teriam uma educao muito melhor se passassem menos tempo 
enterrados em livros bolorentos e mais a descobrir o que se passa realmente l fora. Vida prtica, devia 
ser uma cadeira obrigatria.

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- Absolutamente - concordou Karen. - E podemos pedir ao Nick Fearing que escreva o compndio.

- Sabes, querida, isso no tem muita graa.

-Mas vai ter, Luke, e daqui a pouco tempo, estou certa disso.

O cubculo que tinham utilizado na vspera estava ocupado por um rapaz cheio de acne e dentes muito 
sados, virtualmente escondido atrs duma pilha de livros, mas Luke viu o suficiente para perguntar a 
Karen por que motivo Harvard comeara a admitir midos directamente do ciclo preparatrio.

Continuaram a andar por entre os cubculos at que conseguiram encontrar um vazio e espalharam os 
apontamentos em cima da mesa.

- Bom, por onde comeamos hoje? - perguntou ela.
- Os jornais so provavelmente o melhor. Tu ficas com o Times e eu tento o Globe. Devem ter os dois em 
microfilme. Talvez depois possamos tentar o Washington Post; tambm devem t-lo. Principia com os 
nmeros mais recentes e vamos andando para trs.

-Mas estamos  procura de qu? - insistiu Karen.

- Vamos tentar compreender o homem, acho eu, conhecer as suas amizades, hbitos, qualquer coisa que 
possa lig-lo  Mafia, qualquer coisa que nos d uma pista da utilizao que faz do cargo. Tenho a 
horrvel sensao de que no tenciona continuar a ser vice-presidente durante os seis anos que restam 
do mandato de Tabor.

- o gnero de pacincia que no parece condizer com ele, pois no? - comentou Karen.

- Digamos que eu no gostava de ser o agente do seguro de vida de George Tabor. Anda, vamos ver se 
arranjamos duas pessoas que nos ajudem, dizemos-lhes que estamos a preparar um livro.

- Perfeito - concordou ela. - Chamamos-lhe Que Aconteceu ao Beb Nick?

Ao princpio da tarde, j tinham dzias de pginas de apontamentos e perfeitamente idnticas 
enxaquecas. Estavam sentados um diante do outro no cubculo, a saborear grossas sandu-

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ches de salame que Karen fora comprar e  espera de que as aspirinas que tinham tomado fizessem 
efeito.

-Porque no comeas tu, querida? - sugeriu Luke. Como assistente social, conseguiste descobrir 
algumas aberraes mentais no nosso homem?

- Vamos deix-lo pelo menos fora do nosso almoo! Parece que tenho os olhos fritos por aquele visor de 
microfilme. Assim que tiver tempo, cancelo a minha assinatura do Times. J chega!

Durante uma hora, falaram dos museus de Bston, dos benefcios duma educao vocacionalmente 
dirigida e dos melhores filmes que cada um tinha visto.

Subitamente, no meio duma curta exposio, comparando os contos de Cheevers e Faulkner, Karen 
calou-se, sorriu e disse:

- Obrigada, estava mesmo a precisar disto.

Luke retribuiu-lhe o sorriso, abriu a pasta das suas notas e comeou a rel-las, pgina por pgina. As 
informaes que obtivera pouco acrescentavam ao que j sabiam. Nicholas Fearing era um verdadeiro 
fenmeno. Se tinha alguma coisa de invulgar, percebeu Luke, era a aparente ausncia total de inimigos 
polticos, ou, j agora, de crticos na imprensa. Era aplaudido por todo o lado, e o Times e a Newsweek 
dedicavam-lhe ttulos de primeira pgina pela sua interveno na soluo de difceis e complicadas 
disputas laborais, s vezes com poucas semanas de intervalo. Num dos casos, o fim duma greve de trs 
meses dos metalrgicos, Luke no encontrou uma palavra de desagrado sobre o contrato que Fearing 
ajudara a elaborar, nem da parte dos operrios nem dos patres.

Karen tambm no descobriu bvios esqueletos nos armrios que esquadrinhou e, de todos os factos 
que reuniu, o que mais impressionou ambos foi o nmero de acusaes e significativas condenaes 
obtidas por Fearing contra patres do crime organizado durante os seus anos de procurador-geral. At 
vrias peas-chave, intocveis durante a guerra de Robert Kennedy contra os chefes da Mafia, 
cumpriram prolongadas penas de priso, e duas das mais importantes, Sammy Gambone, de 
Providence, e Arthur Krenz, dono do maior hotel e casino de Las Vegas, tinham-se aparentemente 
suicidado para no enfrentarem a acusao de Fearing.

- No parece grande coisa - observou Karen quando acabou

- primeira vista, no - concordou Luke -, mas uma vez ou outra, enquanto falavas, senti que algo no 
me soava bem. Percebes o que quero dizer?

- Eu... acho que sim.

- Deixa-me dar-te um exemplo de como a maioria dos mdicos resolve problemas intrigantes - 
continuou ele. - Primeiro, comeam por partir do princpio de que existe uma resposta algures, uma 
explicao para a complicada doena dum paciente. Depois, renem todas as informaes que julgam 
pertinentes e procuram padres de diagnstico. Se da nada resulta, juntam mais elementos e retomam 
o processo do princpio, em perder de vista a premissa bsica de que h uma resposta. As vezes, tm de 
abandonar a noo de que um processo provoca a doena e procurar uma ou mais coisas que corram 
mal ao mesmo tempo. Mais tarde ou mais cedo, presumindo que seja suficientemente inteligente para ir 
atrs da informao certa, um bom mdico encontra a resposta correcta, ou, pelo menos, o suficiente 
para ajudar o doente.

-E tu achas que a resposta ao Fearing est aqui nos nossos apontamentos?

-Talvez no toda, mas alguma coisa. Juro que quase a descobri, num segundo.

- Bom, ento e agora? Mais informaes? - perguntou ela. Notava nele uma energia e uma 
determinao que nunca vira antes. Se alguma vez voltar a estar doente, pensou para consigo,  ele 
que quero que me trate. Alis, onde param todos os grandes mdicos quando uma pessoa precisa 
deles?

- Sim, mais informaes - concordou Luke. - Duas ou trs horas e oxal nos surja alguma coisa. Mais 
tarde ou mais cedo, algum vai acabar por perceber por que razo a minha cara lhe parece familiar, e 
quando isso acontecer acaba-se tudo.

Uma hora e meia depois, surgiu aquilo por que esperavam e, curiosamente, na coluna social dum Globe 
de Bston com trs anos. Luke, depois de passar as pginas rapidamente - demorando-se sobretudo na 
primeira e no editorial e ignorando o resto - ia voltar ao visor de microfilme, aps uma ida aos lavabos, 
quando reparou na cara de Fearing numa fotografia de grupo a trs colunas, no fundo duma pgina 
que j folheara.

- Realmente, chama-se a isto olhar sem ver - comentou em voz alta, lendo e relendo a legenda da 
fotografia e a curta notcia que a acompanhava. - Karen, anda c ver isto! - ex-

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clamou, demasiado alto, virando-se imediatamente para a mquina quando vrios rostos atentos se 
voltaram na sua direco.

- Esta agora ... ! - murmurou ela, de p, com as mos sobre os ombros de Luke, a olhar para o visor. - 
No ser demasiada coincidncia?

- Demasiadssima! - insistiu Luke, em tom triunfante. Demasiadssima! - repetiu, rindo s gargalhadas, 
enquanto ela o abraava pelo pescoo, com os olhos pregados na fotografia.

Gala poltica para obteno de fumdos, chamava-se o artigo sobre uma festa, a cinco mil dlares por 
pessoa, em Stonehill, propriedade do industrial Albert Julian. Na fotografia, via-se o candidato  vice-
presidncia, Nicholas Fearing, acompanhado pela mulher, Angela, alm do anfitrio, Albert Julian, e 
do filho deste, Carl.

- Carl Julian, uma cara que s um pai pode amar - comentou Luke, anotando a data e o nmero da 
pgina, no seu bloco.

Depois, olhou por cima do ombro para os dois lados, tirou o microfilme da mquina e enrolou-o no 
bolso.

- Doutor Corey - gracejou Karen, fingindo-se desapontada. - Sou capaz de aceitar que o senhor seja um 
violador e um assassino, mas um ladrozeco? Bom, a minha me sempre disse que eu no sabia avaliar 
o carcter das pessoas.

-Pelo menos  s uma cpia do Globe e no qualquer coisa importante como a Popular Mechanics - 
replicou Luke, arrumando os apontamentos. - Toca a agarrar na tralha e a cavar daqui.

- Aonde vamos? - perguntou Karen, seguindo atrs dele.
- Arranjar uma mancheia de trocos e descobrir um telefone! H um fulano chamado Albert Julian que, 
segundo penso, est ansioso por ter uma conversazinha conosco.

- Mas como podemos ter a certeza de que o pai est metido nisto tudo com o Carl?

- O Carl  um brutamontes, duvido de que seja capaz de encontrar a sada duma sala com mais duma 
porta. Algum poderoso trata das coisas por estas bandas, e tu mesma disseste que era pouco provvel 
o Fearing fazer tudo a partir de Washington. Tem de ser o Albert Julian. Alm disso, olha para aqui - 
pediu ele, puxando um carto-de-visita da carteira tirei-o ao nosso amigo James Spear.

- Stonehill - leu Karen. - Meu Deus,  a casa do Julian e tem o nmero de telefone

-Ainda duvidas?

- Venha da, capito, que eu arranjo-lhe uma cabina telefnica isolada. Acha que, se for suficientemente 
isolada, podemos...
- Noutra altura, noutra altura!

Albert Julian sentia-se mal desde a morte do filho. Comeara a sentir frequentes tonturas e, em 
diversas ocasies, vomitara as refeies sem ter tempo para sair da sala de jantar. Tentou passar algum 
tempo no jardim e muito mais do que o habitual no seu jacuzzi de trs metros e meio, mas nem mesmo a 
presena de duas encantadoras jovens lhe aliviou os sintomas. A ereco, h muitos anos conseguida 
com grande dificuldade, passou a ser impossvel e pela primeira vez descarregou a fria e a frustrao 
numa das raparigas, o que lhe custou vrios milhares de dlares, e mais de dez horas de cirurgia 
reconstrutiva a ela.

Involuntariamente, amaldioara ainda diversas vezes Dom Nicholas Fearing e a jura que ele e os chefes 
das outras famlias tinham feito numa noite, quase vinte anos antes, quando os seus planos haviam sido 
postos em marcha. Agora, fora obrigado a sacrificar o prprio filho no altar de La Tartaruga.

, O enterro de Carl fora umas horas antes e Julian estava agora estendido na sua enorme cama de teca, 
com um copo meio de conhaque na mesa-de-cabeceira. Tentava dormir, mas o sono no vinha. Vvida e 
dolorosamente, a gnese e a evoluo de La Tartaruga ocupavam-lhe os pensamentos. Por fim, 
dominado pelo lcool e por um fascnio mrbido, descontraiu-se, fechou os olhos e   deixou correr as 
imagens.

Na realidade, fora em parte ideia sua, sua e de Dom Nicholas. Estava-se em 1957, em Junho., e as coisas 
no corriam bem  famlia Juliano e aos seus negcios. Um esforo desmedido para eliminar as duas 
mais influentes famlias rivais da Nova Inglaterra resultara num mar de sangue inconclusivo, no qual 
as suas foras tinham ficado gravemente comprometidas. O dinheiro era cada vez mais difcil de 
conseguir, e Alberto Juliano sabia que era apenas uma questo de tempo at a bala dum assassino, ou 
um desastre financeiro, fazer ruir o seu enfraquecido imprio.

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Nicholas Fearing h muito que dominava as complexidades e as facetas dos sistemas econmico, legal e 
poltico americanos, pelos quais sentia profundo desprezo. Uma hipocrisia constitucional, era como 
ele chamava  forma de governo americano, dirigido por homens moles e ignorantes, de viso limitada, 
facilmente manipulados pelo dinheiro, dominados nos tribunais e susceptveis a vrios meios de 
controlo.

- Podemos ter tudo, Dom Alberto - dissera ele -, o pas inteiro! As ferramentas esto aqui mesmo, nas 
nossas mentes e no nosso desejo, s precisamos de pacincia e de planos cuidadosos.

Depois, elogiara o pai, o tio, Juliano e outros, por terem aberto os alicerces sobre os quais poderiam 
construir um imprio. Pretendia substituir a desconfiana e a tolerncia mal disfarada que existia 
entre as famlias de todo o pas por uma organizao com objectivos comuns, e os mtodos para afastar 
quem se opusesse aos seus planos seriam a manipulao financeira, a perseguio legal e, se necessrio, 
a fora. Para comear, as famlias mais fortes do pas seriam chamadas por Dom Alberto e convencidas 
com promessas de inimaginvel riqueza e poder para elas, os filhos e os netos.

O comeo seria lento e delicado, cada famlia precisaria de constantes garantias de que Dom Alberto 
seria capaz de fornecer o que prometia, fosse o controlo dum sindicato, duma fbrica ou dum poltico. 
No fim, seria atravs dos planos e manipulaes dirigidos por Fearing que essas promessas dariam 
frutos.

Inicialmente, frisou Fearing, ningum, a no ser Juliano e os seus conselheiros mais ntimos, podia 
saber da sua existncia, capacidade e rapidamente crescente influncia poltica, e, eventualmente, 
apenas os patres das organizaes participantes teriam o privilgio de conhecer o segredo.

Objectivo: controlo gradual das principais indstrias, do Congresso e, finalmente, da prpria 
presidncia.

Embora com muitas dvidas, Juliano, incitado pela determinao e inteligncia de Fearing, bem como 
pela prpria posio precria em que se encontrava, expressou um interesse cuidadoso. Primeiro, no 
entanto, fez alguns pedidos e Fearing mostrou-se totalmente de acordo com eles. Assim, dentro dum 
ano, Dom Alberto Juliano, enfraquecido chefe duma periclitante famlia, era substitudo por Albert 
Julian, financeiro, prspero industrial e supervisor de todas as operaes sindicais no Nordeste.
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As mudanas ocorreram subtil e magistralmente, sem a mnima sugesto de envolvimento de Fearing. 
Ao princpio, foi necessrio utilizar chantagem, ameaas e mesmo violncia em situaes mais dificeis, 
mas s quando ele decidia que os meios convencionais no resultavam. Deste modo manipulou pessoas, 
situaes e at sistemas econmicos inteiros com a habilidade dum grande mestre a jogar xadrez 
anonimamente, pelo correio, com um novato.

Quase dois anos depois do dia das discusses iniciais com Fearing, Albert Julian convocou os chefes das 
seis mais poderosas organizaes do pas, e nessa reunio, realizada na isolada ilha Caimo, nas 
Carabas, foi preparada a estrutura de La Tartaruga. Fearing ficou em Bston durante todo o tempo, 
mas manteve contacto dirio com Julian, dirigindo o andamento da assembleia, enquanto continuava 
os seus preparativos para ocupar o cargo de governador do Massachusetts.

Foi Dom Alberto quem sugeriu o nome apropriado para o movimento, inspirado nas gigantescas 
tartarugas-marinhas da ilha, e assim nasceu a nova aliana, que se consolidou lenta mas 
persistentemente, revelando-se indestrutvel.

Seis meses mais tarde, depois de todos os dirigentes da organizao terem testemunhado suficientes 
exemplos do gnio de Julian, Fearing encontrou-se com eles pela primeira e nica vez, de novo nas 
Carabas, onde explicou o seu papel de homem por detrs do homem. Os chefes foram facilmente 
conquistados, e os juramentos de La Tartaruga literalmente selados com sangue.

Nada pode intrometer-se no caminho da total realizao de La Tartaruga, nem preconceitos 
mesquinhos, nem conflitos financeiros, nem ligaes emocionais, nem laos de sangue, tudo tem de ser 
sacrificado  vontade da maioria, foi este o compromisso por todos assumido, mas gradualmente essa 
vontade tornar-se-ia de Nicholas Fearing.

Naquele momento, com a grande hora de La Tartaruga muito prxima, Albert Julian fora chamado ao 
mximo sacrifcio com vista ao objectivo final - a vida do seu nico filho, um simplrio cujo crime fora 
a posse de demasiada informao, pouca inteligncia e nenhum autocontrolo.

E a culpa da morte de Carl, pensava Julian constantemente, era um pontinho perfeitamente 
insignificante em Cape Cod, chamado Lewis Corey. Havia de lhe provocar sofrimento e

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morte, bem como a cada pessoa da sua famlia. La Tartaruga vingaria o seu filho, e a linha genealgica 
que inclua Lewis Corey desvanecer-se-ia agonizantemente da face da Terra.

-Patro.  o Burton.

O estalido do intercomunicador junto  sua cabea ps fim s recordaes cada vez mais dolorosas de 
Julian.

- Sim, que foi? - perguntou, sem tentar disfarar a irritao por ter sido interrompido.

- Uma chamada, patro. O homem diz que  o doutor Luke Corey e que o senhor gostaria, por certo, de 
falar com ele. --Como diabo conseguiu ele o meu ... ? Deixa l, Burton. Eu atendo aqui.

Levantou-se com dificuldade, encaminhando-se lentamente para o lavatrio de mrmore defronte da 
cama, onde molhou a cara com gua fria. Depois, bebeu o resto do conhaque e instalou-se de novo na 
cama antes de pegar no auscultador.

-Fala Albert Julian.

- Senhor Julian, sou Luke Corey. Sabe porque estou a ligar para si -- comeou Luke, sentindo alguma 
da resoluo e agressividade abandon-lo ao ouvir a voz baixa e controlada do mafioso.

-No me parece, senhor Corey, mas estou interessado em saber como conseguiu saber o meu nmero 
particular. E agora, doutor Corey, vamos ver como se aguenta contra um profissional, pensou Julian 
para consigo.

Luke no respondeu imediatamente, preso de momentnea indeciso. Remexeu-se na apertada cabina 
telefnica, olhando para Karen, que observava as montras. Nesse momento, a rapariga olhou na sua 
direco e os olhares cruzaram-se. Ela acenou, ele encolheu os ombros e ela fez-lhe sinal, virando um 
polegar para cima. Era exactamente o reforo de que precisava.

- Senhor Julian - comeou Luke, com todo o vigor de que foi capaz. - No me parece que seja boa altura 
para brincadeiras. Ando a ser perseguido h uma semana. Pessoas boas e inocentes foram assassinadas 
e eu sei que o senhor  o responsvel por grande parte disso, se no por tudo. Na realidade, at sei 
bastante mais. Portanto, ou fala comigo a direito ou eu levo a informao que tenho s autoridades. 
Estou a ser claro
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Albert Julian sentiu-se corar. Pessoas boas e inocentes, pensou para consigo. Tu mataste o meu 
nico filho, meu arrogante pedao de merda. Mataste o meu filho, e agora ests a fazer-me ameaas 
vs.

Respirou fundo antes de falar, mas teve de apertar o auscultador com fora para no o deixar cair da 
mo a tremer.

- Deve calcular que eu tenho algum conhecimento da situao em que se encontra, doutor Corey, 
Exactamente por que motivo decidiu telefonar-me?

Na realidade, a admisso de envolvimento de Julian era tudo o que Luke esperava conseguir com o 
telefonema, mas, animado pela facilidade com que isso acontecera, decidiu insistir, improvisando sobre 
o que planeara com Karen.

- Quero sair disto, senhor Julian. Em troca do meu silncio, quero as pessoas responsveis pelas mortes 
de Connie Evans e Theona Settles e garantias de segurana para mim e para Karen Samuels. Quero 
isso numa carta sua documentando o seu envolvimento em tudo isto, que me entregar em troca da 
informao que eu tenho e o senhor deseja. Finalmente, quero dinheiro, meio milho de dlares, para 
ser exacto. Assim que tivermos a carta e o dinheiro e nos encontrarmos em segurana, fora do pas, 
envio-lhe o material que o senhor pretende.

Nessa altura, Luke sentia as pulsaes bem acima de cem e as mos a tremer.

- Doutor Corey - retorquiu Julian, falando muito mais alto -, o senhor mostra realmente muita coragem 
para quem nem sequer pode aparecer em pblico sem o risco de ser preso por dois homicdios. Que 
pode o senhor ter que valha meio milho de dlares para mim, para alm da confisso de crimes que 
no cometi?

- Est outra vez a brincar. Eu sei tudo: Ferlazzo, Fearing, Damian Steele, tudo. - Luke respirou fundo e 
decidiu que a altura era to boa como outra qualquer para jogar a ltima cartada. No sabia qual seria 
o seu efeito, mas continuou: - Alm disso, tenho informaes que recebi do seu filho Carl, depois de o 
hipnotizar, suficientes para o meter a ele, e provavelmente a si, num grande sarilho.

Houve um prolongado silncio da parte de Albert Julian, mas quando finalmente falou as palavras 
saram-lhe numa torrente aguda e histrica, a de algum que j no consegue disfarar os pensamentos 
ou ter tento na lngua.

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- O meu filho Carl est morto, seu verme! Morto por sua causa. No fao acordos consigo, porque 
quero v-lo morto, e hei-de v-lo! No fao acordos, porque no preciso disso. Acha que um papelito 
qualquer pode meter-se no caminho de La Tartaruga?,Que vai fazer com o seu precioso papel? Entrega-
o a quem?  Polcia?  nossa! Aos jornais? Tambm so nossos! Aos polticos? No tem aonde ir, 
Corey, convena-se. E agora j sabe, o nico acordo que fao consigo  a promessa duma morte mais 
piedosa, se no me obrigar a grandes esforos para o localizar. Voc  que est com brincadeiras, com 
ameaas vs, completamente impossveis de cumprir. Faa os seus jogos, durante o tempo que quiser, 
mas fique sabendo que j perdeu. Est morto! O seu corpo nem sequer ser enterrado, para os 
pssaros e os ces vadios o comerem. O meu nico filho vai ser vingado!

Sem fala e quase em choque, Luke apertou o auscultador de encontro  orelha. Ouviu uma srie de 
gemidos de fazer gelar a medula, alternando com gargalhadas agudas, seguida finalmente por um 
estalido.

Ficou imvel, a olhar fixamente para o auscultador, at que Karen percebeu que alguma coisa estava 
errada e forou a porta da cabina.

-Que tens, Luke? Ests bem? - perguntou.

- Tira-me daqui - pediu Luke -, tira-me j daqui. Sem mais palavras, ela ajudou-o a sair da cabina e do 
centro comercial para a fria tarde cinzenta. Durante vrios quarteires, Luke foi-se arrastando a seu 
lado, com o brao direito metido no dela, com o olhar vazio fixo no passeio. Finalmente, Karen parou 
num pequeno recinto infantil enlameado e sentou-se junto dele em dois troncos, parte duma espiral 
artisticamente construda. Trs rapazitos negros, que brincavam perto de uma rvore, observaram-nos 
como se fossem intrusos e depois desataram a correr rua abaixo.

Luke estava perto das lgrimas quando conseguiu dizer qualquer coisa, numa voz incerta e rouca.

- Est tudo acabado, Karen - lamentou-se encostando a testa s mos, - O Julian  louco, e  tudo muito 
pior do que pensmos. Ele acha que eu lhe matei o filho e no descansa enquanto eu no estiver morto. 
O homem  completamente doido!

- Por favor, fala mais devagar e tenta controlar-te, Luke, pediu a jovem. - Respira fundo e conta-me 
exactamente o que aconteceu.

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luke olhou-a durante um momento e depois comeou novamente a falar entrecortadamente, abraando-
a com toda a fora e a soluar. Karen percebeu que ele estava no limite, prestes a ir-se abaixo com a 
terrvel presso das dores, da incerteza e da desiluso.

-  Eu amo-te, luke - disse baixinho, acariciando-lhe suavemente a cabea. - Nada do que acontea vai 
alterar isso. Foram precisos alguns minutos para o mdico recuperar o

suficiente para lhe relatar o duelo telefnico com Albert Julian. Karen ouviu-o atentamente e, quando 
Luke acabou, assobiou baixinho por entre os dentes.

- Acreditas nele, querido? - perguntou.

- Em que parte? - inquiriu, por sua vez, ele, sorumbtico. - Na parte sobre controlar a Polcia, os 
jornais e os polticos ou naquela de o meu corpo ser comido pelos pssaros e pelos ces vadios? 
Pensando melhor, no precisas de me responder, porque a resposta  sim, acredito no que ele disse.

- Mas, se  tudo verdade, porque havia de te contar? Ou seja, que tinha ele a ganhar?

-  O homem no tencionava dizer-me fosse o que fosse, a no ser talvez que ia apanhar-nos, mas eu falei 
no Carl, ento descontrolou-se e desatou a gritar. Meu Deus, devias ter ouvido como berrava!

- Fazes alguma ideia do que queria Julian dizer com essa coisa de La Tartaruga? - insistiu Karen, 
limpando-lhe o resto das lgrimas da cara.

- No, deve ser o nome da organizao secreta deles, como numa porra dum romance de espionagem. 
Que diferena  que isso faz agora? Estamos lixados, Ele sabe-o e ns sabemo-lo. A nossa nica 
esperana  tornar a ligar-lhe e tentar chegar a algum acordo.

-Achas que  possvel?

- S enquanto o filho da me no chama uns pssaros e uns ces vadios - respondeu Luke, 
estremecendo. - Est convencido de que lhe matei o filho, o que foi provavelmente outro trabalhnho do 
Steele.

- Deve haver algum a quem possamos recorrer, Luke. Que tal o professor de italiano? Ele disse que 
ajudava, se pudesse.

- Enfrenta os factos, Karen. O Julian tem razo, ningum vai acreditar em pessoas acusadas de dois 
homicdios. Logo
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que a carta e a fotografia saiam das nossas mos, estamos perdidos. E a quem raio havamos de as 
entregar? A um professor de Harvard? Como nos pode ele ajudar? Precisamos de algum influente e 
que no seja da gente deles, algum que nos d uma oportunidade de expor o caso antes de nos entregar 
 Polcia. Como  possvel saber quais so os polticos, os jornalistas ou os polcias a quem podemos 
recorrer? Se nos arriscamos e nos enganamos, perdemos tudo. Eu amo-te e quero ficar contigo. No sou 
capaz de me arriscar dessa maneira, quando h tanto a perder. Acho que o melhor  tentar fugir.

Karen levantou-se e afastou-se uns passos, olhando para a fila de casas de dois andares dum dos lados 
do recinto infantil.
- Fugir para onde? Com cem dlares e um carro roubado,

talvez consigamos chegar a Worcester. No, tu mesmo disseste, vamos comear presumindo que h 
uma resposta...

- Mas isso era para resolver um problema mdico - protestou Luke, abrindo as mos num gesto de 
frustrao. - Isto  dife...

No chegou a acabar a frase, pois, com um gritinho de excitao, a rapariga correu para ele e ajoelhou-
se na lama, agarrando com os braos as pernas dele.

- Fala-me do Servio Nacional de Sade, Luke!  um organismo bastante importante, no ?

A confuso do mdico perante aquela exploso durou apenas uns segundos. Sem sequer lhe empurrar 
os braos, levantou-se e olhou-a fixamente.

- Ests doida, Karen? No h a mnima hiptese de o meu pai nos ajudar.

- Porque no? - insistiu ela, sem sinal de desistir. -No nos falamos h anos. Quer dizer, para ele, eu 
morri h muito tempo.

- Como sabes isso, Luke? - perguntou a rapariga levantando-se tambm. -  teu pai.

- O que no quer dizer..

- Tu prprio afirmaste que ele tem um cargo importante em Washington - interrompeu a jovem.

-Sim, mas no vejo como...

- E no h grande hiptese de pertencer  gente do Fearing, pois no?
-  No, mas...

- No ests a ver, Luke? Ele pode ajudar-nos, por certo ain-
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da gosta de ti. S tens de lhe falar, por favor, Luke, por favor, telefona-lhe, e j. - As palavras dela 
atropelavam-se e a excitao pusera-a  beira das lgrimas.

- Ouve, Karen -- pediu ele baixinho, puxando-a para si. Amo-te mais do que tudo o que j conheci, 
mas... -No! - gritou ela, empurrando-o. - Quando se ama

realmente algum, no h mas! Quando se ama realmente, corre-se todos os riscos, sejam eles quais 
forem. Engole o orgulho e d tudo por tudo! Isto , por mim, Luke, por ns! Telefona-lhe, por amor de 
Deus, telefona-lhe! - As lgrimas corriam-lhe pela cara, mas os olhos eram de ao e fogo.

Luke aguentou o olhar de Karen durante um minuto, desviou os seus, mas voltou a pous-los nela. Mais 
um minuto de silncio, at que estendeu a mo e pegou na da rapariga,

- Anda - decidiu por fim. - O Uwis T. Corey Segundo vai receber um telefonema do Lewis T. Corey 
Terceiro.

- Fala-me do cargo do teu pai - pediu Karen, enquanto se dirigiam de novo para o centro comercial. - 
Que fazem na Direco-Geral de Sade?

- Acredites ou no, no sei grande coisa.  a torre de marfim no topo da torre de marfim, so os 
manda-chuva. Fica em Bethesda, mesmo  sada de Washington, e  suficientemente grande para 
melhorar as condies de vida urbanas, se algum pudesse transform-la em apartamentos. H trinta 
ou quarenta edifcios, um para cada sector da sade, mais um hospital de bom tamanho, onde 
experimentam novos tratamentos em doentes a quem os outros hospitais j no tm nada que oferecer. 
 um complexo bonito, com um ambiente assustador e uma capacidade operacional impressionante.

-E o teu pai  o director?

-, e bastante bom, segundo o        que tenho ouvido dizer.  o primeiro, em mais de cem anos, a vir de 
fora. Era professor em Harvard e parece que teve alguns problemas, ao princpio, com a velha guarda 
de Washington.

- E depois conquistou-os com o caracterstico encanto dos Corey, no foi? - perguntou Karen, evitando 
os buracos do passeio.

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-Acho que foi uma mistura disso com um corte radical com os velhos processos - e riram-se os dois.

- Ele d-se com os grandes de Washington? - Mais dois buracos no cho, mais dois saltinhos.

- Com certeza. O meu pai  um poltico consumado, sempre foi. No me admirava saber que jantou 
com o Tabor ou o Fearing, ou ambos, nestas ltimas semanas.

- Como vai ficar admirado quando souber que jantou mas foi com o Nichy Ferlazzo, assassino 
profissional! - exclamou Karen, com uma gargalhadinha. - Achas que o apanhas no servio?

- Espero que sim, porque nem me lembro se o nmero de casa dele vem na lista. Quando vivia aqui, no 
vinha. De qualquer maneira, ainda no so cinco. Ouve uma coisa, Karen, eu vou tentar, mas no 
alimentes demasiadas esperanas, por favor. Eu conheo-o.

- Confio em ti, querido - replicou ela, enquanto entravam ambos no centro comercial. - Mas mantm a 
calma, que eu sei que vai correr tudo bem.

Ansiosa por ouvir ao menos uma das partes da conversa, convenceu-o a deixar a porta da cabina 
entreaberta. Depois de a fazer prometer que no o interrompia, marcou o nmero enquanto ela 
folheava um livro de bolso que tirara duma bancada prxima. luke esperava ter de lidar com vrias 
telefonistas, de maneira que ficou um tanto desnorteado quando, depois duma s secretria, lhe 
apareceu a voz preocupada do pai.

- s mesmo tu, Luke? A tua me e eu temos estado preocupadssimos.

Luke respirou fundo e deixou escapar um suspiro de alvio, antes de responder:

- Sim, pai, sou eu e estou bem. Pelo menos, de momento. -Meu Deus, luke, que semana tem sido esta 
para ns! A Polcia foi l a casa vrias vezes e a tua me parece um farrapo. Onde ests?

- Calma, pai. Eu conto-lhe tudo. Estou em Bston, com uma rapariga chamada Karen Samuels, mas 
metemo-nos num sarilho, num grande sarilho. - Fez uma pausa, para se concentrar, mas o pai disse 
imediatamente:

- Tens de ir j  esquadra de Polcia mais prxima. Os detectives que foram l a casa disseram que 
havia boas hipteses de te matarem, se no te entregasses. Vai  esquadra e eu apa-
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nho o primeiro avio para a. Arranjamos-te os melhores advogados e daremos toda a ajuda de que 
precisares. Ns gostamos muito de ti, Luke, e queremos estar contigo, seja o que for que tenhas feito.

- Pai, eu no fiz nada! - exclamou Luke, espantado com a irritao que transparecia da sua prpria voz. 
- Ca no meio duma conspirao para controlar o pas. Sei que parece fantasia, mas h pessoas atrs de 
ns porque temos provas de que o Nicholas Fearing faz parte dessa conspirao. E no podemos ir  
Polcia, porque ela tambm est metida no caso... bom, no toda, mas...

-Tem calma, Luke - interrompeu o pai. - Eu sei que ests a passar por uma fase terrvel, mas precisas 
de ter calma e ouvir o que te digo. No me pareces bem. Tenho amigos em Bston, os melhores das 
especialidades, que podem ajudar-te, se me disseres onde...

- No preciso de psiquiatra, pai - retorquiu Luke, esforando-se por no gritar. - No estou paranoico e 
no sou um assassino. O que lhe digo  verdade.

- Pronto, Luke,  verdade - concordou o pai, com uma calma profissional. - Ento agora diz l onde 
ests, que eu arranjo-te ajuda assim que...

-No, no quero essa espcie de ajuda, quero algum com influncia e poder, e que no faa parte da 
conspirao, para me ouvir e ler o que guardo comigo. Tenho motivos para pensar que o presidente 
Tabor pode estar em grande perigo. Com certeza que, se o pai falasse com ele ou com um dos 
conselheiros, eles...

- preciso calma, Lukc - interrompeu de novo o pai, dessa vez com uma firmeza paternal na voz. - O 
stio mais seguro para ti neste momento  numa esquadra da Polcia ou num hospital. Diz-me para onde 
queres ir que eu vou l ter.

- No est a ouvir o que eu digo, pai. Bolas, nunca me ouviu! Eu telefono-lhe a pedir ajuda e tudo o que 
me diz  que me entregue exactamente s pessoas que tentam matar-me. Bom, deixe l, Tenho-me 
safado at aqui e hei-de continuar a safar-me daqui em diante. Obrigado por nada.

Sem esperar a resposta, desligou.

Furioso, abriu a porta da cabina com um repelo e saiu do centro comercial, com Karen quase a correr 
para conseguir acompanh-lo. Por fim, a vrios quarteires de distncia, parou de repente e voltou-se 
para ela.

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- Ests a ver? Eu bem te disse que ele no me ia ajudar.
- Talvez no - respondeu Karen, em tom rspido. - Mas

caramba, Luke, custou-me a crer no que ouvi. Fazes ideia de como parecias paranico? Eu no sou 
mdica, mas tambm tive vontade de dizer que precisavas de ser internado.

-Mas tudo o que eu disse  verdade!

-Eu sei, meu bruto, mas como h-de o teu pai saber, quando te pes a barafustar e lhe desligas o 
telefone? Est decidido, querido, a partir de agora, s meu subalterno.

-Que queres dizer com isso?

- Que passo a tomar conta do assunto. Ou fazemos o que eu  disser, ou nos arriscamos indo  Polcia.

- Sabes perfeitamente que no podemos...

- E a primeira coisa que eu digo  que vou falar com o teu pai pessoalmente.

- Qu? - perguntou ele, incrdulo.

- Achas que consegues sair de Bston pelas estradas secundrias?

-Acho, mas porqu?

- Porque vais de carro para Washington, esta noite, sozinho. Foi preciso quase uma hora de discusso 
para Luke ceder  sua persistncia e determinao. Na verdade, Karen no abdicou de um nico ponto 
do seu plano, com base no facto de Julian e a sua gente esperarem que eles viajassem juntos, alm de 
no haver fotografias dela a circular, Mais importante ainda era ter a certeza de ser capaz de 
convencer o pai de Luke da verdade do que este, com to pouco xito, tentara dizer.

- Apanho o primeiro autocarro para l e falo com ele amanh - continuou. - Tu segues pelas estradas 
secundrias, sempre de noite, e tentas chegar a Washington depois de amanh, que  sbado. 
Combinamos um stio para nos encontrarmos e, se eu no conseguir levar o teu pai, vou sozinha. Se a 
Polcia te apanhar, liga para ele, que vamos os dois buscar-te. Mesmo de noite, a Direco-Geral de 
Sade deve ter maneira de o contactar em caso de emergncia.

Mostrou-se igualmente positiva e insistente quanto aos pormenores secundrios do seu plano. Luke 
devia levar consigo o original da carta, a fotografia e os artigos. Ela ficaria com uma cpia, todos os 
apontamentos dos dois e o microfilme. O encontro seria no gabinete do pai dele, s oito horas da noite 
de sbado.

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Quando arrumaram o carro na Rua BoyIston, a vrios quarteires do terminal dos 
autocarros, Luke estava realmente convencido de que as ideias dela podiam resultar.

O chuvisco contnuo transformara-se numa carga de gua, e ficaram sentados, de mos dadas 
e olhos hmidos, a ouvir o reconfortante rudo no tejadilho do carro.

- Acontea o que acontecer, Karen, quero que saibas que... - comeou Luke, cortando o 
silncio.

-- Deixa-te disso - interrompeu ela, encostando-lhe um dedo aos lbios - e d-me mas  um 
beijo. Dizes-me essas coisas todas que queres que eu saiba quando nos encontrarmos em 
Washington... mil vezes, se achares bem. De acordo? -Com certeza.

Deram um longo e meigo beijo; depois ela abriu a porta e saiu rapidamente para a chuva. 
Luke ficou a v-la desaparecer na esquina da Rua Arlington, e comeou a pensar no caminho 
que devia seguir para Bethesda. Decidiu ir para sudoeste, entrar no Connecticut e atravessar 
o estado de Nova iorque e a Pensilvnia, antes de voltar para sul, em direco ao Maryland.

Quando ps o motor a trabalhar, deitou uma olhadela ao banco onde ela estivera. 
Cuidadosamente entalado entre o assento e as costas, estava o revlver de Carl Julian. Karen 
devia saber que ele se recusaria a andar armado, de maneira que nem se incomodara a 
perguntar. Pegou nele e sopesou-o. Depois, guardou-o cuidadosamente no porta-luvas, subiu a 
Rua Clarendofi e dirigiu-se para sudoeste, saindo da cidade

V PARTE

Damian Steele nunca gostara de jogos de cartas nem, a falar verdade, de qualquer outro. Assim, ver-se 
reduzido, pelas circunstncias, a faz-lo com um monstro como Victor Barker s lhe aumentara a 
crescente frustrao e impacincia, e perder quase cem dlares para o Humanide fora quase o golpe 
de misericrdia para o seu autocontrolo.

Era sbado, ao fim da noite, e Brian Mundt partira para Nova iorque dois dias antes. No havia sinal 
de Corey, nem qualquer comunicao, desde o telefonema de quinta-feira para Julian. A chuva 
continuava a cair impiedosamente e, depois de quarenta e oito horas fechado num quarto de hotel com 
Victor Barker, ainda no tinha a certeza se o gigante conhecia mais palavras sem ser jogue e sou eu 
a dar.

Por vrias vezes, estivera prestes a dizer a Albert Julian que, l por Carl ter feito asneira, ele no se 
sentia obrigado a levar o caso Corey at ao fim.

O telefone tocou quando estudava o que parecia vir a ser a sua primeira vitria numa hora. Era 
demasiado cedo para a chamada rotineira de Julian, de maneira que sentiu uma ponta de excitao ao 
atirar com as cartas e pegar no auscultador a seguir ao primeiro toque. Era Albert Julian.

- Damian, o Corey anda s claras e est no papo - informou ele.

- Calma a e conte l o que aconteceu. Onde o encontraram?
- Na Pensilvnia, est na Pensilvnia. No sei como diabo chegou l, mas continua a conduzir o Lincoln, 
agora com chapas de matrcula dum parvo qualquer de Watertown. Deve t-las roubado antes de 
partir.

- Esperto - comentou Steele, acenando ligeiramente com a cabea em sinal de admirao.

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Nem por isso. Eu digo-te o que aconteceu. H uma cidadezinha chamada Roseburg, no centro da 
Pensilvnia, a cerca de cento e dez quilmetros de Harrisburg. Parece que o juiz e os trs polcias l do 
stio montaram uma operao para apanhar carros de fora do Estado e ganharem uns trocados. O juiz, 
se  que  juiz,  dos nossos h alguns anos.

Continue - pediu Steele.

Bom, hoje, logo de manhzinha, um dos chus, chamado Colton, avistou o Lincoln a sessenta  hora 
numa das zonas de trinta onde h escolas no assinaladas. Mandou-o parar e pediu-lhe os documentos. 
O motorista meteu a mo no porta-luvas e, de repente, o tal Colton estava a olhar para o cano de uma 
arma. --De que gnero?

- Um revlver de cano curto. Seja como for, o Corey faz o tipo recuar at ao carro-patrulha, entram os 
dois, dirige-se para uma mata prxima e deixa o polcia algemado a uma rvore. Depois, volta at ao 
Lincoln e segue caminho, todo contente. A voz de Julian tinha um tom histrico que comeou a 
incomodar Steele.

-A rapariga estava com ele? -No, ia sozinho.

Ento porque tem tanta certeza de que era ele? Deixa-me acabar, Damian! O Colton ficou agarrado  
rvore durante quase uma hora at ser encontrado. Ento, procura um telefone e fala para o juiz, que 
sabe da recompensa que prometemos. Este liga aos rapazes da Quinta Esquadra.  o Corey, com 
ndoas negras e tudo! As chapas de matrcula falsas  que nos deram a certeza.

Como sabe que est no papo? - perguntou Steele, comeando a ficar impaciente com a narrativa do 
velho.

Um helicptero, Damian! Mandei o helicptero da Policia de Harrisburg  procura dele e h cerca de 
um quarto de hora descobriram-no em direco ao sul, a uns cem quilmetros da fronteira do 
Maryland. Vai muito devagar, pra em zonas arborizadas, parece ir nas calmas - e Julian comeou a 
rir. -Onde est a rapariga?

-No sei, porqu?

Steele nem se incomodou em responder. Folheou as informaes sobre os dois, apesar de as saber quase 
de cor. -Eles que continuem a seguir o Corey, mas que no o prendam - disse, por fim.

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-No fazia tenes disso - respondeu Julian, soando j mais controlado.

- Qu?

- Eu quero-o, Damian, quero que tu e o Victor vo at l e o apanhem para mim. Ele deixou-me ficar 
mal diante dos outros, muito mal. O jacto est  vossa espera em Logan. Vo busc-lo e tragam-no para 
aqui, de preferncia, mas no necessariamente vivo. Assim que aterrarem, tm um carro com rdio  
vossa espera, e a nossa gente segue-o por terra o mais depressa possvel.

- Muito bem - concordou Steele, sentindo algum alvio por a voz do multimilionrio soar mais como 
estava habituado a ouvi-la. - Faa-me um favor antes de partirmos. O Corey parece dirigir-se para 
Washington, ora o pai dele vive l. Verifique com os homens que tm estado a vigiar a casa e veja se 
ocorreu alguma actividade inesperada ou houve visitas, e depois torne a ligar para mim. Samos logo a 
seguir, mas no consigo afastar a ideia de que a rapariga j chegou a Washington e est l  espera do 
Corey.

Vais conseguir, Corey, vais mesmo, dizia Luke para consigo, seguindo pelo pico de RockvIlle em 
direco  Direco-Geral de Sade. No podiam faltar mais de duas dezenas de quilmetros at ao 
desvio, at Karen e ao comeo do fim do pesadelo. Deitou uma olhadela  carteira de cabedal preto, 
com o seu incrvel contedo, inocentemente pousada no assento ao seu lado. Ento, meteu a mo no 
bolso do anoraque e acariciou o revlver. Depois do susto em Roseburg, decidira que o porta-luvas lhe 
limitava o acesso  arma.

As dores nas costas e nas pernas, que tinham piorado durante a viagem, quase desapareceram ao 
entrar em Bethesda. Pela primeira vez em horas, era capaz de prestar alguma ateno ao que se 
passava  sua volta. As imagens com que sonhava acordado continuavam a aparecer, embora menos 
vvidas do que antes: Karen, Fearng, a casa de frias no New Hampshre, Ken putriam, Evelyn 
Samuels, o Hospital Militar de Tquio, o pai, e outras, que lhe entravam e saam do pensamento, 
enquanto se aproximava do fim da viagem.

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Eram quase sete da tarde, embora zonas de nevoeiro e escuras nuvens fizessem parecer mais tarde. Viu 
com alguma inveja dois casais risonhos ultrapassarem-no, aparentemente a camnho de divertimentos 
na cidade. Ai, Karen, pensou, assim que sairmos deste sarilho passamos uma noite na cidade que vai 
durar uma semana.

Durante as ltimas duas horas, sentira os olhos a arder cada vez mais. Resolveu parar numa rua lateral 
ladeada de rvores, examinou-os no retrovisor e viu que estavam inchados e raiados de sangue, um 
perfeito complemento da barba de dois dias. Nas quarenta e oito horas decorridas desde que deixara 
Bston, tinha dormido alguma coisa, mas nunca profundamente, apenas umas sestas no carro ou entre 
as rvores, o que lhe parecera mais seguro do que motis, onde precisaria de se registar. Quanto a 
comida, limitara-se a refeies compradas em mquinas de estaes de servio.

- H quanto tempo  vadio, amigo? - perguntou ele  sua imagem no espelho,

Como esta no lhe respondeu, suspirou, deu meia volta e retomou a auto-estrada. Tinha passado vrias 
horas tensas depois do encontro com o polcia de Roseburg, dirigindo a sua ateno mais para o 
retrovisor do que para a estrada, mas gradualmente,  medida que avanava pelo Maryland, foi-se 
descontraindo, e uma euforia alimentada pelo cansao substituiu grande parte da tenso.

Contudo, se olhasse pelo retrovisor nesse instante, teria visto um Cadillac, preto, conduzido por um 
homem to grande que a sua cabea sem cabelo parecia encher mais de metade do pra-brisas, que o 
seguia a pouca distncia.

Victor Barker amaldioou a sua falta de cuidado ao permitir que o seu carro chegasse to perto do de 
Corey. Abrandou, deixou dois outros meterem-se entre ele e o Lincoln e ento, falou pelo rdio:

-Continuo atrs dele. Estamos a poucos quilmetros do stio onde o pai trabalha. O Corey deve ir para 
l. Dem a nossa posio e destino ao Steele e digam-lhe que apanho o estupor assim que souber se tem 
os documentos. Eu aviso da minha posio quando o caar.

Utilizando a alta silhueta do centro clnico como guia, Luke entrou nos terrenos do hospital. Dez anos 
antes, passara ali um dia a visitar amigos, e lembrava-se de um balco de informa-
19

es na entrada, onde planeava perguntar o caminho para a direco. Viu cerca de dez carros no 
parque de estacionamento fracamente iluminado atrs do edifcio principal.

Estacionou e ficou junto do carro a espreguiar-se, quando o Cadillac parou a vrios lugares vagos de 
distncia.

No reparou em Victor Barker at o homem sair do carro e comear a dirigir-se lentamente para si. 
Usava uma gabardina escura com cinto e uma bengala qualquer, embora mal se notasse que coxeava, 
tapara o crnio careca com um bon de quadrados enganadoramente pateta e acenava a Luke com a 
mo livre.

-Olhe, amigo! - chamou ele, numa voz suave e aguda, com um ntido defeito, pensou Luke. - Importa-se 
de ajudar um velhote deficiente por um instante?

- Lamento, mas sou apenas uma visita - respondeu Luke, enquanto Barker continuava a aproximar-se.

Menos de trinta metros separavam os dois quando reparou realmente na envergadura do homem. 
Apertou instintivamente a bolsa de cabedal preto e, ao mesmo tempo, deu um passo para trs, mas era 
demasiado tarde. Barker distraiu-o por um instante deixando cair a bengala e, antes de o rudo cessar, 
o gigante, em dois enormes passos rpidos, estava diante dele. Um segundo antes de a pata, semelhante 
a um martelo, o atingir, Luke apercebeu-se do movimento pelo canto do olho e desviou-se, por reflexo. 
Mesmo assim, a pancada dirigida  tmpora apanhou-o no alto da cabea, atrs da orelha, fazendo-o 
voar uns metros pelo ar antes de cair no alcatro. Sem conseguir aclarar as ideias o suficiente para 
fazer um movimento, foi apanhado pela garganta at ficar s com os bicos dos ps a tocar no cho. 
Ento, com uma lenta e quase paciente presso, as enormes mos comearam a apertar e, em poucos 
segundos, as dores e o medo de Luke foram desaparecendo, sendo substitudos por uma enevoada 
sensao de flutuar. O animal ostentava um sorriso grotesco no rosto rosado, a centmetros do seu, at 
que por fim comeou tambm a desaparecer.

Do que lhe pareceu serem quilmetros de distncia, chegou-lhe um estranho rudo agudo - o escape de 
um carro? Um foguete? Quase ao mesmo tempo, o aperto na garganta desapareceu e Luke caiu no cho 
como um boneco. O Humanide recuara um pouco e, ainda a sorrir, olhava para a parte da frente da 
gabardina. O bon tinha-lhe cado e Luke encarou a enorme cabea brilhante.

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S alguns segundos mais tarde  que reparou que segurava o revlver na mo direita e comeou a 
perceber o que se passava. Nessa altura, Barker avanou de novo e o rudo do tiro foi muito mais forte 
da segunda vez, mas pareceu ter pouco ou nenhum efeito no gigante. Luke disparou mais trs vezes, 
cada disparo obrigava o Humanide a parar ou a dar um passo atrs, e, aps o quinto tiro, viu 
aparecer de repente um buraquinho escuro no meio da testa da criatura, donde escorria um fio de 
sangue para as gordas pregas de carne. Barker pareceu um tanto confuso, mas continuou de p, a 
menos de um metro e meio de distncia, uma escura montanha humana contra o cinzento cu do 
entardecer.

Luke disparou mais duas vezes, mas ouviu apenas impotentes estalidos das cmaras vazias. 
Desajeitadamente, tentou pr-se de p, mas, antes de o conseguir, sentiu de novo as mos em volta do 
pescoo, esmagando msculos j doridos, comprimindo cartilagens j enfraquecidas, A sensao de 
flutuar estava de volta, dessa vez progredindo at um nevoeiro cinzento e depois  escurido.

Acordou num remoinho de dor e falta de ar. S com a cabea num ngulo esquisito conseguiu aliviar o 
latejar no pescoo e, ao mesmo tempo, meter o ar suficiente nos pulmes. Victor Barker jazia imvel a 
seu lado no alcatro, com os olhinhos minsculos voltados para cima, sem ver, e uma pequena poa de 
sangue a comear a congelar em cima de um deles.

Na realidade s o segundo tiro, apenas, o segundo, fora fatal para o Humanide, um golpezinho na 
aorta torcica, que sangrou e acabou por explodir com a presso do seu ataque final.

Com uma agonizante lentido, Luke conseguiu pr-se de p e recuperar a bolsa do stio onde a deixara 
cair. Cambaleou num crculo completo, mas no viu outro sinal de vida no parque de estacionamento. 
Ento, sem olhar sequer para o homem que acabava de matar, avanou a coxear para a porta do 
Centro Clnico.

A mulher de cabelo azul sentada ao balco das informaes olhou-o com receio e nojo, mas acabou por 
desistir de tentar convenc-lo de que o edifcio que procurava estava fechado e indicou-lhe o caminho. 
O inchao no pescoo e na laringe era to grande que tinha a voz reduzida a um murmrio quase 
inaudvel. Mesmo assim, refreou o impulso de dizer  curiosa galinha: No faz mal, o director  meu 
pai.

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As indicaes da mulher eram to boas como maus os modos, e uns minutos depois Luke subia a escada 
de granito do antiquado edifcio. Tirando o trio bem iluminado, no viu luzes em qualquer das janelas 
e, surpreendentemente, a porta da frente estava aberta, o que lhe aumentou a esperana de que o pai e 
Karen tivessem chegado.

A um canto do trio, um segurana fardado lia a seco desportiva do Washington Post, sentado a uma 
pequena secretria.

- Desculpe, venho ter com o doutor Lewis Corey. Ele est? - perguntou Luke, num murmrio.

- No posso ajud-lo - respondeu o homem, espreitando por cima do jornal.

Tinha um forte sotaque sulista e, embora s conseguisse ver-lhe os olhos entre o jornal e o bon, Luke 
experimentou a desagradvel sensao momentnea de j os conhecer. Avanou o suficiente para 
espreitar por cima do jornal e mal conseguiu reprimir um sobressalto ao ver a cara toda. Um bigode de 
pontas bem enroladas no conseguia disfarar-lhe a aparncia grotesca, de pele amarelada, com papos 
e dentes dum tom castanho-escuro que dava a volta ao estmago de qualquer pessoa. Ainda mais 
impressionante era uma cicatriz vermelho-viva que ia s curvas desde o olho esquerdo ao meio do 
queixo, passando-lhe pelo canto da boca. Outra, mais pequena, mas no menos colorida, cortava-lhe a 
face direita, desaparecendo debaixo da ponta do bigode. Um gordo charuto, da cor dos seus dentes, 
saa-lhe do canto da boca, exalando um fumo acre.

Detestava encontrar o mangas que lhe fez aquilo, pensou Luke, sorrindo para consigo.

- O doutor Corey - tornou a dizer, no mesmo tom rouco.
-   Venho ter com o doutor Corey.

-No est - resmungou o homem.
- Bom, eu espero no gabinete dele.

- Fechado, - O guarda abanou a cabea e voltou ao jornal.
- Diga-me s onde fica o gabinete dele e eu espero l. Luke mal conseguiu pronunciar as palavras, e 
comeou a

sentir cada vez maior frustrao e fria por desconfiar de que a laringe podia fechar-se-lhe 
completamente.

- Primeiro andar, pelo corredor,  direita.

Luke voltou-lhe as costas sem responder e dirigiu-se para a curta escada que dava acesso ao primeiro 
andar. A meio do
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trio, viu umas pernas nuas no cho a sair duma porta. Sentiu um arrepio no corpo todo, avanou o 
mais depressa que pde para o vulto imvel e viu que se tratava de um homem de idade, estendido  
porta do gabinete do director e... morto. Estava em roupa interior, tinha o cabelo prateado ensopado de 
sangue e salpicos manchavam-lhe a cara paradoxalmente serena. A parte de trs do crnio 
desaparecera, espalhando parte do contedo.

Varrido por uma onda de nusea, Luke afastou-se, voltou para a escada e avistou o guarda a uma 
dezena de metros, sorrindo ironicamente. O bigode, o charuto e as cicatrizes tinham desaparecido, e o 
bon estava no cho junto aos seus ps, expondo o forte e ondulado cabelo louro que, mesmo  
distncia, parecia meticulosamente penteado. Com uma das mos na cintura, segurava com a outra um 
pesado revlver de cano longo, apontado a Luke.

Num reflexo, este pronunciou o nome de Steele, mas o nico som que se ouviu foi o do ar forado 
atravs das cordas vocais inchadas.

- A esta hora, os meus homens apanharam o seu pai e a rapariga, Corey. Acabou - anunciou Steele 
calmamente, sem dar um passo sequer na direco do mdico. - Se quiser ter a bondade de manter as 
duas mos onde eu possa v-las e de avanar lentamente, gostava de examinar o contedo dessa bolsa 
que traz consigo.

Voltando a cabea o menos possvel, Luke olhou primeiro para o guarda morto e depois para o outro 
lado, onde brilhava uma luz vermelha de sada a menos de dez metros.

Tentou a sua sorte  quase por instinto, por recear pela vida de Karen e para tentar fugir. Rodando de 
repente, atirou-se de cabea para a base da parede e depois ~- no instante em que uma exploso 
rebentava o estuque junto  sua cara. Dera apenas trs passos cambaleantes na direco da sada, 
quando uma segunda exploso soou e com ela, quase instantaneamente, uma indescritvel dor na perna 
esquerda.

O corpo rodou-lhe quase cento e oitenta graus antes de bater com toda a fora na parede e cair no cho. 
Ficou deitado de costas, com os olhos fechados e a aproveitar o que lhe restava de energia para forar o 
ar para os pulmes. Tinha sido atingido logo acima do joelho, mas a mente j no conseguia localizar as 
dores, e o resultado era ter a metade inferior do corpo como se estivesse a ser queimada com carves 
em brasa.
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Steele avanou lentamente, tirando imenso prazer da cena. Luke estava imvel, com a respirao fraca 
e a perna das calas ensanguentada. Com cuidado para no tocar na sua vtima, Steele pegou na bolsa 
de cabedal e examinou o seu contedo. Acenou com a cabea, satisfeito, assim que encontrou primeiro a 
carta e depois a fotografia.

- Foi um adversrio e tanto, doutor Corey - elogiou ele, olhando para a poa de sangue que se formava 
no cho de mosaicos. - Nestes ltimos dias fiquei com uma grande admirao pela sua desenvoltura. Se 
a sua luta fosse contra outra pessoa qualquer, acredito realmente que era capaz de se ter safado.

Luke abriu os olhos mas estava envolto numa nvoa. A cara de Steele era quase invisvel na sombra e 
na escurido que aumentavam gradualmente. S conseguia pensar em Karen, queria implorar pela 
vida dela, agora que a horrorosa carta e a fotografia estavam em poder dos perseguidores. Queria 
mentir e dizer que o que Steele tinha na mo eram apenas cpias, mas j no era capaz de emitir 
qualquer som.

- Nem sequer ouve o barulho, doutor Corey, prometo disse Steele, colocando a arma lentamente dentro 
do campo de viso do mdico. Este mordeu o lbio inferior e tentou fixar o olhar hipnoticamente no 
buraco no fim do cano.

O que se seguiu foi uma confuso de rudos e movimentos, primeiro os gritos, depois a arma a 
desaparecer-lhe da vista, depois as exploses - trs?, quatro? - e finalmente o baque, quando o vulto 
alto caiu no cho a seu lado. Passos, vozes e, de repente, caras desconhecidas, dois homens novos, de 
armas em punho, curvados sobre si. A seguir, mais passos e outro rosto, este familiar.

A voz do pai pareceu chegar-lhe atravs dum tnel de muitos quilmetros.

- Luke, ouves-me? Tu ests bem? Ai, meu Deus! Chamem uma ambulncia! Depressa!

A nvoa cinzenta desfez-se por um momento, depois voltou, quase escondendo o rosto preocupado, mas 
de repente, sentiu uma mo num ombro e viu outra cara. Com grande esforo, piscou os olhos e forou-
os a focarem. o vulto. Primeiro o cabelo cinzento, a seguir os olhos familiares e o nariz aquilino e, por 
fim, o reconhecimento. Era o presidente George Tabor.

-Voc est bem, filho? - perguntava ele. - Viemos ajud-lo.

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De repente, tambm a cara dele comeou a desaparecer, substituda por uma luz reconfortante, que 
parecia emanar do seu vulto. Lentamente, Luke fechou os olhos, entregando-se  escurido.

Foi o cheiro de Karen, mais do que o toque, que atravessou o vazio. Era o rosto dela, a centmetros do 
seu, com lgrimas a deslizarem-lhe pelas faces. Sentiu-lhe as mos acariciarem-lhe a testa.

- Karen - a palavra saiu de facto.

A rapariga forou um sorriso, encostou os lbios  orelha dele e a escurido voltou a envolv-lo, 
enquanto as vozes se afastavam.

-- Acabou, Luke. Est tudo terminado - foram as ltimas palavras que ouviu

EPLOGO

2 de Junho de 1978

-Margaret, Karen, oiam isto. Aconteceu exactamente o que o Tabor disse! - exclamou Lewis Corey Jr., 
sentado no seu gasto cadeiro de cabedal, a ler o Post de domingo. O sol da manh entrava pela grande 
janela do seu escritrio, dando  sala forrada de madeira escura um calor e uma vida que normalmente 
no possua.

-Espera um minuto, Lewis - acalmou-o a mulher.

O caf est quase pronto. Vamos j. Karen querida, importa-se de arranjar os pezinhos e de os pr no 
tabuleiro? Conhecendo o meu marido, se no tem pblico nos minutos mais chegados, fica com a 
tenso altssima!

- Calculo que sim - disse Karen, rindo. Vestia um roupo comprido azul-claro e andava dum lado para 
o outro na cozinha, com pantufas peludas amarelas, dando ao ambiente um calor muito seu. - Os 
pezinhos esto prontos. Vamos l ouvir os ltimos acontecimentos.

As duas mulheres dirigiram-se para o escritrio, distriburam caf e pezinhos e sentaram-se em 
cadeires confortveis. Embora Corey tratasse cada nova notcia como um acontecimento nico, Karen 
e Margaret tinham-se habituado s sesses de esclarecimento quase dirias e divertiam-se com o 
entusiasmo da leitura.

Lewis Corey levantou ligeiramente os olhos do jornal, para ter a certeza de que as suas ouvintes 
estavam a postos e ento, sem prembulos, comeou a ler, evitando cuidadosamente qualquer entoao 
ou comentrio.

- Fearing anuncia demisso. Vice-presidente nega qual-
20

quer irregularidade, mas demite-se no interesse do partido e da nao. Sob a presso crescente da 
comisso do Congresso que investiga as suas possveis irregularidades financeiras, o vice-presidente 
Nicholas Fearing anunciou hoje a sua demisso. Enfrentando estoicamente uma conferncia de 
imprensa em Washington, acompanhado da mulher e das filhas, Fearing denunciou a investigao do 
Congresso como uma caa s bruxas e tornou a afirmar-se inocente de quaisquer irregularidades. 
Investigaes recentes desvendaram possiveis inconsistncias nas declaraes de impostos do vice-
presidente durante os trs anos anteriores  sua eleio, e correm rumores na colina do Capitlio de 
mltiplas acusaes contra o homem que muitos observadores consideravam um sucessor certo do 
presidente Tabor. Este tem recusado firmemente comentar a situao de Fearing, embora j marcasse 
uma comunicao televisiva a nvel nacional para as dezanove horas de hoje. Espera-se que aceite nessa 
altura, com pesar, a demisso do vice-presidente e que indique os seus planos para a escolha dum 
sucessor.

Corey deu uma vista de olhos pelo resto do artigo, decidiu que no havia mais informaes e, 
cerimoniosamente, pousou o jornal.

- Grande Nick! Fez um trabalho fantstico e vamos ter imensas saudades dele! - exclamou Karen. - Que 
acha que vai acontecer a seguir, doutor Corey?

- No sei, Karen - respondeu ele, enchendo um cachimbo  Sherlock Holmes com a sua mistura especial 
de encomenda. -  irnico ser deposto pelas mesmas manipulaes financeiras que utilizou com tanto 
xito para destruir outros. Ouvi dizer que o George quer o Fearing fora do pas dentro dum ano ou 
menos, quando estiver convencido de que a maior parte dos membros de La Tartaruga foram 
identificados continuou, - O Fearing acaba provavelmente por escrever um livro no convs do seu iate 
ao largo da sua ilha particular, no mar Egeu.

- Pelo menos, sempre  melhor do que no seu pas particular, ou seja, no nosso - comentou Karen. -  
pena que o Albert Julian no tenha ficado por c tempo suficiente para participar nisto tudo, pois 
adorava seguir o relato do julgamento dele nos jornais.

- Homens como ele no so julgados muitas vezes, Karen - observou Margaret Corey. - Embora sejam 
geralmente
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libertados por um advogado esperto e no por um frasco de comprimidos para dormir.

- Nunca lhe perguntei uma coisa, Karen, mas tenho pensado nisso - interveio o Dr. Corey. - Que 
planeava fazer, se eu tivesse recusado receb-la ou se os meus planos de ir  pesca naquele dia no 
tivessem falhado?

- Que teramos ns todos feito, se no tivesse ficado suficientemente convencido para falar com o 
presidente Tabor e conseguir que ele mandasse os servios secretos para l? Provavelmente, ramos o 
prato principal dum jantar do Fearing na Casa Branca, a esta hora - respondeu ela com outra 
pergunta.

- Que conversa  essa de jantar? Ainda nem tomei o pequeno-almoo.

Voltaram-se os trs ao mesmo tempo para a porta, onde Luke parara, confortavelmente apoiado a um 
par de canadianas. O aparelho de gesso da sua perna esquerda estava coberto de desenhos e 
assinaturas, incluindo muitas dos polticos mais proeminentes do pas, o que faria com que qualquer 
caador de autgrafos ficasse cheio de inveja,

- Sabes perfeitamente que no deves andar j por ai sem ajuda, Luke - ralhou a me.

-Eu estou bem - protestou ele.

- Seja como for, acho que devias seguir as ordens dos mdicos, para variar - ralhou Karen, abraando-o 
com toda a fora.    No quero desculpas que te safem da cerimnia. Qual cerimnia?

Do casamento, pateta! De quem?

Eu respondo a essa pergunta assim que me fizeres o pedido - disse Karen.

- Achas que vais conseguir aguent-la, Luke? - perguntou o pai.

- Sim, com pacincia e compreenso - respondeu ele. Primeiro, um bocadinho de pacincia, depois um 
bocadinho de compreenso e finalmente ceder a tudo o que ela quiser. A  que est a verdadeira chave.
